Primeiro, foram as comemorações com a torcida. Subir as escadas nas novas arenas inauguradas no Brasil para a Copa? De jeito nenhum. A orientação foi dar cartão amarelo aos infratores. Mas é algo que a Fifa orienta? De jeito nenhum. É uma invenção da CBF e sua comissão de arbitragem. Agora, fomos um passo além. Se reservas entram em campo para comemorar com o jogador que marcou o gol, recebem cartão amarelo. É a orientação deste ano no Brasileirão, dada pela Comissão de Arbitragem da CBF, cada vez mais autoritária.

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Já são cinco os casos de jogadores reservas punidos com cartões amarelos por terem entrado em campo para comemorar gols. Nesta última rodada, Sidão, do São Paulo, Hudson, do Cruzeiro, Thallyson, do Sport, receberam a punição. Na primeira rodada, Ralph, volante reserva do Atlético Mineiro, já tinha sido punido, inaugurando a orientação. Na segunda rodada foi a vez de Raniel, do Cruzeiro, ser agraciado.

O comunicado da CBF sobre as diretrizes da arbitragem publicadas no site da CBF, no dia 11 de maio, fala especificamente que “Comemoração de gol excessiva será punida”. É algo que já havia em 2016 e o texto diz que as situações a seguir devem ser punidas com cartão amarelo:

– subir nos equipamentos de proteção do campo;
– fazer gestos provocativos, debochados ou inflamatórios;
– cobrir a cabeça ou rosto com máscara ou artigos semelhantes;
– tirar a camisa ou cobrir a cabeça com a camisa.

O vídeo que a CBF usa é de um gol de Diego no Maracanã, em 2016. Ele corre para as escadas, abraça torcedores e, claro, toma cartão amarelo. Algo que já era absurdo, mas que a entidade considera que “este tipo de comemoração coloca em risco a integridade física do jogador e do torcedor”. Algo que parece ter sido escrito por quem não entende muito de estádio. Ainda mais nessas novas arenas.

Subir nos equipamentos de proteção é o chamado subir no alambrado, algo cada vez mais raro no Brasil, ao menos nos times de primeira divisão e o processo de arenização. O problema está no segundo ponto. A CBF diz que punirá gestos provocativos, debochados ou inflamatórios. Por aí, já deveríamos ficar com os dois pés atrás.

Vale lembrar uma situação, então, que entra no que se descreve acima, ao menos segundo a CBF: a mão na reolha de Cueva, do São Paulo. Colocar a mão na orelha como ele fez rende cartão amarelo – foi assim na Arena Corinthians, em 2016, por exemplo. De novo, seria compreensível se fosse algo preconceituoso, racista, homofóbico machista, uma saudação nazista ou algo do tipo. Não é o que vemos. Se acontecer, é claro que tem que ser punido.

Provocações fazem parte. É claro que é preciso bom senso e há momentos que jogadores podem se exceder, mas isso é exceção, não é regra. Comemorações como a de Viola, em 1993 pelo Corinthians, imitando um porco, ou de Paulo Nunes em 1999 pelo Palmeiras, com máscara de porco, seriam punidas. Aliás, mantendo algo no futebol atual, se Pierre-Emerick Aubameyang, do Borussia Dortmund, jogasse em um clube do Brasil e quisesse fazer uma das suas comemorações com a máscara do Homem-Aranha, acabaria punido. Na Alemanha, tudo bem. Por que aqui deve ser punido?

Veja o que a Comissão de Arbitragem da CBF considera, nas palavras dela, uma comemoração que “coloca em risco a integridade física do jogador e do torcedor”:

Só que a novidade desse ano tornou a comemoração de gol ainda mais restrita. Agora, os punidos são os reservas que entram em campo. O texto publicado pela CBF com o título “Invasão de campo na comemoração de gol será punida” traz algo no seu texto que já deixa à mostra o autoritarismo de quem comanda a Comissão de Arbitragem: “Jogadores substitutos, substituídos e membros da comissão técnica podem comemorar o gol, porém as comemorações não podem ser excessivas e os mesmos não estão autorizados entrar no campo de jogo”.

Reparem especificamente no seguinte: “(…) as comemorações não podem ser excessivas (…)”. O gol, maior momento do futebol, a êxtase de quem joga, de quem assiste, é limitada. Claro que existem limites e o limite é o bom senso.

Felizmente, são raros os casos que uma comemoração seja realmente um problema. Tente lembrar alguma, de cabeça. Não é realmente algo que acontece com frequência. Mas não é o que a CBF pensa. Os reservas abraçarem o jogador que fez o gol, entrando em campo, não parece ser realmente um  problema. É uma estupidez punir isso.

Então, caras leitoras e leitores, assistam ao vídeo que a própria Comissão de Arbitragem publicou no site da CBF como exemplo do que consideram como “comemoração excessiva”:

Sinceramente, é difícil imaginar que uma comemoração como essa do vídeo acima seja realmente prejudicial ao jogo. Parece ser algo de quem vem do comando da Polícia Militar, que é de onde vez o atual comandante da arbitragem da CBF, Marcos Marinho, mais conhecido como Coronel Marinho. Ele era da Polícia Militar, trabalhava no policiamento de jogos. Talvez venha daí essa ideia tão restritiva, tão avessa à multidões e festas públicas.

Marinho ganhou espaço com a entrada de Maro Pólo Del Nero, que veio da Federação Paulista de Futebol e que já o tinha como comandante da arbitragem paulista. O Departamento de Arbitragem da CBF é formado por mais de uma pessoa, mas é o Coronel Marinho quem comanda. E é ele quem pode colocar fim a essa loucura de cartão amarelo por tudo quanto é comemoração. Está na hora. Aliás, já passou da hora faz tempo.