Os últimos vestígios de Copa do Mundo na Arena Corinthians estão escondidos. As placas de direcionamento, com o design da Fifa, descansam encostadas na grade ao lado da escada rolante que leva o público dos trens do Metrô Itaquera à estação, depois de um mês de muito trabalho indicando o caminho. Exceto pelas arquibancadas móveis, ainda de pé, nada comprova que o Mundial passou pelo Itaquerão, no primeiro grande jogo que o estádio recebe como casa do Corinthians.

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Embora dentro de campo tenha sido muito mais semelhante a Irã x Nigéria do que Itália x Inglaterraum clássico entre Corinthians e Palmeiras não deve muito a um jogo de Copa do Mundo em grandeza, história, tradição e rivalidade.  Fora do gramado, porém, sem as restrições que a Fifa impõe aos arredores dos estádios, o clima era muito mais, digamos, brasileiro, com tendas de samba e cerveja, churrasco na ponta do espeto e o sempre presente sanduíche de pernil. Uma corriqueira partida de Brasileirão no estádio do Mundial.

A organização da partida também precisou lidar com um probleminha que a Copa do Mundo ignora: torcida visitante. A sexta-feira pré-clássico foi responsável por uma expectativa de temor em relação à possível – provável – violência que poderia manchar a partida. A Polícia Militar queria que as organizadas palmeirenses fossem ao estádio de ônibus. Elas preferiam o metrô e foi o que acabou acontecendo.  Chegaram cedo para evitar problemas.

Por volta do meio-dia, a Mancha Alviverde já ocupava o setor leste do Itaquerão. Foi a primeira a chegar. Uma hora depois, outro grupo de organizados entrou no cercadinho preparado pela Polícia Militar na avenida adjacente, a única que estava bloqueada, em contraste com o perímetro gigantesco que a Fifa impunha nas partidas da Copa do Mundo. Neste momento, havia uns duzentos corintianos aguardando a abertura do portão e a rivalidade ultrapassou o limite das gargantas. Os palmeirenses desceram a rua pulando e confessando que sentiam uma vontade irrefreável de dar porrada em Gavião. A resposta alvinegra veio com já batido “Guarani da capital” e a promessa que os rivais “pagariam para entrar, e rezariam para sair”, além do básico e simples “vai tomar no c…, filho da p…”.

Sem a possibilidade de tomar cerveja dentro do estádio, os torcedores buscam um lugar para molhar a garganta antes das partidas, e pelo menos para quem entra pelo setor leste do estádio, a Avenida Padre Sena Freitas parece que será uma boa opção. Duas horas antes do jogo, um bar chamado “Cantinho do Torcedor”, naquela região, recebia bastante gente nas suas mesas e nas calçadas. A rua, em si, recebia as pessoas em tendas e vans, livres para venderem qualquer bebida, fosse ou não patrocinadora da Copa do Mundo.

A partida contra o Bahia na última quarta-feira levantou a questão da mobilidade urbana do Itaquerão. O metrô fechou no seu horário habitual, pouco depois da meia-noite, e muitos torcedores saíram do estádio antes do apito final para não perderem o trem. “Se o governador tiver peito, o metrô fica até uma da manhã e acabou”, bradava um torcedor, já levemente alterado. A questão do acesso é realmente importante porque não faz muito sentido, com uma estação de metrô a poucos metros de distância, ir à Arena de carro.

Há algumas opções de estacionamento, como o Shopping Itaquera, mas os torcedores ainda precisam conhecer as ruas para se sentirem seguros e agora precisam também driblar os flanelinhas, que já estão alugando os espaços públicos para seus próprios benefícios, reservando os espaços com caixotes, como mostra a foto abaixo.

Os caixotes guardam os lugares para os flanelinhas (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

Os caixotes guardam os lugares para os flanelinhas (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

Um ônus dessa liberdade, já que a segurança pública costuma fazer vista grossa a esse problema e aos ambulantes que vendem produtos falsificados dos clubes e também circundavam o estádio sem serem incomodados. Por outro lado, o jogo ganha uma identidade muito mais brasileira, exemplificada por uma cachorro vira-lata desviando das pernas dos corintianos e de um homem andando de bicicleta ao redor do estádio, com uma cerveja na mão e um samba tocando na caixa de som da magrela.

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