Havia uma enorme expectativa sobre o futebol francês em 1998. O país estava às vésperas de receber sua primeira Copa do Mundo em 60 anos, o que espalhava estádios novos ou renovados pelo território. Os clubes locais vinham de campanhas de destaque nos torneios continentais naquela década e diversos jogadores se tornaram estrelas nas principais ligas. Para auxiliar na empolgação, o Torneio da França de 1997 injetou adrenalina na torcida, entre tantos grandes jogos que ocorreram naquele curto quadrangular. Assim, neste cenário especial, o Campeonato Francês de 1997/98 também marcou época – mas à sua maneira. Um torneio disputado até a última rodada entre dois pequenos e que acabou por coroar uma das torcidas mais fanáticas do país. Há 20 anos, o Lens vivia o seu momento insubstituível, conquistando seu primeiro e único título nacional.

Encravado em uma cidadezinha no extremo norte da França, o Lens surgiu em 1906 e logo se tornou um dos bastiões do futebol no interior do país. Suas ambições, porém, nem sempre foram muito grandes. O clube teve os seus períodos de alta, como nas décadas de 1950 e 1970, quando foi vice-campeão nacional e chegou à final da Copa da França. Em contrapartida, também viveu suas depressões, como a crise que o levou de volta ao amadorismo durante o final dos anos 1960. O início da década de 1990 era um desses momentos de baixa. O Sang et Or militava na segunda divisão do Campeonato Francês, com turbulências internas e uma média de público que atingiu o piso dos cinco mil torcedores por partida.

A reconstrução do Lens começa através da chegada de Gervais Martel à presidência, em 1988. O empresário local iniciou uma gestão mais profissional no clube, sanando as contas e montando elencos competitivos com orçamentos curtos. Como resultado, o Sang et Or subiu à primeira divisão e passou a frequentar a metade de cima da tabela. Não era exatamente uma equipe para lutar pelo título, mas chegou a se classificar à Copa da Uefa durante duas temporadas consecutivas. Além do mais, a torcida voltou a se empolgar, multiplicando por cinco as suas médias. Resgatava o caráter de uma massa ensandecida, mas conhecida também por ser solidária e um tanto quanto hospitaleira com os visitantes.

O Lens, de qualquer forma, não figurava necessariamente entre os favoritos ao título do Campeonato Francês 1997/98. Na campanha anterior, tinha terminado no 13° lugar, o que o deixava fora do radar. Campeão vigente, o Monaco concentrava os holofotes. Havia perdido Sonny Anderson e Emmanuel Petit, mas seguia com uma base fortíssima. Embora o gol estivesse bem resguardado com Fabien Barthez, o destaque vinha mesmo na linha de frente, composta pelos jovens Thierry Henry e David Trezeguet, além do nigeriano Viktor Ikpeba. O Bordeaux perdera Ibrahim Ba, mas tinha Johan Micoud, Sylvain Wiltord e um veterano Jean-Pierre Papin. Já o Paris Saint-Germain, em declínio após os sucessos recentes, vivia os últimos dias de Raí.

Nantes e Auxerre atravessavam tempos em que ainda assustavam, de boas campanhas nacionais e títulos recentes, apesar dos desmanches. O Olympique de Marseille, em reconstrução após a crise que o levou à segunda divisão, investira em Laurent Blanc, Claude Makélélé e Fabrizio Ravanelli. E, além das camisas mais pesadas, valia prestar atenção no Metz. A equipe tinha alcançado a classificação à Copa da Uefa nas duas temporadas anteriores, contando com um elenco recheado de jovens destaques, a exemplo de Rigobert Song e Robert Pirès.

O Lens, por sua vez, nem tinha tantas novidades assim para 1997/98, apesar das vendas de diversos jogadores. A diretoria apostou em reforços pontuais, bem como em jovens que já compunham o plantel. Ainda assim, as adições do meia Stéphane Ziani, trazido do Bordeaux, e do centroavante Anto Drobnjak, que brilhara anteriormente pelo Bastia, acabaram fazendo a diferença ao setor ofensivo. O tcheco Vladimir Smicer e o camaronês Marc-Vivien Foé eram os atletas com maior rodagem por suas seleções, com participações em competições internacionais, enquanto o atacante Tony Vairelles atuara pelo time olímpico dos Bleus. Já na defesa, a coesão era dada por uma base de jogadores há tempos no Sang et Or, com trajetórias de cinco a dez anos no elenco principal – como o goleiro Guillaume Warmuz, o zagueiro Jean-Guy Wallemme, o lateral Eric Sikora e o volante Frédéric Déhu.

