Para um país que já ganhou a Copa do Mundo, tem uma liga tão forte e uma torcida tão apaixonada por futebol, a Inglaterra possui uma coleção mais do que razoável de fracassos em torneios internacionais. Tanto que, na Rússia, disputa apenas sua terceira semifinal de Copa do Mundo. Mas poucas humilhações foram tão grandes quanto a das Eliminatórias da Eurocopa de 2008.

Mesmo com jogadores do calibre de Terry, Ferdinand, Gerrard, Lampard, Rooney, Owen e Beckham, e disputando um torneio com 12 rodadas em que precisava meramente ficar em segundo lugar, a Inglaterra chegou à última partida do seu grupo ainda precisando de um resultado. Jogaria em casa, no remodelado Wembley, contra uma seleção já classificada. Bastava empatar. Mas a Inglaterra perdeu da mesma Croácia que enfrenta nesta quarta-feira por vaga na decisão do Mundial de 2018 e assistiu à Eurocopa da Áustria e da Suíça pela televisão, bem confortável no sofá da sala.

A Croácia avançou à fase final ao lado da Rússia. Treinada por Slaven Bilic, surpreendeu ganhando os três jogos da fase de grupos, inclusive da Alemanha. Mas foi eliminada nas quartas de final, em um jogo maluco contra a Turquia. Os croatas fizeram 1 a 0 aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação, mas os turcos empataram, nos acréscimos. A derrota veio nos pênaltis, e uma curiosidade: Luka Modric e Ivan Rakitic, os grandes nomes da atual geração, desperdiçaram suas cobranças.

Second Choice Steven

Steve McLaren ao lado de Eriksson durante a Copa do Mundo de 2002 (Foto: Getty Images)

Depois da derrota da Inglaterra para Portugal, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2006, foi aberta a busca por um sucessor para o sueco Sven-Göran Eriksson, que estava no cargo há cinco anos. Havia cinco nomes: Sam Allardyce, do Bolton, cujo sonho de ser treinador da seleção inglesa seria realizado brevemente apenas dez anos depois; Martin O’Neill, sem clube depois de uma ótima passagem pelo Celtic; Alan Curbishley, do Charlton; Luiz Felipe Scolari, que havia eliminado os Three Lions na Alemanha e era, de longe, o profissional com o melhor currículo sendo cogitado; e Steve McLaren, de bom trabalho no Middlesbrough e, ao mesmo tempo, assistente de Eriksson no time nacional.

A qualidade da lista não inspirava muita confiança, mas a Federação Inglesa realmente escolheu o melhor nome, uma figura gigante para dar um jeito no pesado vestiário que tinha David Beckham, Steven Gerrard, Frank Lampard, Wayne Rooney, John Terry, Gary Neville e Rio Ferdinand. Mas Felipão recusou a proposta dos ingleses e continuou treinando Portugal até 2008, quando finalmente foi para a Inglaterra, mas para assumir o Chelsea. Steve McLaren foi a segunda escolha.

McLaren tinha experiência como braço direito de Eriksson e um bom trabalho no Middlesbrough, campeão da Copa da Liga de 2003/04 e vice da Copa da Uefa de 2005/06. Mas ainda não era um técnico de peso como Scolari. Ele tomou as rédeas tentando deixar a sua marca. O desejo por renovar o elenco era válido. A forma como ele fez talvez tenha sido um pouco brusca: aposentou jogadores como David James e Sol Campbell. E um outro chamado David Beckham.

Depois da campanha na Alemanha, Beckham havia aberto mão da braçadeira de capitão e foi sucedido por John Terry. Mas não estava nos planos da estrela do Real Madrid parar de defender a seleção inglesa. Isso foi tudo por conta de McLaren, que não o incluiu na sua primeira lista, para um amistoso contra a Grécia. Segundo o treinador, Beckham ficou decepcionado com a notícia, mas a aceitou “muito bem”. O jogador de fato foi polido em seu comunicado à imprensa. “Depois de conversar com Steve McLaren, eu consigo compreender que um novo treinador quer deixar sua marca no time e construí-lo para a próxima Copa do Mundo”, afirmou.

