José Leandro Andrade vai morrer a qualquer momento. É outubro de 1957, e o quarto do asilo Piñero del Campo converte-se num mundo espectral, feito de sombras e fantasmas. Por trás do monóculo que lhe cobre o olho cego, o negro Andrade quase não pode divisar os detalhes do lugar. Ele arfa com dificuldade as últimas lufadas que os foles tuberculosos de seu pulmão conseguem dar conta. É Montevidéu, mas talvez seja Paris, talvez seja um covil de luxúria e champagne numa esquina iluminada de Montmartre ou de qualquer bairro boêmio no sopé da Eiffel. Difícil discernir, a sífilis o faz tresvariar. A sífilis e o álcool, em conluio, dizimam a réstia da sanidade mental de Andrade. Eles e o tic-tac do relógio esgotando o tempo em seus ouvidos. Há um sincopado misturado a esse ritmo marcial. É o coração de Andrade fraquejando, mas bem poderiam ser as murgas e tamborins de uma comparsa furtiva insinuando um carnaval de candombe e suor pelas ruas uruguaias. A sua alma parece querer bailar em meio à folia, ensaia flutuar por las calles, sorriso aberto uma vez mais. Já os pés lhe doem. Os pés de ouro que o alçaram à glória doem, doem os pés que o conduziram pelo incessante tango à beira do abismo que foi a sua existência, doem os pés que se perderam na ladeira do esquecimento. José Leandro Andrade vai morrer a qualquer momento, mas outros três Andrades permanecerão para sempre.

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