O Manchester City foi campeão inglês pela quarta vez (Foto: AP)

A Premier League que consagrou o City, ressuscitou o Liverpool e assustou o United

Foi um Campeonato Inglês diferente ao que estávamos acostumados. Não houve uma força hegemônica, como em outros anos. O fã do Liverpool lembrou que torce para um dos maiores clubes da Inglaterra, e o do Manchester United percebeu que virão anos difíceis de transição pela frente, mesmo que Louis van Gaal consiga colocar a casa em ordem. Nessa festa aberta para todo mundo, prevaleceu quem teve mais recursos. O elenco privilegiado do Manchester City manteve o clube sempre brigando pelas primeiras posições e eventualmente o colocou à frente do resto.

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Também foi uma Premier League rica em personagens: o craque Yaya Touré, o artilheiro Luis Suárez e a revelação Luke Shaw. E a cruel história do capitão Steven Gerrard, o jogador que mais deu passes para gols no campeonato e escorregou na hora H, complicando a luta dos comandados de Brendan Rodgers pelo título.

Se esse jejum de 24 anos do Liverpool não foi quebrado, o do Arsenal, enfim, terminou. Arsène Wenger não conseguiu voltar ao topo do Campeonato Inglês, mas pelo menos conquistou um título. A Copa da Inglaterra veio depois de um roteiro dramático e familiar demais a um clube gigante que precisa reencontrar o caminho das glórias rapidamente.

Então vamos ver o que de melhor aconteceu no Campeonato Inglês de 2013/14?

O campeão

Manchester City

O Manchester City assumiu a liderança na 23ª rodada e parecia que nunca mais a largaria. Tinha um elenco mais numeroso, mais qualificado e nenhum dos adversários inspirava muita confiança. Mas o 2014 irretocável do Liverpool, invicto no ano até perder do Chelsea, em abril, obrigou o time azul a se esforçar bastante para conquistar o título.

Outras coisas atrapalharam um pouco também. Sergio Agüero, um dos melhores da primeira metade do torneio, não conseguiu negociar direito com o seu corpo e sofreu com algumas lesões. Voltou ao time, mas sempre longe da melhor forma. A ausência do argentino acabou compensada por gols decisivos de Edin Dzeko, um coadjuvante que apareceu muito bem na reta final.

No fim, o título veio sobre o West Ham, na última rodada, com a 27ª vitória em 38 rodadas. Empatou cinco vezes e perdeu apenas seis. Teve o melhor ataque, com 102 gols, e a segunda melhor defesa, tendo sofrido apenas 37. A campanha em casa foi praticamente perfeita: 17 vitórias, um empate e uma derrota, para o Chelsea. Muito difícil de contestar o quarto título do Manchester City.

O craque

Yaya Touré (20 gols em 35 jogos)

Yayá Touré, do Manchester City (AP Photo/Kirsty Wigglesworth)

Yayá Touré, do Manchester City (AP Photo/Kirsty Wigglesworth)

Talvez nada disso fosse possível sem Yaya Touré. O marfinense, a mistura perfeita entre força, técnica e velocidade, participou de 35 partidas da Premier League e fez 20 gols. Uma marca alta para atacantes, quase obscena para um meio-campista. Tirou várias vezes o time de apuros. Garantiu uma vitória difícil por 1 a 0 sobre o Stoke City e marcou duas vezes no 3 a 2 contra o West Brom, para citar apenas alguns exemplos. Suas arrancadas, chutes de fora da área e cobranças de falta foram essenciais para o esquadrão de Manuel Pellegrini.

A decepção

Manchester United (7º lugar)

Substituir Alex Ferguson seria difícil para qualquer um. Para Moyes, foi uma missão impossível. Assumiu o atual campeão e conseguiu sequer se classificar para a próxima Liga dos Campeões. A principal marca do seu trabalho foi sofrer derrotas “históricas”: a primeira para o Newcastle desde mil novecentos e guaraná de rolha, a primeira para o West Brom desde os tempos da Rainha Vitória e por aí vai.

Ele foi demitido, deu lugar para Ryan Giggs e percebemos que a culpa não foi toda dele. Giggs, de interino, não conseguiu resultados muito melhores. Ganhou dois jogos, perdeu um em casa e empatou outro. Os jogadores também decepcionaram: Robin Van Persie voltou aos tempos de presença assídua no departamento médico, o futebol de Wayne Rooney foi desaparecendo aos poucos, que nem seus cabelos, Vidic se machucou demais, Ferdinand perdeu toda a velocidade e Fellaini ficou no Everton. Van Gaal vai ter trabalho.

A surpresa

Everton (5º lugar)

O Everton foi obrigado a passar por uma pequena revolução. Perdeu David Moyes, técnico dos últimos 11 anos, e Fellaini, referência do time dentro de campo. Mas ganhou mais leveza com Roberto Martínez e a juventude de Deulofeu e Lukaku. Tornou-se um time mais ofensivo, mais gostoso de se assistir e chegou muito próximo de se classificar para a Liga dos Campeões. Na reta final, ficou à frente do Arsenal, mas perdeu três dos últimos cinco jogos e terminou em quinto lugar. Fica para a próxima.