“Ele foi um jogador fantástico para a Inglaterra e um grande capitão”, justificou Eriksson, “mas eu decidi seguir em frente. A decisão foi minha. Recebi os conselhos de várias pessoas, mas, no fim, a decisão foi minha. Vamos falar do futuro, de jogadores jovens que estão aparecendo e que queremos estabelecer para o time da Eurocopa de 2008”, explicou. Quais jogadores ele tinha em mente? “Nomes como Aaron Lennon, Shaun Wright-Phillips, Kieran Richardson e Stewart Downing, que floresceram na Copa, merecem uma chance”, listou.

Olhando agora, com o benefício da experiência, a decisão de abrir mão de Beckham, que ainda batia aquela bola bacana pelo Real Madrid, para dar espaço a Wright-Philips e Aaron Lennon parece ridícula. Mas, para ser justo com McLaren, na época ninguém entendeu também. “Downing realmente floresceu na Alemanha? Considerando que Wright-Philipps fez seu primeiro gol pelo Chelsea na quarta-feira contra o Celtic, depois de um ano angustiante em Stamford Bridge, o que exatamente ele merece? McLaren, no entanto, deve receber o crédito devido a qualquer pessoa que acaba de assumir o cargo de técnico da Inglaterra”, escreveu o Guardian, em agosto de 2006.

Traz o cara de volta

Beckham voltou à seleção inglesa em amistoso contra o Brasil (Foto: Getty Images)

A campanha valendo vaga na Eurocopa de 2008 começou com goleada por 5 a 0 sobre Andorra e uma vitória magra contra a Macedônia, por 1 a 0. Em outubro, porém, a Inglaterra apenas empatou com os macedônios e encontrou a Croácia pela primeira vez, em Zagreb. Eduardo havia aberto o placar para os donos da casa, que venciam por 1 a 0, aos 22 minutos do segundo tempo, quando Gary Neville recuou para o goleiro Paul Robinson. Aquela bola gostosa de dar um chutão, sabe? Mas a danada pingou segundos antes da explosão e driblou o pé direito de Robinson. A furada foi espetacular. E a Croácia venceu por 2 a 0. Em março, os ingleses apenas empataram com Israel. E McLaren teve que engolir o seu orgulho.

Lembra que o discurso de McLaren era dar espaço para jovens? Desenvolver o futuro da seleção? Pois é: três jogos seguidos sem vitória nas Eliminatórias da Eurocopa (depois ganhou de Andorra, por 3 a 0, nada mais que a obrigação) e pesadas críticas da torcida tornaram o treinador um homem muito mais imediatista. “Você não pode falar sobre o futuro porque não pode pensar além da Estônia. Na situação que estamos, preciso escolher um time para vencer a Estônia, e eu sei que David pode nos ajudar a fazer isso. Não adianta olhar além disso”, disse. Segundo McLaren, o retorno de Beckham, que àquela altura já estava confirmado no Los Angeles Galaxy, não foi uma medida de “pânico” depois do empate com Israel. A decisão de convocar o capitão foi tomada depois da derrota para a Espanha, por 1 a 0, em amistoso de fevereiro. Ele não enfrentou Israel e Andorra apenas porque estava machucado. Segundo McLaren.

McLaren estava certo que Beckham poderia ajudar a Inglaterra a ganhar da Estônia. Ele deu assistência na vitória por 3 a 0 fora de casa. Machucado, o astro não participou do momento em que a seleção finalmente engrenou, batendo, pelo mesmo placar, Israel, Rússia e a Estônia novamente. A campeã mundial de 1966 chegou à penúltima partida contra a Rússia, fora de casa, bem colocada para se classificar. A Croácia liderava com 26 pontos, os ingleses tinham 23, a Rússia estava com apenas 18, e Israel, com 17.

O palco do jogo era o Estádio Luzhniki, de Moscou, o mesmo que abrigará a semifinal desta quarta-feira. Rooney abriu o placar, aos 29 minutos, mas Roman Pavlyuchenko entrou no segundo tempo para marcar duas vezes e virar o jogo para os anfitriões. A Rússia encostou. A sorte dos britânicos é que, na primeira data de novembro, Israel conseguiu arrancar a vitória contra os russos, aos 47 minutos do segundo tempo. A Inglaterra chegava à última rodada com 23 pontos, e a Rússia, com 21. Israel tinha 20, mas já estava eliminado porque o primeiro critério de desempate na Eliminatória da Eurocopa é o confronto direto. Isso também significava que a Inglaterra precisava apenas empatar com a Croácia, em Wembley, para se classificar.

