Quem viveu sua infância ou juventude nos anos 1990 provavelmente saberá do que eu estou falando. Um dos finais mais legais em ‘Street Fighter II’ era o de Zangief. Bastava você zerar o jogo para um helicóptero pousar na Tailândia trazendo o presidente da União Soviética – um senhor não citado nominalmente, mas cuja mancha na careca não deixava dúvidas sobre a referência a Mikhail Gorbachev. O estadista agradecia o lutador e falava sobre o orgulho que causou no país, antes de (em cena um tanto quanto galhofeira) terminarem celebrando com uma dança tipicamente russa. Stanislav Cherchesov não precisou dar porrada em ninguém e muito menos usou uma sunguinha vermelha. No entanto, teve seu momento Zangief após a Copa do Mundo de 2018. Contatado por Vladimir Putin, recebeu os parabéns pela campanha rumo às quartas de final da Copa do Mundo. Um feito e tanto a uma seleção desacreditada, que mostra os méritos do comandante.

“Putin assistiu ao jogo e estava torcendo pelo time. Nós perdemos em um grande jogo, de resultado justo. Os jogadores continuam sendo grandes para nós, eles são heróis. Eles estavam dando suas vidas em campo, temos orgulho deles”, declarou Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, após a partida contra a Croácia. Putin ainda teria convidado o treinador e os jogadores para discutir o legado da Copa do Mundo na Rússia durante os próximos dias.

Cherchesov recebeu ligações do presidente ao longo da competição. O que o treinador foi capaz de alcançar nesta Copa, afinal, merece os créditos. A seleção russa tem suas claras limitações técnicas. Ainda assim, o comandante soube montar um grupo coeso e aproveitar as melhores características da maioria de seus jogadores. Vários renderam acima de suas possibilidades, ajudando o time a ir mais longe do que se pensava e deixando um dos favoritos pelo caminho. Além disso, a própria maneira como o time russo se adaptou às ocasiões ao longo do torneio tem a influência direta do técnico. Contra a Croácia, inclusive, a Rússia buscou a iniciativa na partida. Lutou durante os 120 minutos, se aproximou da classificação em vários momentos e só sucumbiu por detalhes, na disputa por pênaltis. O reconhecimento é mais do que natural.

Orgulho, aliás, foi a palavra usada por Cherchesov para falar sobre o time: “Eu acredito que a chave é a maneira como saímos. É melhor quando você deixa a competição se sentindo orgulhoso. Não temos mais chances de conquistar a Copa e, logicamente, estamos tristes. Mas mostramos nosso valor. Desde o primeiro segundo que assumi este time, sabia para onde estávamos indo. Nós tivemos sucesso, mas é hora de dar um passo à frente”.

“Vladimir Putin falou comigo durante o dia e me ligou há pouco, depois do jogo. Deu-me os parabéns pela ótima atuação. Falei a ele que estamos desapontados, mas ele respondeu que devemos manter nossos olhos abertos e dar os próximos passos. Não podemos pedir que as pessoas acreditem em nós. Nós só conseguiríamos fazer isso a partir de um bom trabalho. E agora todo o país sabe do que o futebol nacional russo realmente é capaz. Espero que tenhamos mudado de perspectiva para melhor”, complementou Cherchesov.

Antes do possível encontro com Putin, a seleção russa foi aclamada por sua torcida. Na saída do estádio durante a noite de sábado, já era possível notar que a satisfação permanecia, independentemente do adeus. Já neste domingo, mais de 25 mil torcedores se reuniram em Moscou para receber os seus heróis. O elenco apareceu no palco da Fan Fest armada na capital, ouvindo cânticos de “muito obrigado” e “bom trabalho” da massa. Mesmo Fyodor Smolov teve seu nome gritado, independentemente do pênalti ridiculamente perdido contra a Croácia. O capitão Igor Akinfeev e o centroavante Artem Dzyuba tomaram o microfone para falar com o público e agradecer. É a cena final da comunhão de um povo com sua seleção, no ápice de sua paixão pelo futebol.