O presidente da Uefa, o esloveno Aleksander Ceferin, fez um discurso forte sobre mudanças no futebol europeu no 13º Congresso Extraordinário da Uefa, em Genebra, na Suíça. Falando aos delegados dos 55 membros da Uefa, Ceferin afirmou que era imperativo “garantir que os times menores possam continuar a competir na grande liga, e que mantenhamos o sonho vivo para todos”. E foi além: deu um recado para que os políticos europeus que se mostraram críticos ao sistema atual que também façam a sua parte e colaborem para que as mudanças sejam possíveis.

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Um ponto muito destacado no discurso de Ceferin foi a competitividade. “Isso é o que torna o futebol tão especial; essa mágica do futebol. Nós devemos proteger isso antes que seja tarde – mas nós devemos ser permitidos a fazer isso”, afirmou Ceferin. A fala do dirigente não é solta ao acaso: ele pede que a legislação europeia e dos países ajudem o futebol a criar medidas que tornem o jogo mais justo e mais bem regulado e melhore sua ética e solidariedade.

“Teto salarial, taxa sobre gasto além do limite salarial estabelecido, limite de elenco, a evolução do Fair Play, reformas do sistema de transferências, a criação de uma casa de limpeza para controlar o fluxo de dinheiro, restrições a comissões pagas aos empresários de jogadores, a introdução de uma taxa de solidariedade sobre transferências que seria usada para apoiar o esporte amador e futebol feminino, limite de empréstimos, proibição de co-propriedade de clubes, o fortalecimento da regra de jogadores treinados localmente”, disse o dirigente no congresso.

O presidente da Uefa também pediu o apoio de políticos para que medidas como essas sejam tomadas. No último domingo, a chanceler alemã, Angela Merkel, disse observar tópicos preocupantes no futebol, como “mais e mais partidas e mais e mais publicidade”. A política também comentou que “a alegria do futebol é perdida quando a conexão com os torcedores diminui, porque eles se mudam de um clube para outro”. Ceferin, então, aproveitou para cobrar apoio.

“Nós estamos abertos a toda e qualquer reformas que sirva ao bem do jogo”, afirmou Ceferin. “Nós somos criativos e comprometidos, estamos apenas esperando a luz verde daqueles que publicamente criticam a atual situação, mas ainda não nos permitiram corrigir”, afirmou o esloveno. “Eu não posso dizer que vocês fizeram muito para nos ajudar a corrigir as coisas até agora”, continuou.

O dirigente diz isso porque as leis trabalhistas e de negócio da Europa impedem mudanças como a do teto salarial e maior controle financeiro dos clubes. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, que é ex-secretário-geral da Uefa, mostrou apoio às medidas defendidas por Ceferin. “É tempo que todos nós mexermos no sistema de transferências para o futuro”, disse o presidente da Fifa.

O que se vê é que esses temas devem voltar à pauta em um futuro próximo para serem discutidos pelos membros da Uefa. Mudanças importantes como essas que Ceferin disse precisam de discussões amplas e também precisam ser aprovadas pelo Comitê Executivo, uma vez que forem propostas.

Se antes muitos clubes olhavam torto para esse tipo de ideia de controle, a última janela de transferências ajudou a mudar muitos de posição. O Fair Play Financeiro não foi imposto pela Uefa aos clubes, e sim decidido como uma forma de evitar casos de falência de clubes e dívidas milionárias, como as que levaram o Málaga a quase falir e o Portsmouth e Rangers a, de fato, falirem e terem que recomeçar. O prejuízo causado vai além do próprio clube que fale: a liga onde eles estão também sofre e esse é o ponto que fez a Uefa agir e os clubes, na época apoiarem.

Não foram poucas as críticas ao Fair Play Financeiro, seja de um lado dizendo que ele era suave demais com os grandes, sendo dizendo que ele feria os princípios de livre mercado da União Europeia. O problema é que o princípio de livre mercado passou a ser usado como uma boa forma de Estados ricos como o Catar usarem o seu dinheiro, estatal, em um clube privado.

Com isso, os questionamentos aumentaram. E não foi o primeiro: príncipes e xeiques de países do Oriente Médio passaram a comprar e gerir clubes europeus ao seu bel prazer, abandonando-os quando lhes convia – e deixando para trás um rastro de problemas para esses clubes resolverem e voltarem a ser fortes.

A Inglaterra é um dos países que mais viu milionários (ou bilionários) comprarem clubes e os abandonarem pouco depois, causando problemas especialmente em ligas menores, mas também em ligas menores. Se tornou comum ter clubes entrando em concordata. E isso não acontecia só com donos estrangeiros, é bom que se diga. Casos de clubes com graves problemas de dívidas – sejam trabalhistas, sejam fiscais – se tornaram frequentes.

Há muitas críticas justas ao Fair Play Financeiro, de vários lados. É difícil também saber se Alexander Ceferin, como presidente da Uefa, conseguirá colocar todas essas reformas que ele tem como ideia em discussão na confederação de futebol mais poderosa do mundo. O que está claro é que o debate precisa ser feito em cada um desses itens, de forma a tentar manter o futebol atraente e interessante no continente, e não só para um grupo que parece cada vez menor de clubes capazes de serem os protagonistas.

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