Bastou uma semana ruim para que os urubus planassem sobre o Parc des Princes à espreita de farta alimentação. A eliminação para o Chelsea na Liga dos Campeões abalou demais o Paris Saint-Germain, que não teve poder de reação para superá-la em sua partida seguinte. Esperava-se que o time da capital apresentasse sequelas de sua queda para os Blues (o que é natural, claro), mas a atuação da equipe diante do Lyon apenas comprovou que o PSG não é um time maduro o suficiente para galgar degraus mais altos.

Ao cair por 1 a 0 diante do OL em Gerland, o PSG viu acabar uma bela série. Foram 28 meses sem o time sofrer duas derrotas consecutivas. Não é motivo para a torcida pichar os muros do clube com a frase “Acabou a paz”, mas mostra que a realidade parisiense não é tão doce como se pensa. E isto vai além da óbvia perda de qualidade com a ausência de Zlatan Ibrahimovic nestes dois duelos.

Claro que o PSG perde força quando o sueco está fora de combate, mas seria muito simplista resumir os problemas do time a isto. Os líderes naturais da equipe deveriam segurar um pouco mais a bronca e reduzir esta dependência em torno do atacante. Em Gerland, a coluna vertebral parisiense ficou travada e não deu a segurança necessária tanto para o sistema defensivo como para o ofensivo.

Thiago Silva não transmitiu a mesma serenidade de outros momentos. O brasileiro teve seu nome envolvido em uma polêmica levantada pelo jornal espanhol Mundo Deportivo, segundo o qual o jogador teria um relacionamento tenso com o treinador Laurent Blanc. Mais: o problema seria tão grave que o zagueiro estaria até pensando em deixar o PSG na próxima janela de transferências. Thiago Silva negou qualquer problema e reiterou seu comprometimento com o PSG, mas sem dúvida o boato mexeu com ele.

Thiago Motta também teve um rendimento abaixo de sua média, muito por mérito do bom meio-campo montado pelo Lyon. A ineficiência de Cavani completa o momento ruim do PSG. O uruguaio, que tanto cobrou uma chance para jogar como um ‘9’ verdadeiro, acumula finalizações erradas, atuações discretas e a certeza cada vez maior de que precisa mesmo se contentar com o papel de coadjuvante de Ibra.

Justiça seja feita, o rendimento pouco louvável de Cavani também está ligado aos seus companheiros de equipe mais próximos. Lavezzi ainda salva a pátria, com 12 gols marcados e a entrega em cada jogo, apesar das oscilações na temporada. Já Lucas… O ex-são-paulino marcou apenas três gols em 31 partidas (menos que o volante Matuidi e o zagueiro Marquinhos) e, quando entra em campo, praticamente não faz diferença alguma.

Diante do OL, o brasileiro começou o jogo no banco de reservas e jogou por 30 minutos, quando substituiu Matuidi. A intenção de Blanc era mandar o time à frente, mas Lucas pouco fez e o PSG continuou no rame-rame de sempre. Falar de Pastore já virou uma chatice: o argentino anotou apenas três gols em 34 jogos e todos esperam o dia no qual ele acordará definitivamente.

Além dos problemas em campo, o PSG passou da certeza da renovação do contrato de Blanc para um cenário de penumbra. A reação de Nasser al-Khelaïfi, presidente do clube, ao final da partida diante do Lyon traduz muito bem o clima nada amistoso nos bastidores. O dirigente saiu de cara amarrada, em silêncio, sem cumprimentar os jogadores e os membros da comissão técnica, ao contrário do que sempre fez durante a temporada. Em seguida, ele viajou para o Catar e volta para Paris no sábado para acompanhar a decisão da Copa da Liga, quando a sorte de Blanc será traçada.

O treinador já não desperta a mesma confiança do QSI. Blanc sempre quis ter uma influência maior para sugerir nomes para compor sua comissão técnica e também para a contratação de jogadores, mas sua opinião sempre ficou em segundo plano. Al-Khelaïfi, bastante próximo a líderes do elenco como Ibra e Thiago Silva, já sondou o vestiário para saber se Blanc tem capacidade para reerguer o elenco após momentos conturbados. A resposta, ao que parece, complica a situação do treinador.

Já brotou até o nome de um possível sucessor de Blanc: Diego Simeone, em campanha irrepreensível do Atlético de Madrid nesta temporada. Com tantas incertezas, surpreende ver como tantos problemas vêm à tona em um intervalo tão pequeno de tempo. Duas derrotas escancaram um ambiente tenso onde se imaginava reinar a paz pelos resultados obtidos na Ligue 1. Obviamente, uma prova de que o título francês já não faz diferença alguma no Parc des Princes.

Lyon no vermelho

A Direção Nacional de Controle de Gestão (DNCG) divulgou sua lista anual referente às receitas dos 40 clubes da Ligue 1 e da Ligue 2. Sem surpresas, pelo quarto ano consecutivo, o resultado geral foi uma conta no vermelho. Em 2012/13, os clubes analisados apresentaram um déficit de € 39 milhões – destes, € 17,589 milhões são das equipes da primeira divisão.

Por um lado, houve alguma evolução se observarmos o período de 2011/12, quando as perdas acumuladas alcançaram significativos € 108 milhões. Por outro, fica a certeza da necessidade de um controle ainda maior dos gastos dentro de um ambiente de crise econômica geral no continente. Houve uma redução no prejuízo, mas ele ainda existe apesar de decisões firmes para apertar os cintos.

Dentro de um cenário um pouco animador (mas não muito), oito clubes da Ligue 1 estão no vermelho: Rennes, Ajaccio, Brest, Lille, Paris Saint-Germain, Nancy, Bordeaux e Lyon. O Olympique de Marselha apresenta saldo zero. De longe, o Montpellier desponta como o aluno mais aplicado nesta aula sobre finanças: o MHSC teve um superávit de € 9,718 milhões, bem à frente do segundo colocado (Stade Reims, € 3,388 milhões).

Entre os clubes reprovados, encontram-se três forças do hexágono. O PSG teve perdas de € 3,5 milhões, algo bem parecido com o Lille (€ 3,05 milhões). A situação mais preocupante é a do Lyon. Lanterna do ranking, o OL acumulou um déficit de € 19,8 milhões, muito à frente do Bordeaux, penúltimo colocado com – € 7,702 milhões.

Os lioneses encontram dificuldades severas para conter a sangria em seus cofres. Jean-Michel Aulas, presidente do OL, tomou diversas medidas de austeridade para tentar frear a saída de tantos euros dos seus bolsos, mas parece que o vazamento ainda não foi completamente vedado.

Nas últimas temporadas, o Lyon adotou uma postura rígida para conter seus gastos. O clube tratou de negociar seus principais jogadores e donos dos maiores salários do elenco. Poucas contratações foram feitas e, quando houve esta necessidade, não foram feitas loucuras financeiras. Além disso, a aposta nas categorias de base se tornou a grande fórmula para tentar o lucro a médio/longo prazo.

Só que este sacrifício cobra seu preço dentro de campo. Exatamente na última temporada, o Lyon não disputou a Liga dos Campeões, e consequentemente ficou sem os milhões de euros que a competição distribui de forma generosa aos seus participantes. Em 2013/14, a eliminação precoce nos playoffs também teve seu efeito nos cofres lioneses. Para 2014/15, uma provável nova ausência na Champions voltará a obrigar a direção a fazer malabarismos financeiros. A torcida deve esperar por tempos de seca.