A janela de transferências desta temporada movimentou quantias enormes e suscitaram dúvidas em relação ao Fair Play Financeiro (FFP), especialmente depois do Paris Saint-Germain gastar € 222 milhões em Neymar e contratar Kylie Mbappé por empréstimo e cláusula de compra de € 180 milhões. O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, está sob pressão para que o FFP seja aplicado e a entidade já informou que abriu investigações contra o clube de Paris. O dirigente afirmou que a Uefa não terá receio de punir os grandes clubes que infringirem a regra e admitiu que o FFP precisa de mudanças.

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“É um momento crucial, eu acredito, o Fair Play Financeiro foi introduzido para garantir a estabilidade dos clubes. Nós temos que adaptá-lo, modernizá-lo, e nós temos que fazer diferença em termos esportivos, porque a diferença entre os grandes e pequenos clubes está aumentando cada vez mais. Não acredito que possamos impedir esse movimento completamente, mas nós podemos diminuir e temos que fazer algo agora”, disse Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, em entrevista à Sportschau, da Alemanha.

“Nós temos muito em mente. Pensamos em uma limitação mais forte em relação aos jogadores registrados por clube e nós temos que limitar o empréstimo de jogadores. Alguns clubes têm 50 jogadores ao mesmo tempo. Eu posso entender quando são jogadores jovens, com 19 anos, mas se você compra um jogador de 30 anos e os empresta a outros clubes, não faz sentido. Nós temos um clube na Europa que emprestou 22 jogadores e 20 deles são maiores de 25 anos. Muitos clubes não desenvolvem jogadores jovens mais, eles os contratam e depois os emprestam e influenciam as competições”, analisa o presidente da Uefa.

Entre as medidas que quer adotar, Ceferin fala em dificuldades em adotar, por exemplo, o teto salarial. “Nós falamos em um teto salarial e sei eu que o presidente da Associação Europeia de Clubes por um longo tempo, Karl-Heinz Rummenigge, e o ex-presidente da Uefa, Michel Platini, falaram com a Comissão Europeia sobre isso e disseram que é impossível, porque vai contra a lei europeia. Eu não tenho certeza, mas veremos o que podemos fazer”, disse ainda o dirigente.

Outra ideia que tem sido especulada é um limite de gastos para transferências por clube. Já se falou em algo como 50 ou 100 milhões de euros, independente do número de jogadores. “Eu não pensei sobre isso ainda, mas está claro que o futebol é um produto fantástico, os números de audiência estão aumentando, os patrocinadores estão fazendo fila e todo mundo quer comprar nossas competições. Nós não queremos que a diferença aumente tanto que só alguns poucos grandes clubes possam jogar o futebol de verdade no fim”, analisou Ceferin.

O vice-presidente do Monaco, Vadim Vasilyev, disse nesta semana que achava difícil ver como o PSG cumpriria o Fair Play Financeiro, que permite € 30 milhões de prejuízo ao longo de três temporadas. O presidente de La Liga, Javier Tebas, que tem sido muito crítico em relação ao PSG e ao Manchester City, afirmou que os dois clubes estão abusando das regras.

Em 2014, tanto PSG quanto Manchester City foram punidos pela Uefa e, depois de nova investigação aberta contra o PSG, Ceferin afirmou que a entidade não olha para a reputação do clube antes de puni-lo. “Não, é claro que não”, disse. “Acredite em mim, as regras são as mesmas para os pequenos e para os grandes”.

“Como sou advogado, eu sei que uma vez que você puniu alguém com multa uma vez, você tem que punir de forma diferente na segunda vez. Eu não falo especificamente sobre nenhum clube, porque as investigações ainda estão acontecendo. Mas uma coisa está clara: se você não ficar atento às punições, então nada acontece. Nós iremos lembrar a todos os envolvidos para seguirem as regras. E se isso não funcionar, então haverá punições severas que irão demonstrar que nós somos a instituição governante”, afirmou Ceferin.

Quando o Sportschau pergunta especificamente sobre o caso do PSG ao dirigente, ele diz que não pode comentar sobre casos específicos, mas garante que tudo será verificado. “Há muitas formas de gerar novas fontes de receitas, mas isso não pode ser ligado aos donos, então não é fácil colocar dinheiro novo na mesa para contratar o que você quiser. Nós iremos verificar tudo, eu posso garantir a você”, declarou.

Muita gente acredita que uma punição pesada contra um grande clube, excluindo de competições europeias, será processado na corte europeia. “Eu duvido disso, nossas punições são esportivas, eu não tenho medo. Eu respeito o sistema legal, então, se os clubes forem ao tribunal e veremos o que acontece”.

O momento é de fato crítico para a Uefa e o seu Fair Play Financeiro. Está claro que alguns clubes estão driblando as regras. Será preciso atualizar as regras, como Ceferin afirmou, e fazer uma fiscalização intensa. Se não, o Fair Play Financeiro acabará ridicularizado e, se não for para fiscalizar de forma apropriada, aí é melhor que a regra nem exista. Pressão para que o Fair Play Financeiro seja aplicado certamente vai haver, como já ficou claro. Resta saber se chegaremos ao ponto de um clube grande ser excluído de competições europeias por um ano por comprovada infração das regras. Aí veremos se o sistema é de fato ou é só conversa mole.