O presidente da Juventus, Andrea Agnelli, é o novo presidente da Associação Europeia de Clubes (ECA, em inglês). Ele sucede o alemão Karl-Heinz Rummenigge, do Bayern de Munique. O ECA é a principal entidade de clubes da Europa e exerce pressão tanto na Uefa quanto na Fifa para defender o que considera seus interesses. A entidade representa 220 clubes da Europa. O ECA tem direito a dois assentos no comitê executivo da Uefa e escolheu Agnelli, como novo presidente, e também Ivan Gazidis, executivo-chefe do Arsenal. E no seu primeiro dia no cargo, o dirigente da Juventus mostrou que tem muitas ideias. Discutiu janelas de jogos de seleção duas vezes por ano, concentrando os jogos em vez de espalhar ao longo do ano, de mudanças no futebol europeu e de um Mundial de Clubes bem inchado, com 24 clubes – e provavelmente com edições a cada quatro anos.

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O novo presidente

Angelli, de 41 anos, substitui Rummenigge, que estava no cargo desde 2008. O alemão se tornou presidente honorário no encontro realizado em Monaco, nesta terça. No último mês, ele tinha anunciado o seu desejo de deixar o cargo. Aos 61 anos, o dirigente do Bayern de Munique se despediu se dizendo orgulhoso do trabalho realizado nos nove anos à frente do ECA.

“Meu antecessor, Karl-Heinz Rummenigge, deu um grande exemplo e colocou a barra de conquistar em um nível muito alto”, afirmou Agnelli ao site do ECA, após o evento. “Eu estou ansioso, juntos com a direção e a administração, para seguir nos resultados significativos construídos para podermos administrar o ECA pelos próximos anos”, continuou o dirigente italiano da Juventus.

“É uma grande honra e uma grande responsabilidade que os clubes europeus tenham confiado em mim. Eu estou ansioso para trabalhar perto de todas as partes interessadas dentro do esporte a fim de proteger, promover e desenvolver o futebol em todos os níveis da Europa”, disse ainda Agnelli.

Agnelli, da Juventus, foi eleito presidente, com Pedro López Jiménez (Real Madrid) como primeiro vice-presidente; Edwin van der Sar (Ajax) como segundo vice-presidente; Daiusz Mioduski (Legia Varsóvia) como terceiro vice-presidente e Aki Riihilahti (Helsinki) como quarto vice-presidente.

Além deles, a Diretoria Executiva do ECA é composta por Josep Maria Bartomeu (Barcelona), Ed Woodward (Manchester United), Nasser Al-Khelaifi (Paris Saint-Germain), Peter Lawwell (Celtic), Ivan Gazidis (Arsenal), Jean-Michel Aulas (Lyon), Michael Gerlinger (Bayern de Munique), Domingos Oliveira (Benfica), Michael Verschueren (Anderlecht), Anders Horsholt (Copenhague). Esta composição de diretoria é para o ciclo 2017 a 2019, quando nova eleição acontece.

As mudanças que serão discutidas

Os principais tópicos de discussão para as próximas reuniões do ECA são o sistema de transferências (incluindo a duração da janela de transferências); o futuro do Fair Play Financeiro; e o conceito das competições europeias para o ciclo 2021/24. Estas são as mudanças apenas em continente europeu, mas a ideia é discutir coisas mais amplas.

Entre os tópicos estão a criação de duas janelas de jogos de seleções, com períodos mais longos para os jogos. Uma das reclamações mais frequentes dos clubes é que os jogadores precisam ir e voltar três ou quatro vezes, por vezes distâncias longas, como da Europa para a América do Sul ou Ásia.

“O problema para a maior parte dos times é ter jogadores voando para outros continentes, especialmente a sessão de outono [entre fim de setembro a fim de dezembro], os faz voar três vezes indo e voltando do Brasil, Argentina, Uruguai ou outro lugar”, afirmou Agnelli. Serão feitas discussões envolvendo os clubes, Uefa e Fifa, segundo o dirigente.