A tempestade de Wembley 

Scott Carson não foi bem contra a Croácia (Foto: Getty Images)

O Wembley reformado ainda era uma novidade. Havia sido reaberto em março daquele ano. A chuva foi pesada antes da partida decisiva entre Inglaterra e Croácia, e o gramado não estava nas melhores condições, apenas semanas depois de receber um jogo de futebol americano da NFL. McLaren tina desfalques: John Terry, Rio Ferdinand, Wayne Rooney, Gary Neville e Michael Owen estavam fora. Beckham, longe da melhor forma física, começou no banco de reservas. Paul Robinson foi barrado. McLaren decidiu dar uma chance para o jovem Scott Carson, então com 22 anos, que havia estreado pela seleção inglesa cinco dias antes, em amistoso contra a Áustria.

Poucas vezes uma tragédia teve tanto a cara do seu técnico quanto esta. Tudo bem que Robinson não era um craque da posição, e havia falhado no jogo de ida contra a Croácia. Mas colocar um moleque, sem experiência, e também sem nenhum talento especial, para jogar uma partida tão decisiva, debaixo de uma tempestade, não foi uma das cinco melhores decisões da vida de McLaren. Aos oito minutos, Niko Kranjcar bateu de fora da área. Carson abaixou-se para encaixar, errou o movimento e sentiu a bola bater no seu braço antes de entrar. Aos 13, Ivica Olic surgiu cara a cara, driblou o pobre goleiro inglês e fez 2 a 0 para a Croácia.

A imprensa inglesa destacou a atuação de um jogador do Dínamo Zagreb chamado Luka Modric e também as vaias que Wembley destinava a McLaren. Duas mudanças foram feitas no intervalo: entraram Jermaine Defoe na vaga de Wright-Phillips e David Beckham no lugar de Gareth Barry. Funcionou. Defoe sofreu um pênalti, convertido por Frank Lampard, e Beckham cruzou para Peter Crouch empatar. Faltavam 25 minutos. A Inglaterra precisava aguentar apenas 25 minutos para se classificar à Eurocopa. Aguentou 11: Petric soltou a bomba de fora da área e fez o gol da vitória croata.

O clima na Inglaterra foi muito bem representado pelo relato do Telegraph:

“A Inglaterra está fora da Eurocopa de 2008 e Steve McLaren certamente estará sem emprego, depois da reunião da Federação Inglesa, e com razão. A Rússia classificou-se atrás da excelente Croácia, e a culpa é toda da própria Inglaterra e do seu treinador. No café da manhã, McLaren vai virar torrada. Ninguém lamentará sua saída. O símbolo de uma noite de milhares de lágrimas foi McLaren, desamparado, protegendo-se da precipitação com um guarda-chuva, sabendo que nada pode protegê-lo da tempestade de rancor que caiu em cima dele ao fim da partida.

A cena descrita pelo Telegraph: McLaren, desamparado, protegido por um guarda-chuva (Foto: Getty Images)

As esperanças cresceram com a vitória de Israel sobre a Rússia no fim de semana, mas a Inglaterra desperdiçou a sua segunda chance. Apenas um ponto era necessário, apenas um pouco de compostura sob pressão. Tudo isso provou estar além da capacidade da Inglaterra e não espanta que os torcedores soltaram o veneno contra McLaren e seus jogadores.

(…)

O grito que emanava dos torcedores ingleses parou brevemente no segundo tempo, que brincou com as emoções. A Áustria e a Suíça voltaram a aparecer no horizonte quando Frank Lampard e um belo gol de Peter Crouch empataram para a Inglaterra. Eles apenas precisavam sobreviver os últimos 13 minutos, mas apareceu o petardo de Mladen Petric, condenando a Inglaterra a um verão humilhante na praia ano que vem.

O futuro parece sombrio. Enquanto McLaren receberá o conforto de uma cláusula de rescisão de £ 2,5 milhões e desaparecerá de férias em Barbados, todos os torcedores que buscavam acomodações nos Alpes vão se encontrar dormindo no Hotel dos Corações Partidos”.

Claro que, sim, no dia seguinte, Steve McLaren estava sem emprego.