Joachim Löw é um técnico questionável em muitos pontos. No entanto, é difícil negar sua coragem. Especialmente depois que anunciou os pré-convocados da Alemanha para a Copa do Mundo de 2014. O treinador escolheu 30 jogadores, dos quais sete serão cortados da lista final. Um grupo recheado de jovens surpresas, dos quais dez sequer tinham nascido quando o Nationalelf conquistou o seu último Mundial, em 1990. E seis deles nunca entraram em campo pela seleção principal, nem mesmo para amistosos. Sangue novo, mas que significa menos do que parece diante de tudo o que já estabelecido no time.

A ausência de alguns nomes tarimbados, por exemplo, é mais marcante. Löw precisou lidar com vários problemas de lesões recentes. Não quis bancar muitos deles. A maior aposta é em Sami Khedira, que não joga desde o final de 2013 e se recupera de grave problema no joelho. Mas, para contar com um volante que combinasse marcação e dinamismo, entre ele e Ilkay Gündogan, o treinador preferiu deixar de lado o volante do Borussia Dortmund, longe dos gramados desde agosto. Também por ter se machucado há pouco tempo, seu companheiro Sven Bender foi outro a ficar de fora. Já no ataque, Miroslav Klose e Mario Gómez vinham baleados pelos problemas físicos e pelo peso da idade. O centroavante da Fiorentina foi preterido, diante da aposta de que Klose possa manter sua fome de gols pela seleção e, assim, se tornar o maior artilheiro da história das Copas.

A questão é que Löw fugiu do óbvio para preencher as lacunas. Nada de apostar em Max Kruse, Sidney Sam e outros jogadores que, apesar das poucas convocações, parecem mais preparados para suportar o peso de uma Copa do Mundo. Os escolhidos foram Shkodran Mustafi, Erik Durm, Matthias Ginter, Leon Goretzka, Max Meyer, André Hahn e Kevin Volland. Todos com qualidades, nomes da geração de garotos que está chegando à Bundesliga  e que devem crescer nas próximas temporadas. Ainda assim, alternativas que se sugerem um tanto quanto arriscadas em uma competição com tanto peso e tantas estrelas

Os 30 pré-selecionados da Alemanha

Goleiros: Manuel Neuer (Bayern), Roman Weidenfeller (Borussia Dortmund), Ron-Robert Zieler (Hannover).

Defensores: Jerome Boateng (Bayern), Erik Durm (Borussia Dortmund), Kevin Grosskreutz (Borussia Dortmund), Benedikt Howedes (Schalke), Mats Hummels (Borussia Dortmund), Marcell Jansen (Hamburgo), Philipp Lahm (Bayern), Per Mertesacker (Arsenal), Shkodran Mustafi (Sampdoria), Marcel Schmelzer (Borussia Dortmund).

Meio-campistas: Lars Bender (Bayer Leverkusen), Julian Draxler (Schalke), Mario Gotze (Bayern), Leon Goretzka (Schalke), Andre Hahn (Augsburg), Sami Khedira (Real Madrid), Toni Kroos (Bayern), Max Meyer (Schalke), Mesut Ozil (Arsenal), Marco Reus (Borussia Dortmund), Bastian Schweinsteiger (Bayern), Matthias Ginter (Freiburg).

Atacantes: Lukas Podolski (Arsenal), Thomas Muller (Bayern), Kevin Volland (Hoffenheim), Andre Schurrle (Chelsea), Miroslav Klose (Lazio).

É evidente que a maioria desses jovens não deve ir à Copa. O restante do elenco ainda é povoado por medalhões. De qualquer forma, Löw deixa claro que, durante a preparação para a Copa de 2014, já estará pensando na renovação da seleção. Houve até mesmo reclamações por outros jogadores em ascensão, como Johannes Geis, Stefan Bell ou Max Arnold. Entretanto, dos sete garotos, os que parecem mais próximos de virem ao Brasil são o zagueiro/volante Ginter e o atacante Volland, mais pelas carências do grupo do que pelo futuro promissor em si. Contudo, diante da postura de Löw, não é de se duvidar que talvez ele leve Max Meyer, o mais jovem, mas talvez o mais talentoso dos novatos.

De resto, Löw manteve os que jogadores vinha chamando há mais tempo. E é de se observar como ele aproveitará a capacidade de adaptação de boa parte deles. Com a ausência de Max Kruse (um dos melhores jogadores alemães da Bundesliga atualmente), Klose é o único centroavante típico entre os listados. É bem provável, então, que Thomas Müller e Lukas Podolski joguem por ali se o veterano não estiver 100%. Ou mesmo Mario Götze, testado como falso 9 algumas vezes na seleção.

Do meio para frente, pelo menos, os alemães não podem reclamar da falta de qualidade. Marco Reus e André Schürrle chegam ao Mundial em fases estupendas, prontos para serem titulares. Para a criação, a técnica está garantida com Mesut Özil, Toni Kroos, Julian Draxler e Bastian Schweinsteiger. Difícil mesmo é encaixar tantos jogadores técnicos. Caso o homem de referência não seja mesmo Klose, pode-se pensar até em uma mudança tática, do 4-2-3-1 para o 4-3-3, privilegiando a cadência dos meio-campistas e a velocidade dos atacantes.

A questão mais será proteger a defesa, onde estão as maiores carências. O único lateral de total confiança é Phillip Lahm e, ainda assim, Löw o utilizou nos últimos jogos como volante. Já o miolo de zaga peca pela lentidão, tendo à disposição Hummels, Mertesacker e Boateng. Por fim, nem mesmo Neuer é mais unanimidade, diante da boa fase de Weidenfeller – e isso porque Marc-André ter Stegen foi preterido por Ron-Robert Zieler, uma ausência talvez mais questionável do que a de Max Kruse.

O período de treinamentos na Bahia será precioso à Alemanha. Tanto para Löw tentar encontrar o melhor encaixe para os seus convocados, reforçando a marcação sem perder a qualidade ofensiva, quanto para saber se o desgaste das temporadas de Bayern e Dortmund terá influência sobre o time – 15 dos 30 chamados nesta quinta vêm da dupla, sendo sete dos bávaros. O Nationalelf ainda é um dos favoritos ao título Mundial, mas tem muitos detalhes a solucionar. Um deles, ao menos, o técnico tirou parcialmente de sua frente: os muitos lesionados. Nem que para isso fosse preciso apostar em sangue novo para, em caso de novo fracasso, os alemães evitem o impacto ao serem apontados como o time do futuro outra vez.