Precisamos saber o que queremos dos estaduais (ou Deixem os pequenos trabalharem)

Que se dane que o mata-mata do Paulistão não teve nenhum clássico. Que se dane que o Campeonato Paranaense não teve o Coritiba tentando o penta em cima de um Atlético Paranaense de estádio renovado (ainda que com um time sub-23). Que se dane que um dos grandes de Recife pode ficar fora do Nordestão em 2015. Muitas vezes criticamos essas coisas sem refletir bem, porque os estaduais são tão ruins e caricatos que nem sabemos mais o que merece ou não ser cornetado.

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Bem, muito do que se quer dos estaduais é consenso entre muita gente. Pede-se que ocupem um espaço no calendário proporcional a sua relevância e que efetivamente realizem seu papel de fomentar as rivalidades locais. Nisso, os atuais estaduais já tiram uma nota tão baixa que não adianta nem fazer recuperação para se salvar. Mas precisamos entender que eles não deixam de ser uma competição esportiva e sempre há o risco de os resultados não levarem ao que muitas vezes se imagina (e é a imprevisibilidade que nos faz gostar tanto de esportes, certo?)

Ainda que se queira que grandes clássicos decidam os estaduais, é preciso entender que os clubes pequenos disputam o torneio e existe a possibilidade de alguns deles surpreenderem as equipes mais tradicionais. Se os pequenos perdem de todo mundo, diz-se que são ruins demais e não servem de parâmetro. Se vencem, é sinal de decadência dos estaduais. Não faz sentido.

Claro que o fato de o Ituano estar perto do título paulista, a final do Paranaense ser Londrina x Maringá e o Salgueiro ter se aproximado da final do Pernambucano servem de sinais de alertas para Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Coritiba e Náutico. Mas isso é só ver a situação pelo olhos dos grandes. Vamos olhar pelo lado dos pequenos.

O clube do interior tem recursos pequenos, jogam a vida no estadual. Muitos deles dão com os burros n’água, montam equipes terríveis e são detonados pelos grandes. Mas vez ou outra alguns acertam. O Ituano tem a melhor defesa do Paulistão, eliminou o Corinthians na primeira fase, ganhou do Palmeiras no Pacaembu e, neste domingo, repetiu a dose contra o Santos. O Penapolense segurou o São Paulo no Morumbi, mostrou muita frieza ao vencer na disputa por pênaltis e quase aprontou uma zebra monumental na Vila Belmiro. Londrina goleou o sub-23 do Atlético Paranaense e o Maringá acabou com o sonho do penta do favoritíssimo Coritiba. O Salgueiro foi o time de melhor campanha na fase dos pequenos e, na segunda etapa, venceu Sport e Náutico e arrancou um empate do Santa Cruz. Na semifinal, fez 2 a 0 no Náutico no jogo de ida e deixou o Timbu em situação bastante complicada, com a possibilidade de ter de disputar a terceira vaga do estado no Nordestão 2015 com o perdedor de Sport x Santa Cruz.

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Dentro de suas limitações, são equipes competitivas para o nível estadual. Se não há um superclássico no mata-mata paulista e paranaense, é porque os times pequenos foram competentes para se meterem no meio da briga. Quem considera isso errado pode, sem perceber, estar dizendo que os pequenos não têm direito de brilhar, por mais méritos que eles tenham.

Por isso, não é errado se um clube do interior vai longe e impede os grandes de fazerem a festa no estadual. O problema é que eles têm pouquíssimas chances de manter o trabalho que deu certo, pois no máximo conquistam uma vaga numa terrível Série D, que começa apenas em julho e só garante dois meses de atividade. Não à toa, muitos clubes vão à quarta divisão nacional com elencos completamente diferentes dos que fizeram bom papel no estadual meses antes.

Sim, queremos que os estaduais sejam mais curtos. Mas queremos também que clubes pequenos sejam competitivos, justificando a existência desses torneios e revelando jogadores e técnicos. E, para isso, o Brasil precisa criar mais condições para que esses times possam fazer bons trabalhos, o que inclui pensar no que acontece com todos eles após o estadual. Esse é o grande pecado, e não ver os grandes fracassando em São Paulo e Paraná.

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