A forma como uma história é contada às vezes dispensa o gosto pelo esporte para ser interessante. Não é necessário amar o tênis para se deliciar com a biografia do ex-tenista Andre Agassi. A comparação pode ser injusta porque a obra do americano é, provavelmente, a melhor do gênero, mas o livro que Alex Ferguson lançou assim que se aposentou como treinador do Manchester United, após 27 anos no comando, está longe de ser agradável para todos os públicos.

Agassi foi entrevistado várias vezes pelo jornalista J. R. Moehringer e o deixou construir a narrativa da forma que quisesse. A história do vencedor de oito títulos de Grand Slam é excelente, mas poderia ser a de Horacio Zeballos que também valeria a pena gastar umas horas na sacada virando as páginas. Ferguson, um obcecado por controle, nunca permitiria que o seu escritor-fantasma, o editor-chefe de esportes do Daily Telegraph, tivesse tanta liberdade.

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O resultado foi um livro um pouco desconexo. Ferguson é excessivamente repetitivo com algumas opiniões e fatos. A definição dos capítulos por temas é uma mera formalidade. Ele começa a falar sobre um assunto e de repente emenda outro completamente diferente. Às vezes volta ao inicial, às vezes não. A sensação é de conversar com o seu avô na mesa da cozinha sobre aquele verão de 1967: algumas boas histórias, algumas piadas do estilo “na hora foi muito engraçado”, mas é difícil manter a atenção afiada o tempo inteiro.

Ferguson não é humilde quando vangloriza o trabalho que fez. E nem deveria ser, afinal o cara conquistou 13 títulos ingleses, para usar apenas um parâmetro. No entanto, parece se orgulhar mais do controle que teve sob todos os jogadores que passaram pelo clube de 1986 a 2013, do desconhecido Nick Powell ao astro David Beckham.

Não deve ser coincidência que Beckham, Roy Keane, Van Nistelrooy e Wayne Rooney tenham ganhado o seu próprio capítulo – os únicos outros jogadores que tiveram essa honra foram Cristiano Ronaldo e Rio Ferdinand. As histórias deles são casos emblemáticos de como, na hora do vamos ver, a vontade de Ferguson prevaleceu. No Manchester United – ele realmente não cansa de repetir isso – ninguém pode ser maior que o treinador. O poder de Ferguson nos vestiários precisava ser preservado, mesmo às custas do seu mais longevo capitão, do queridinho da Inglaterra e de um artilheiro da estirpe de Nistelrooy.

Até o capitão Roy Keane precisou ser sacrificado para Ferguson manter o controle (Foto: AP)

Até o capitão Roy Keane precisou ser sacrificado para Ferguson manter o controle (Foto: AP)

Rooney permaneceu em Old Trafford, mas também ganhou um bom destaque. Provavelmente porque Ferguson quis explicitar o quão burro o jogador foi ao pedir para sair em 2010. Ele alegou que faltava ambição ao clube que havia acabado de ser tricampeão inglês e jogado duas finais de Liga dos Campeões consecutivas. Tudo porque o técnico não quis contratar Mesut Özil. Curiosamente, a sua opinião mudou imediatamente no momento em que ele ganhou um aumento de salário.

Ferguson não tinha medo dos jogadores. Deve ser realmente difícil assustar um homem que passou a juventude separando brigas de estivadores em um pub de Glasgow. O livro é muito mais focado na carreira dele no Manchester United do que na Escócia – um acerto -, mas fica claro o quanto ele valoriza o seu sangue escocês.  Segundo Ferguson, um escocês nunca deixa a sua terra natal para escapar do passado. O objetivo sempre é melhorar, fazer sucesso e conquistar o mundo.

A opinião foi usada para justificar a escolha de David Moyes como seu sucessor, mas também poderia ser aplicada a ele próprio, um dono de pub, fã de cavalos, que saiu de Glasgow para conquistar Manchester, a Inglaterra e a Europa – e o mundo também, duas vezes. Um bom jogador que se transformou em um técnico de futebol que deu conselhos a Tony Blair e apertou a mão da chanceler da Alemanha.

Com uma história excepcional para contar e, curiosamente, fascinado por biografias – principalmente de ditadores, de Stalin a Hitler -, Alex Ferguson poderia ter escrito um dos melhores livros de esporte, mas acabou produzindo uma resenha truncada para as pessoas normais e muito boa para quem gosta de futebol em níveis um pouco acima do comum. Se não for o seu caso, sugiro um romance  da Agatha Christie. Ou o livro do Agassi.