Durante as primeiras rodadas das divisões inferiores, os protestos já tinham tomado os principais estádios alemães. Já neste final de semana, com o pontapé inicial na Bundesliga, o movimento contra a DFB (a federação alemã) se espalhou de vez por vários cantos do país. As manifestações uniram adversários e fizeram até mesmo rivais cantarem juntos – como no clássico entre Borussia Mönchengladbach e Colônia, no Borussia Park. O coro em uníssono ataca as decisões da entidade, deixando de lado o interesse daqueles que frequentam as arquibancadas, assim como acusa a corrupção dos dirigentes e reclama da comercialização excessiva do esporte.

Entre as primeiras torcidas a se manifestar, a do Dynamo Dresden ganhou repercussão na segunda divisão, especialmente por levar uma enorme bandeira com o símbolo da DFB rasurado – em uma luta antiga encampada por seus ultras, diga-se. Ainda assim, a amplitude dos atos se tornou maior logo na partida inaugural na Bundesliga. Tanto torcedores do Bayern de Munique quanto do Bayer Leverkusen levaram faixas com frases de protesto à Allianz Arena. O silêncio durou apenas até o fim do minuto de luto em homenagem às vítimas do atentado em Barcelona. Logo após, os gritos começaram a ecoar nas arquibancadas. “Vai se foder, DFB” era a frase de ordem repetida pelo país.

E a mobilização se seguiu também no sábado e no domingo, não só na primeira divisão. Entre os atos mais emblemáticos, os ultras do Nuremberg fizeram um mosaico com seu mascote mostrando o dedo do meio no Estádio Max Morlock. No Borussia Park, os rivais de Mönchengladbach e Colônia entoaram juntos um “merda de DFB”, ao mesmo tempo em que acenderam sinalizadores, proibidos nos estádios alemães. Já os ultras do Erzgebirge Aue chegaram a declarar que há um “holocausto de clubes” – o que foi prontamente recriminado pelas autoridades alemãs, por conta do termo usado.

As demandas dos torcedores são bastante amplas. Parte delas reclamam de limitações aos torcedores, como a proibição do uso de sinalizadores ou a proibição deliberada de setores em pé de alguns estádios. Questionam a postura da DFB nos tribunais, principalmente pelas punições coletivas por atos individuais. Urgem atitudes menos “acomodadas e superficiais” contra questões de fato criminais. E reivindicam preços menores dos ingressos – por mais que a realidade alemã esteja abaixo de outros grandes mercados da Europa. “É preciso deixar claro que os torcedores nos estádios são a base do futebol alemão, e não os seguidores asiáticos do Facebook”, apontaram os grupos que frequentam a curva sul da Allianz Arena, em carta coletiva.

Obviamente, há um foco claro sobre a comercialização do esporte. Segundo os torcedores, a regra do “50+1” (que não permite que os clubes tenham um dono majoritário, a menos que ele seja acionista por 20 anos ou mais) está sendo abrandada e a participação das seleção chinesa sub-20 na quarta divisão não é bem-vinda. Os ultras se voltam ainda contra as medidas que buscam atender os interesses de outros mercados, como a mudança no horário dos pontapés iniciais, a adoção de jogos às segundas ou mesmo a realização de um show no intervalo da final da Copa da Alemanha. Por fim, outro mote levanta as acusações sobre o que chamam de “máfia do futebol”, por conta do envolvimento da federação em casos de corrupção – inclusive envolvendo a candidatura à Copa de 2006. Os manifestantes declaram que algumas das decisões da DFB atendem interesses de forma escusa.

Nem todas as torcidas, porém, empunharam a bandeira. Os ultras do Schalke 04, por exemplo, estiveram entre as ausências mais notáveis. Contudo, os alviazuis explicaram a sua posição. Por mais que concordem com a maioria das reivindicações, eles questionam a maneira como o debate está sendo. Mais do que questionar, eles acham pertinente criar uma ampla discussão para saber os reais interesses dos torcedores e propor também soluções, não apenas fazer queixas. “Cada torcedor e cada curva têm uma visão muito subjetiva do processo. Apesar disso, precisamos lidar com tópicos como as punições coletivas, a exclusão dos torcedores e a espetacularização do futebol. Acima de tudo, precisamos tentar oferecer soluções que vão além de ofensas. É necessário ter um conceito claro e que não se preocupe apenas com si mesmo”, afirmam. Em compensação, a Veltins Arena não esteve totalmente alheia aos protestos. Antes do jogo contra o RB Leipzig, os ultras se manifestaram contra a comercialização do esporte.

Presidente da DFB, Reinhard Grindel usou certa ironia ao comentar os protestos no jogo entre Bayern e Leverkusen. Presente no estádio, ele declarou que as faixas agora não se limitam a “declarar guerra” à DFB, mas trazem tópicos concretos. Disse que está aberto às conversas, embora reprove atitudes violentas dos torcedores. Inclusive, afirmou que apresentou para esta temporada uma lista clara de punições às infrações ocorridas nos estádios, o que era uma demanda antiga dos torcedores.

De qualquer maneira, há grupos de ultras que também indagam qual o tamanho da abertura da DFB a este diálogo. “Por 10 anos, existiram reuniões. Por 10 anos, nada mudou positivamente. Essas ‘ofertas de diálogo’ não são nada além de uma maneira de manter os torcedores afáveis e sugerir que eles podem influenciar através dos ‘canais oficiais’. Porém, a federação tenta capturá-los e enquadrá-los ao sistema. Conversas só fazem sentido para nós quando produzem resultados. Não vamos e não queremos falar, a menos que a DFB mude. E isso não é apenas um ‘assunto de ultras’. Nossas demandas são para todos que amam o futebol. A DFB não está preocupada com a segurança nos estádios há tempos. É apenas sobe poder e dinheiro. Sabemos que estamos do lado certo e não vamos mudar nossa posição. Não iremos parar os protestos e os levaremos para vários estádios nesta temporada. Chegamos muito longe para desistir. Somos dezenas de milhares e continuaremos crescendo. Por uma coisa que o futebol nunca será: o produto de uma associação que se distanciou das arquibancadas”, afirmou o coletivo de ultras do Colônia. Declarações fortes e que mostram como a queda de braço está apenas no início.