O artilheiro

Luis Suáres (31 gols em 33 jogos)

Luis Suárez, atacante do Liverpool

Luis Suárez, atacante do Liverpool

É sempre bom lembrar: Suárez ficou cinco jogos suspenso no começo da competição por tentativa de canibalismo contra Ivanovic, na temporada passada. Ainda assim, igualou o recorde de 31 gols de Cristiano Ronaldo e Alan Shearer em edições da Premier League com 20 clubes. Fez três no West Brom, três no Cardiff e quatro no Norwich. Se já não fosse o bastante, cavou vários pênaltis e deu 12 assistências. Só não foi o craque porque Yaya Touré também jogou demais e ainda por cima foi campeão.

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O ferrolho

Chelsea (27 gols em 38 jogos)

Petr Cech, Branislav Ivanovic, John Terry, Gary Cahill e Cesar Azpilicueta. Esses nomes formam a melhor defesa da Inglaterra na temporada 2013/14. Sofreram apenas 27 gols em 38 rodadas. José Mourinho começou a armar o seu novo time pela cozinha, como deve ser. Essa combinação deu tão certo que David Luiz perdeu espaço, jogou algumas partidas de volante e foi negociado com o Paris Saint-Germain. O experiente Ashley Cole também jogou pouco e, sem contrato, deve sair. Faltou o português ensinar os caras da frente a fazerem gols para que o Chelsea brigasse mais forte pelo título.

O garçom

Steve Gerrard (Liverpool)

Steven Gerrard, meia do Liverpool (Foto: AP)

Steven Gerrard, meia do Liverpool (Foto: AP)

Gerrard também poderia ser o “ressuscitado”. Estava desanimado e cheio de problemas físicos quando Brendan Rodgers foi contratado do Swansea. E o capitão do Liverpool praticamente renasceu. Depois de uma boa temporada, foi excelente e entrou até na (muito conceituada e importante) seleção da Trivela de melhores jogadores da Europa. Mais recuado, como uma espécie de Pirlo, foi o maior assistente da Premier League com 13 passes para gol e ainda marcou 13 vezes, muitas de pênalti. Só não foi irretocável por causa daquela cruel escorregada contra o Chelsea, que acabou custando o título, mas seria muito injusto que isso ofuscasse a espetacular temporada do veterano, cuja próxima missão é liderar a Inglaterra na Copa do Mundo do Brasil.

A revelação

Luke Shaw (Southampton)

Luke Shaw nasceu em 1995. Tem apenas 18 anos e foi o melhor lateral esquerdo do campeonato. Dominou o lado esquerdo do Southampton, que terminou em um honroso oitavo lugar com vários ingleses de talento, como Jay Rodriguez e Adam Lallana. Duas comprovações da ótima temporada de Shaw: o Manchester United quer gastar £ 30 milhões para contratá-lo e Roy Rodgson preferiu levá-lo no lugar de Ashley Cole para a Copa do Mundo. É o futuro da seleção inglesa na lateral.

O comandante

Brendan Rodgers (Liverpool)

Rodgers levou o Liverpool à Liga dos Campeões

Rodgers levou o Liverpool à Liga dos Campeões

Brendan Rodgers chegou ao Liverpool com várias boas ideias na bagagem, mas o cruel mundo do futebol às vezes esmaga os bem intencionados. Os ótimos resultados asseguram a tranquilidade para ele continuar tentando formar times ofensivos e jovens jogadores. Conseguiu devolver o clube à Liga dos Campeões com folga e quase foi campeão inglês, título que não vai para Anfield Road desde 1990. Sem investir tanto quanto o Manchester City, fez apenas um gol e dois pontos a menos na Premier League. Faltou muito pouco para se consagrar completamente, mas ele ainda tem muita carreira pela frente.

Nas Copas

Arsenal e Manchester City

Acabou, acabou, é tetra! Na verdade, o Arsenal foi campeão da Copa da Inglaterra pela 11ª vez, mas foi o primeiro troféu em nove anos, então ele tem um gostinho muito especial para Arsène Wenger, que precisa de argumentos para manter a sua moral no Emirates. Como ele também levou o clube para a Liga dos Campeões mais uma vez, renovou por três temporadas.

Não foi uma campanha desprovida de dramas. O Arsenal precisou dos pênaltis para eliminar o bravo Wigan, campeão da FA Cup de 2012/13, nas semifinais e da prorrogação para bater o Hull City na decisão, quando todos já estavam fazendo paralelos com a final da Copa da Liga Inglesa de 2011, quando foi derrotado pelo Birmingham.

Na Capital One Cup desta temporada, o Manchester City quase foi surpreendido pelo Sunderland, mas um golaço de Yaya Touré, em um momento em que a partida estava complicada, desafogou a situação para os atuais campeões ingleses. Esse foi o primeiro título do chileno Manuel Pellegrini na Europa, embora ele tenha conquistado um muito mais importante alguns meses depois.

Wenger, técnico do Arsenal (Foto: AP)

Wenger, técnico do Arsenal (Foto: AP)

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