 

Por fim, a casamata do Lens contava com a experiência de quem conhecia o clube muito bem. Como jogador, Daniel Leclercq havia sido um dos grandes ídolos da torcida, com mais de 300 partidas disputadas entre 1974 e 1983. Sua trajetória como técnico, em compensação, era bem tímida, somando passagens por equipes de divisões de acesso. Na temporada anterior, havia sido assistente de Roger Lemerre. Com a saída do veterano, que se tornou auxiliar de Aimé Jacquet na seleção francesa, Leclercq assumiu o cargo principal, sob as expectativas de pelo menos evitar o rebaixamento à segunda divisão.

E entre as novidades do Lens, cabe dizer que um dos reforços era o Estádio Félix Bollaert. Casa do Sang et Or desde a década de 1930, o local passara por amplas reformas nos meses anteriores. Um dos palcos escolhidos para a Copa do Mundo de 1998, havia sido modernizado, se transformando em um útil caldeirão aos nanicos. A cidadezinha com pouco mais de 30 mil habitantes se concentrava naquelas arquibancadas, acolhedoras também aos outros torcedores da região de Pas-de-Calais.

Durante o início da campanha, o Lens passou longe da badalação. O time venceu apenas dois de seus primeiros sete jogos, ocupando uma zona intermediária na tabela – embora um desses triunfos tenha sido uma virada insana contra o Olympique de Marseille. Os resultados melhoraram a partir do fim de setembro, incluindo uma vitória por 1 a 0 sobre o Monaco, gol de Smicer. De qualquer maneira, parecia um time desequilibrado, que apostava na ofensividade e na velocidade, mas também concedia muitos espaços na defesa. Não à toa, eram frequentes os “placares bailarinos”, com destaque à visita do Cannes ao Félix Bollaert. Com três gols de Drobnjak, o Sang et Or abriu 4 a 0 em 22 minutos, mas permitiu o empate dos visitantes. Por sorte, aos 34 do segundo tempo, Ziani apareceu para vencer o goleiro Sébastien Frey e decretar a vitória por 5 a 4.

O quinto lugar parecia uma barreira e foi nela que o Lens iniciou o segundo turno, já satisfeito por retornar à zona de classificação à Copa da Uefa. Os líderes nem estavam tão distantes assim, mas havia uma briga ferrenha, com alternâncias de posições entre Monaco, Paris Saint-Germain, Olympique de Marseille e Metz. Os quatro já tinham passado pela primeira colocação até o início do returno.

A metade final da campanha, de qualquer forma, marcou o início de uma caminhada mais consistente do Lens. O time até sofreu sua única derrota em casa, contra o Olympique de Marseille, em jogo no qual Andreas Köpke fechou a meta celeste. Ainda assim, as vitórias aconteciam com uma fluidez maior. Méritos principalmente ao ataque, onde Leclercq acertou um tridente formado por Vairelles-Drobnjak-Smicer, enquanto Ziani era o camisa 10 responsável por alimentar a linha de frente. E, depois de janeiro, ninguém parecia ser capaz de conter o Sang et Or, que deslanchou no Campeonato Francês, ao mesmo tempo que seguia em frente na Copa da França e na Copa da Liga.

A vitória por 3 a 0 sobre o Lyon, no início de fevereiro, colocou o Lens na quarta colocação. A derrota para o vice-lanterna Châteauroux foi um baque, até que o triunfo por 1 a 0 sobre o Bordeaux recolocou a equipe nos trilhos. Desde então, o Sang et Or não perdeu mais. E, mais importante, emendou vitórias sobre os adversários diretos. Na visita ao Monaco, os azarões fizeram 1 a 0 no principado, o que os botou na segunda posição da tabela. Na sequência, atropelaram o PSG, com uma inapelável vitória por 3 a 0 no Félix Bollaert, vingando-se da eliminação na semifinal da Copa da Liga. Por fim, fariam o confronto direto contra o líder Metz, na casa dos concorrentes. Drobnjak acabou sendo titular por acaso, em duelo no qual ficaria no banco, e o destino quis que ele balançasse as redes duas vezes, determinando o triunfo por 2 a 0. A quatro rodadas do fim, o Lens assumiu a liderança, abrindo dois pontos de vantagem ao Metz.

A esta altura, os grandes começavam a ficar pelo caminho. A briga se concentrava nos pequenos, que buscavam a taça inédita. Partida após partida, o Lens ia cumprindo a sua parte. Derrotaram Rennes e Cannes nos dois compromissos seguintes. Além disso, também superaram o Lyon na semifinal da Copa da França, rendendo uma passagem à decisão, o que não acontecia havia 23 anos. Já na penúltima rodada, chegaram até mesmo a ser campeões virtuais por alguns minutos. A vitória parcial sobre o Bastia e o empate do Metz abriam quatro pontos de vantagem. A jornada também teve um susto, quando o Lens sofreu o empate e o Metz abriu o placar. Contudo, na sequência do segundo tempo, o time de Daniel Leclercq assinalou uma goleada por 5 a 1. Com o resultado positivo e o triunfo também do Metz, o Sang et Or partia à rodada derradeira com os resistentes dois pontos de vantagem sobre os oponentes.

