O Éibar precisou esperar 65 temporadas para celebrar a sua maior glória. Os armeros passaram mais de seis décadas militando nos níveis inferiores de La Liga, 26 anos apenas na segunda divisão, até se tornarem o 60ª clube a participar de La Liga. Disputar a chamada “liga das estrelas” parece muito para o clube que não tem mais do que 3,5 mil sócios, suficientes para encher o estádio de 5,25 mil lugares, encravado em uma cidade no País Basco com 27 mil habitantes. Porém, mais do que uma prova de perseverança, o Éibar é um exemplo de gestão. E por isso mesmo, pode ser impedido de participar da elite e ainda ser rebaixado à terceirona.

>>> Racing se nega a jogar, é eliminado, torcida aplaude e todos estão certíssimos

O caso está longe de ser simples. Em campo, o Éibar cumpriu o seu papel. A equipe conquistou o segundo acesso seguido no Campeonato Espanhol. Em 2012/13, se impôs nos duros mata-matas da terceira divisão. Já nesta temporada, manteve a regularidade na segunda divisão, conquistando o acesso com duas rodadas de antecedência. Mais do que isso, pode até mesmo ficar com o título, já que assumiu a liderança neste final de semana, ajudado pela derrocada do Deportivo de La Coruña. Prêmio imenso para um clube que prefere se manter modesto e fechar as contas em dia, ao invés de dar passos maiores que suas próprias pernas.

O valor de mercado do elenco do Éibar é o terceiro menor entre as 22 equipes da segunda divisão de La Liga, mostra de que os investimentos em jogadores são pequenos. Da mesma forma, a folha de pagamentos está entre as mais baixas, mas em dia, algo que não costuma ser tão comum no futebol espanhol – basta lembrar o que, em meio à crise econômica na qual o país está afundado, aconteceu recentemente com Málaga ou Oviedo. Contudo, apenas as contas no azul não são suficientes aos bascos. E eles precisarão da contribuição de seus torcedores e simpatizantes se quiserem mesmo disputar a primeira divisão do Espanhol.

>>> Oviedo tenta evitar quebra com apoio de Cazorla, Michu e Mata
>>> Málaga precisa de um dono que pense no clube de verdade

A Liga de Futebol Profissional (LFP), entidade que gere a liga no país, exige que os clubes que disputam os campeonatos profissionais tenham um capital mínimo. Na primeira divisão, as equipes precisam reunir cerca de € 1,725 milhões de seus sócios – já que a legislação nacional também obriga que todas as agremiações sejam compostas por “sociedades anônimas”. O problema é que o capital do Éibar não passa dos € 770 mil. Sem interesse em um magnata aventureiro que banque o clube (e deixe rombos quase irreversíveis, como os exemplos recentes mostram), o Éibar está apelando para a colaboração.

O clube lançou a campanha ‘Defiende al Éibar’, oferecendo cotas de ações a partir de € 50 euros. “Trabalho, humildade, orgulho, união. O Éibar defende como nada os valores do povo que representa. Se você também crê neles, ajuda-nos a mantê-lo”, afirma o site dos bascos. Restam mais 71 dias para que o apelo dê certo e os armeros atinjam o valor referido pela LFP. Caso contrário, serão rebaixados à terceira divisão, por não cumprirem os requisitos mínimos para disputar os únicos dois níveis do país completamente profissionais.

>>> Quase falido, Deportivo não voltará a ser grande tão cedo
>>> Pepe teve um grande gesto diante da crise que se agrava na Espanha

Na contramão, o alívio. Racing de Santander e Albacete conquistaram o acesso à segunda divisão também neste final de semana. Mais do que a subida de um degrau, foi a salvação para os dois clubes, com graves problemas financeiros. Em janeiro, o Racing se negou a enfrentar a Real Sociedad pela Copa do Rei, exigindo a demissão do conselho administrativo – que, além de denunciado por fraudes, também atrasava salários. Juntos, os dois clubes acumulam dívidas de € 62 milhões. O dinheiro dos direitos de transmissão, do aumento do preço dos ingressos e dos novos contratos publicitários que vêm junto com o acesso pode ser o incremento para evitar a falência. E, apesar de tudo isso, nenhum dos dois está ameaçado de conquistar o acesso, já que possuem o capital social mínimo exigido pela LFP.

Já passou da hora do futebol espanhol repensar seu modelo de gestão. Não apenas por todos os benefícios para Barcelona e Real Madrid, que fazem muito de suas fortunas com o dinheiro da televisão e com as concessões públicas, mas também pela maneira como o contribuinte arca com os custos. Não é incomum a complacência do poder público com a dívida dos clubes menores, o que chegou até a ser motivo de investigação da União Europeia. E quando há um exemplo positivo como o Éibar, a própria estrutura de gastos insustentáveis se trata de soterrar.