Outro tópico de discussão é sobre o Mundial de Clubes, realizado em dezembro. Agnelli é crítico do formato atual, com sete times, e que inclui apenas um europeu, o campeão da Champions League. “Como está, o formato do Mundial de Clubes da Fifa é inútil”, disse o dirigente da Juventus.

A China pode ser a sede do novo formato do Mundial de Clubes, que ainda está apenas em conversas bastante iniciais. A ideia seria disputá-lo em junho de 2021, quando seria realizada a primeira edição no novo formato, no lugar da Copa das Confederações, que deve deixar de existir. Com isso, provavelmente o Mundial de Clubes deixaria de ser anual para ser quadrienal. Isso, porém, não foi descrito. Ainda é uma ideia preliminar.

Há especulações de um torneio com mais times. As conversas informais da Fifa sugerem 12 a 16 clubes europeus e um total de clubes de 24. Agnelli defende que as vagas devem ser definidas pelo que ele chama de “a melhor competição do mundo, a Champions League”, e não por convite. “Nós temos que garantir que tudo que nós façamos esteja alinhado com os desejos da Uefa”, afirmou Agnelli, que ainda descreveu a Champions League como “um ativo que temos que proteger”.

Influência do ECA na Uefa e na Fifa já levou a mudanças

“O ECA se tornou forte e um importante parceiro da Uefa e da Fifa. Quando nós começamos, nós tínhamos visões. Hoje, nós podemos orgulhosamente dizer que nessa década, o ECA conseguiu mais do que nós ousamos querer”, afirmou Rummenigge. A influência que o ECA passou a ter nos últimos ano é notável.

Juntando os maiores clubes do continente, a entidade negociou por melhores premiações e também foi quem pressionou para que a Champions League fizesse mudanças. Foi com o apoio (e pressão) do  ECA que a Uefa mudou a distribuição das vagas, com os  quatro principais países do continente ganhando quatro vagas à fase de grupos a partir de 2018/19 e diminuiu o número de vagas para clubes menores, tornando a fase de grupos mais lucrativa em termos de patrocínios e direitos de TV.

A medida causou controvérsia, mas foi feita mediante a ameaça dos clubes de criar uma Superliga de clubes, algo que já aconteceu várias vezes na história. Apesar disso, Rumenigge defendeu as mudanças. “Todos irão se beneficiar do aumento de receitas e nós aumentamos os pagamentos de solidariedade com mais de 40% dos € 199 milhões para € 284 milhões. Eu estou orgulhoso disso”, afirmou Rummenigge.

Apesar das mudanças que beneficiam os clubes das quatro grandes ligas da Europa (Espanha, Inglaterra, Alemanha e Itália), Agnelli afirmou que apoia o presidente da Uefa, Alexander Ceferin, no objetivo de criar mais equilíbrio competitivo na Champions League. Muitos jogos na fase de grupos acabam como massacres dos grandes times. “Nós queremos mais jogos que cheguem aos últimos minutos com o resultado incerto”, disse Agnelli. Resta saber se as mudanças que entram em vigor na próxima temporada irão, de fato, contribuir para isso.

A força do ECA já resultou em impacto também na Fifa. Em 2015, a entidade assinou parceria com a Fifa para que os clubes que fornecem jogadores para competições internacionais. Além disso, a entidade também foi contrária à expansão da Copa do Mundo para 48 seleções. “Nós temos que focar no esporte mais uma vez. Políticas e comércio não deveriam ser a prioridade exclusiva no futebol. Pelo interesse dos torcedores e jogadores, nós pedimos à Fifa não aumentar o número de participantes da Copa do Mundo”. Esta, porém, foi uma batalha perdida pelo ECA.

O ECA é uma entidade que deve fazer barulho nos próximos anos. O Mundial de Clubes proposto parece ser um primeiro esboço de uma Copa do Mundo de Clubes, o que pode se tornar um concorrente, no longo prazo, para as competições de seleções. Afinal, um torneio como esse já mostra indícios de potencial, com o que se vê na International Champions Cup. Mesmo sendo uma competição amistosa de pré-temporada, atrai grandes públicos e movimenta enormes quantias de dinheiro de patrocinadores e de transmissão de TV.