Antes de fechar a campanha no Francês, o Lens teve a chance de erguer a primeira taça. Em 2 de maio de 1998, enfrentou o Paris Saint-Germain na final da Copa da França. E a partida tinha um charme a mais, acontecendo pela primeira vez no recém-inaugurado Stade de France, futuro palco da decisão da Copa do Mundo. Os parisienses, todavia, se provaria mais uma vez a pedra no sapato do Sang et Or. Raí e Marco Simone abriram dois gols de vantagem para o time da capital, enquanto os interioranos só descontaram no fim, com Smicer. Mais do que a última taça erguida por Raí, aquele também foi o último jogo do ídolo pelo PSG. Uma semana depois, ele já estaria no Morumbi, brilhando pelo São Paulo no Campeonato Paulista contra o Corinthians.

Se a final da Copa da França marcava a frustração ao Lens, o time tinha sete dias para levantar a poeira. E a rodada final, aparentemente, era acessível. O Sang et Or passeou contra o Auxerre durante o primeiro turno. Por mais que o time de Guy Roux estivesse diante de sua torcida e contasse com a fase artilheira de Stéphane Guivarc’h, havia uma boa dose de confiança nos visitantes.

Em 9 de maio de 1998, o Lens entrou em campo no Estádio l’Abbé-Deschamps de olho também no que acontecia em Metz, onde o time da casa enfrentava o Lyon. E o desastre pareceu se alinhar durante o primeiro tempo. A arbitragem anulou um gol de Smicer e, logo depois, Sabri Lamouchi inaugurou o marcador ao Auxerre. Quase ao mesmo tempo, em Metz, Bruno Rodríguez punha os anfitriões em vantagem contra o Lyon, o que lhes dava o troféu. Porém, o Sang et Or não desistiu. No início do segundo tempo, um passe de Déhu encontrou Yoann Lachor, que empatou. O 1 a 1 no placar, ao final, acabou sendo suficiente ao Lens. O Metz até igualou a pontuação na tabela, mas a vitória mínima sobre os Gones impediu que os concorrentes tirassem os cinco gols de diferença no saldo. A goleada sobre o Bastia ou mesmo os 2 a 0 na visita a Metz acabaram sendo determinantes aos novos campeões – donos também do melhor ataque, com 55 tentos, 41 deles acumulados apenas entre o quarteto ofensivo.

O Lens voltou para casa na mesma noite. Milhares de pessoas foram receber o time no aeroporto de Lille e acompanharam o cortejo nas ruas de Lens. O time chegou ao Estádio Félix Bollaert às três da madrugada e, independentemente do horário, 30 mil fanáticos os esperavam nas arquibancadas. Prefeito da cidadezinha, André Delelis afirmou que só tinha visto a população tão eufórica uma vez na vida: quando ocorreu a liberação do domínio nazista na Segunda Guerra Mundial. Comparação que demonstra a representatividade que o Sang et Or tem para a vida local. Nas semanas seguintes, a festa se ampliaria um pouco mais no Bollaert, com a realização de seis jogos do Mundial, incluindo o memorável França 1×0 Paraguai nas oitavas de final.

Após a temporada histórica, o Lens não conseguiu manter o sucesso. Foé, Ziani, Drobnjak e Wallemme encabeçaram a debandada nos meses seguintes. O sexto lugar no Campeonato Francês recolocava o Sang et Or em seu antigo lugar, enquanto a equipe sequer passou da fase de grupos da Champions, em chave na qual enfrentou Dynamo Kiev, Arsenal e Panathinaikos. Depois, sairiam ainda Déhu, Vairelles e Smicer, desmanchando de vez a espinha dorsal. O reencontro com o sucesso aconteceu apenas depois de uma reformulação. Em 2001/02, o Lens liderou a Division 1 por 23 rodadas consecutivas. No último compromisso, contudo, pegou justamente o vice-líder Lyon em Gerland. A vitória dos Gones por 3 a 1 permitiu que eles tomassem o topo, iniciando ali a dinastia de sete títulos na liga, e deixando os adversários com a decepção do vice. Nesta época, enquanto Warmuz e Sikora eram os principais remanescentes do título de quatro anos antes, o Sang et Or mantinha uma base com destaque aos vários atletas de origem senegalesa – quatro deles convocados à Copa do Mundo, incluindo El-Hadji Diouf.

Até a metade dos anos 2000, o Lens continuou figurando na metade de cima da tabela da Ligue 1. Já o rebaixamento inesperado em 2007/08 marcou o início de um período de altos e baixos, entre acessos e descensos. São três temporadas consecutivas na segundona, e na atual campanha o Sang et Or correu riscos. O orgulho da torcida se concentra no passado. Lá, os pensamentos são mais vivos, principalmente quando o assunto é aquele maio inesquecível há 20 primaveras.