Mais de 50% de jogos no ano com interrupção no fornecimento de energia elétrica, incluindo um clássico Santos x Corinthians. Uma estatística bizarra que deixou evidente que há problemas no Pacaembu, e que motivou suspeitas de alguns de que a prefeitura de São Paulo estaria sucateando a manutenção do estádio para reforçar a intenção de conceder o espaço à iniciativa privada. No dia seguinte, o prefeito João Doria Jr. divulgou um vídeo defendendo a privatização, e, na última quinta, o Estadão apresentou qual seria o projeto preferido para o processo.

ARQUIVO TRIVELA: Temos algumas sugestões para que o Pacaembu não se torne o elefante branco de São Paulo

Falar de concessão do Pacaembu é sempre chamar discussão. Há defensores e críticos fervorosos da ideia, e minha intenção aqui não é debater isso em si. Até porque é uma conversa que costuma cair na política, que nesse caso vai ignorar o fato de que os dois últimos prefeitos de São Paulo, um com uma linha política bastante diferente do outro, propuseram a ideia. Ou seja, a tendência é que haverá um processo de privatização no estádio em algum momento, e talvez seja hora de concentrar esforços em exigir o melhor resultado.

É aí que temos motivos para ficar atentos. Na gestão Fernando Haddad, a proposta de concessão do Pacaembu falhou por estabelecer condições fora da realidade para qualquer investidor, que teria a obrigação de gastar muito e ter limitado potencial de faturamento. Não à toa, todos os candidatos acabaram desistindo no meio do caminho. O perigo é o processo atual pecar justamente pelo contrário, virtualmente inviabilizando o equipamento como uma praça esportiva.

Se acordo com reportagem do Estadão, a proposta preferida pela prefeitura de São Paulo é o elaborado pelo consórcio Novo Pacaembu, que chegou a ter Raí como sócio. Reportagem do UOL confirmou parte das informações, com algumas diferenças em detalhes do projeto. Mas o básico seria: o tobogã seria demolido para a construção de dois edifícios comerciais, com um hotel e outro com restaurantes e escritórios. A capacidade do estádio seria reduzida (o Estadão fala em 28 mil lugares, o UOL em 22 mil) e seriam instaladas coberturas novas nas arquibancadas centrais, nas duas laterais do campo.

A ideia de se construir dois edifícios no lugar do tobogã causa preocupação se imaginarmos duas torres altas, mas, pelo desenho inicial apresentado, seriam edificações baixas, com menos impacto na paisagem.

Projeto Novo Pacaembu (Foto: reprodução)

Considerando as outras propostas que foram entregues à prefeitura, essa parece uma das melhores. Reportagem da ESPN havia apresentado os projetos no ano passado, e muitos deles teriam intervenções ainda maiores ou soam pouco viáveis economicamente. Ainda assim, não significa que se possa aceitar o projeto do Novo Pacaembu sem ao menos querer mais informações.

A derrubada do tobogã atual é difícil de evitar. É a única parte do estádio que não é tombado e, por isso, abre espaço para mais exploração comercial, justamente onde o incorporador tiraria boa parte do seu lucro. É possível fazer um novo setor para fechar o anel do estádio e construir atrás da arquibancada uma edificação comercial. Essa opção mantém o Pacaembu mais parecido com sua cara atual, inclusive na capacidade de público, mas limita o potencial da área comercial. Uma alternativa, a apontada por UOL, Estadão e ESPN, é simplesmente acabar com o tobogã e deixar essa parte do estádio sem público. Aumenta o investimento imobiliário, mas cai a capacidade de público.

Claro que um amante de futebol vai preferir a primeira solução, pois prioriza o estádio. Mas é bem possível que um incorporador fique mais seduzido pelo segundo caminho. Se isso ocorrer, que o faça de forma muito bem amarrada (e a prefeitura, quando criar as regras da licitação, tem de deixar tudo isso em contrato) para não inviabilizar o estádio e fazer que, no fundo, tudo não passe de um investimento em hotel e escritórios, transformando o estádio apenas em um efeito colateral.

Reduzir drasticamente a capacidade de público pode ser problemático. No momento, o Pacaembu tem se mostrado um estádio bastante útil como segunda casa do Santos (uma que deve ser cada vez mais usada, de acordo com a nova gestão do clube) e substituto eventual de Allianz Parque, Morumbi e Arena Corinthians quando esses estádios estão indisponíveis por causa de shows ou reforma de gramado.

Para um investidor, o cenário ideal é manter essa condição, que dá ao local uma quantidade razoável de jogos por ano. No entanto, isso é válido porque o Pacaembu comporta 40 mil pessoas. Para Palmeiras e Corinthians, é uma capacidade semelhante a de seus estádios. Para o São Paulo, está dentro da média de público do clube. Para o Santos, é muito a mais que a Vila Belmiro, o que faz valer mandar o jogo em São Paulo para atrair o torcedor e o dinheiro da capital.

Se a capacidade cair para 22 mil lugares (informação de UOL e ESPN), talvez o Pacaembu não seja mais tão interessante como segunda casa de Corinthians, Palmeiras e São Paulo. E, para o Santos, não seria tão vantajoso quanto é hoje mandar os jogos na capital. Com 28 mil lugares (informação do Estadão), o impacto continuaria existindo, mas seria menor. Se os responsáveis pelo projeto conseguissem estender um pouco o anel principal para deixar a capacidade em torno de 30 ou 32 mil pessoas seria o ideal (já considerando que o tobogã atual seria demolido).

Essa matemática não é perfeita, mas quem quer que assuma a gestão do estádio teria de desenhar acordos com os clubes para definir os termos para aluguel do estádio. A capacidade reduzida seria um problema, e talvez a concessionária tivesse de compensar de outras formas que talvez se tornem ruins para ela.

O principal problema de o Pacaembu deixar de ser atraente para os grandes clubes é que ele passaria a ter pouca utilidade como estádio. Jogos de rugby ou de outras modalidades são interessantes, mas não atraem públicos (arrecadações) significativos. Shows seriam uma excelente pedida, mas a concessionária teria de derrubar a decisão judicial que impede apresentações no estádio há mais de uma década. Uma edição anual do UFC é possível, mas não é suficiente para dar retorno a tanto investimento.

Por isso, mais importante do que saber se o tobogã vai cair ou não, se vai ser feito um hotel ou uma grande loja de departamentos, se haverá cobertura ou não, é saber o que será exigido de quem assumir a gestão do estádio. Não é um empreendimento comum, que pode cair na mão de um investidor qualquer. Basta ver o que aconteceu com o Maracanã para entender como uma concessão mal feita pode ser bastante danosa.

Quem assumir precisa entender não apenas do dinheiro que pode ser feito com um novo prédio, mas também com formas de rentabilizar com um espaço de eventos esportivos. Alguém que ouça os usuários do estádio (grandes clubes paulistas e seus torcedores) para adaptar o projeto a suas necessidades. Alguém que tenha um modelo de negócio para o estádio. Caso contrário, seu instinto natural será destruir o máximo possível do Pacaembu para ter mais espaço para faturar com hotel ou escritório, ao ponto de o campo em si ser quase largado por falta de interesse.