“É um desequilíbrio técnico”. Foi o que disse Eurico Miranda, presidente do Vasco, na saída do Congresso Técnico do Campeonato Brasileiro de 2017. O gramado sintético foi proibido. É bom dizer: Eurico só fez a proposta, os outros clubes aceitaram. A maioria aprovou uma medida que ataca o Atlético Paranaense, único dos clubes da Série A que tem um estádio com grama artificial, mesmo que tenha recebido o certificado Fifa Pro, o mais alto da entidade que dirige o futebol mundial. Um ataque que só mostra a mesquinharia dos dirigentes, atuando em benefício próprio, sem pensar coletivamente e sem pensar no campeonato como um todo.

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O Atlético Paranaense foi o melhor mandante do Campeonato Brasileiro em 2016. Nos seus 19 jogos na Arena da Baixada, 15 vitórias, três empates e uma derrota. São, portanto, 48 pontos conquistados em casa do seu total de 57 no Brasileirão. Fora de casa, o rubro-negro venceu apenas dois jogos, empatou outros três e teve 14 derrotas. Isso significa que o Furacão levou 84% dos seus pontos jogando na Arena da Baixada. O seu desempenho espetacular em casa o levou à Copa Libertadores – nessa inchada Libertadores, porque o time foi o sexto colocado.

Podemos discutir qual é a influência do gramado sintético no desempenho do time. Dizer que o gramado sintético levou a esse desempenho, isolando como fator, parece ridículo. O que não é discutível é que o clube segue as regras da Fifa para gramado sintético. O clube investiu nisso, preparou o estádio, dentro da regulamentação, reformou até mesmo o seu Centro de Treinamento para ter um gramado parecido com a da Arena da Baixada e fazer com que seus jogadores se acostumassem.

Tudo isso pode ser visto como uma vantagem competitiva do Atlético Paranaense. Só que isso é parte do jogo, dentro da regulamentação e diante de um cenário que o clube encontrou para ter uma boa condição do gramado, que historicamente tem problemas por causa da falta de sol. A reforma para se adequar às condições da Fifa para receber a Copa do Mundo agravou esse cenário, tornando a iluminação natural do sol ainda mais difícil. É possível fazer isso com equipamentos modernos que simulam a luz do sol, mas isso aumenta o custo de manutenção, evidentemente. O clube fez essa opção pelo gramado sintético, seguindo toda a regulamentação oficial, porque o Atlético Paranaense ambiciona jogar as competições internacionais, como a Libertadores, na qual joga no seu estádio, com grama artificial.

O clube mandante sempre leva vantagem jogando em casa. Isso vai desde o fator psicológico, pela confiança, até os fatores técnicos, como ter uma grama mais curta e molhada (como o Corinthians faz, o que já levou a reclamação dos visitantes) ou um gramado mais alto, em alguns outros casos (já foi o do Serra Dourada, anos atrás). Jogar em casa é sempre um fator de desequilíbrio para o time mandante, desde que o clube saiba aproveitar as características do estádio e do gramado para o seu futebol. Mas fazer isso com um gramado bom, como fazem Atlético Paranaense e outros clubes que possuem bons gramados nos seus estádios, não é nenhum absurdo.

O que é absurdo, mas sempre foi aceito, foi gramados ruins. O estádio da Ilha do Governador, usado pelo Botafogo em 2016, tinha condições ruins do gramado, como já aconteceu com outros estádios ao longo do tempo. A CBF e os clubes não se preocuparam em cuidar dos gramados, regulamentar isso. Nunca. A não ser quando se torna um prejuízo ao próprio clube, como por exemplo visitar um time que tem um gramado ruim e um jogador sai machucado por causa disso. Aí vemos declarações inflamadas de dirigentes falando do absurdo de jogar naquele gramado. Nada muito diferente do que se vê em arbitragem, por exemplo. Erro a meu favor faz parte do futebol; erro contra é um absurdo, um descalabro. Já vimos isso acontecer em diversos estádios e nem preciso citar muitos exemplos: você, aí na sua região, já viu isso acontecer tanto nos estaduais quanto no Campeonato Brasileiro.

Dos 20 clubes, 15 votaram a favor do veto ao gramado sintético. Os cinco que foram contrários, além do próprio Atlético Paranaense, são Palmeiras, Sport, Bahia e Coritiba, maior rival do Furacão, mas que se tornaram aliados contra a Federação Paranaense de Futebol. Exceção ao Palmeiras, que deve ser um dos favoritos ao título brasileiro, todos os outros são concorrentes mais diretos do Atlético. Mesmo assim, votaram contra a medida. O voto do Palmeiras pode ter um outro fator: advogar em causa própria. Foi especulada a possibilidade do uso do gramado sintético no Allianz Parque para fugir dos problemas da grama em mau estado após os shows.

Os outros clubes não se importaram que o gramado do Atlético Paranaense segue os padrões mais altos da Fifa. Lembraram de como foi difícil jogar com o Atlético Paranaense lá na Arena da Baixada. Pensaram apenas nisso para votar contra. Mesmo que o gramado seja bom. Mesmo que o Furacão seja muito forte em casa desde a inauguração do estádio, em 1999, mesmo antes das reformas para a Copa de 2014. Mesmo que isso significa uma represália ao clube paranaense, diante de um cenário como o que vimos no Atletiba e que deveria servir para unir os clubes contra esses desmandos das federações.

Arrisco dizer que se a campanha do Atlético Paranaense não tivesse sido tão boa em casa em 2016, essa medida não passaria. Se fosse um clube grande do Rio ou de São Paulo, também dificilmente a medida seria aprovada. Mas é o Atlético Paranaense, que não só não está nesses dois estados, mas também é um clube que tem brigado contra a sua federação estadual há anos, a ponto de ter abandonado o estadual para jogar com um time sub-23. Que tem em Eurico Miranda um grande inimigo há muitos anos.

A medida foi votada um dia depois do clássico Atletiba não disputado, no estádio do Atlético, depois de um embate direto com a federação, que, claro, é ligada intimamente com a CBF. E Eurico Miranda, sabemos, é um dirigente muito ligado ao poder da CBF. Com tudo isso, é difícil imaginar que tudo tenha surgido espontaneamente.

O pior de tudo é que a proposta, mesmo que seja uma represália ao Atlético Paranaense, foi aceita por 15 dos 20 clubes. Não se importam com isso. Querem o benefício em si, não importa o que isso implica politicamente, não importa o campeonato, dane-se a união entre os clubes para tentar fazer com que o campeonato seja melhor, dane-se se isso fortalece federações estaduais e CBF contra os próprios clubes. Dane-se. Os clubes não se importam.

Ninguém se importa, de verdade, com o campeonato, com medidas para melhorarem o campeonato, com tomar uma atitude que faça a competição ser melhor, o futebol apresentado ser melhor. Nada disso importa. Importa é: se eu tirar uma vantagenzinha de leve, então que assim seja. Mesmo que, lá na frente, esse poder que estão alimentando se vire contra estes mesmos clubes. Na reunião dos dirigentes, o mantra parece ser cada um por si. Uma pena para o futebol.