Cariocas, gaúchos, mineiros e paulistas. Poucas vezes o futebol brasileiro teve seus holofotes voltados a clubes de fora dos quatro estados. Juntando o Campeonato Brasileiro unificado e a Copa do Brasil, apenas sete títulos acabaram em mãos diferentes. Um destes momentos, em meados da década de 1980. Quando o Paraná podia ser considerado, sim, um centro tão importante quanto qualquer outro do esporte no país. O Coritiba conquistou o Brasileirão apenas dois anos após o Atlético Paranaense sonhar com o título e esbarrar nas semifinais. Dois times inesquecíveis para rubro-negros e alviverdes.

TEMA DA SEMANA: O que acontece quando dois rivais estão no auge ao mesmo tempo

Por mais que o Coritiba tenha se sagrado como campeão nacional naquela época, o domínio dentro do estado era do Atlético. O Furacão venceu três Campeonatos Paranaenses entre 1982 e 1985, mantendo também a supremacia nos clássicos. Dois grandes times, com suas próprias justificativas para tentar dizer quem era o maior no período. E que, por conta das estruturas do futebol da época, acabou limitada apenas a jogos regionais e amistosos, sem um grande duelo nacional. Por mais que isso não tenha diminuído em nada a importância dos confrontos entre aqueles dois esquadrões.

O histórico da rivalidade

Tanto quanto o sucesso, a rixa entre Atlético e Coritiba pode ser explicada pelas origens dos clubes, com um representante da colônia alemã e outro da aristocracia que queria transcender as referências nacionalistas. De qualquer forma, o clássico nasceu mesmo através das brigas por taças. Mais especificamente, em um torneio amistoso criado nos anos 1920. Já em 1941, o confronto na decisão do Campeonato Paranaense aumentou as proporções da rivalidade, a ponto de uma provocação rubro-negra originar o apelido “coxa-branca”.

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A alternância de Atlético e Coritiba no topo do futebol estadual era emblemática. De 1925 a 1960, 26 títulos acabaram nas mãos da dupla, com o Ferroviário distante como terceira força local. Entretanto, a década de 1960 marcou o crescimento das equipes do interior. E apenas os alviverdes conseguiram se recuperar na sequência para voltar ao topo, estabelecendo uma enorme hegemonia. Foram 12 títulos do Coxa de 1968 a 1979, contra apenas um do Furacão. Retrospecto que serviu para intensificar os dérbis nos anos 1980.

Semifinalista do Brasileirão em 1979, o Coritiba chegou a estabelecer uma invencibilidade de 14 clássicos até o ano seguinte. De agosto de 1977 a julho de 1980, os alviverdes sustentaram a freguesia contra os rivais, em uma sequência que incluiu dois jogos pelo Brasileirão e a final do Paranaense de 1978 – com 150 mil pessoas indo ao estádio para ver os três jogos decisivos. Apesar disso, os clássicos nessa época costumavam ser parelhos, limitados a um ou dois gols a cada lado. E a virada para os anos 1980 se combinou também com o fim do jejum atleticano.

A nova década não rendeu títulos para o Atlético de imediato, com o time brigando até mesmo contra o rebaixamento, mas a mudança de sorte no Atletiba foi marcante. De julho de 1980 a julho de 1983, os rubro-negros é que emendaram uma sequência de dez duelos invictos contra os coxas-brancas. Período em que o timaço de Washington, Assis, Nivaldo e outros tantos destaques começava a despontar, e o Coritiba permanecia adormecido até se levantar com o seu grande feito nacional.

O Furacão que devastou o Paraná

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A partir de 1982, o Atlético Paranaense recuperou os títulos que não vencia há mais de uma década. A chegada de Washington e Assis, dupla de atacantes do Internacional, acabou sendo decisiva para a guinada dos rubro-negros naquele ano. A campanha no Paranaense foi irretocável, liderando os três turnos e eliminando as chances de realização de um quadrangular decisivo. Um time que chegou a acumular 26 partidas sem perder, enquanto também registrou o melhor ataque e a defesa menos vazada da competição. O goleiro Roberto Costa se consagrou na campanha, assim como Washington, responsável pelos dois gols na marcante vitória por 2 a 0 sobre o Coritiba no segundo turno.

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A excelente fase do Furacão se refletiu no Campeonato Brasileiro do ano seguinte. Por mais que não tenha liderado os seus grupos nas três primeiras etapas do torneio, o time manteve o ritmo na classificação. E teve o seu grande feito ao eliminar o São Paulo nas quartas de final. Parou apenas no Flamengo de Zico na semifinal, embora por pouco não tenha interrompido a trajetória do terceiro título nacional dos cariocas. A história tinha sido feita especialmente no triunfo por 2 a 0 em Curitiba, até hoje ainda o maior público do Couto Pereira. Um sucesso que desmanchou o time, mas não tirou os atleticanos do topo.

O desempenho no Campeonato Paranaense de 1983 não foi tão imponente, com duas derrotas no Atletiba das primeiras fases. Contudo, o Coritiba não conseguir mostrar o mesmo poder quando os confrontos valiam a taça. Nos duelos em uma final bastante tensa, uma vitória do Furacão por 1 a 0 e o empate consagrador por 1 a 1. Mesmo com Washington e Assis no Fluminense, Roberto Costa no Vasco e quase todos os titulares fora da Baixada, os atleticanos buscaram o inédito bicampeonato estadual, uma sequência que não haviam provado nos 11 títulos anteriores.

O Coxa que chegou ao topo do Brasil

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O Atlético, todavia, não conseguiu se segurar por mais um ano no topo, com o estadual de 1984 conquistado pelo Pinheiros. Outra vez vice, o Coritiba só responderia a altura no Brasileiro de 1985. Uma campanha bastante surpreendente, de um elenco que possuía seus predicados e venceu no momento certo. Embora tenha feito apenas a sétima campanha entre os dez participantes do Grupo A na primeira fase, o Coritiba avançou porque foi o melhor do segundo turno. E o embalo daquela sequência se manteve nas partidas mais decisivas.

Como já tinha encarado seis dos “12 grandes” na primeira fase, o Coritiba escapou de camisas mais pesadas na segunda etapa do torneio. Seguiu o embalo e liderou sua chave, passando para as semifinais. Pegou o Atlético Mineiro, de bom desempenho até então, mas soube segurar o resultado. Para também superar o Bangu, com o direito de decidir em casa, dentro do Maracanã. O time de Rafael, Lela, Índio e Tóbi entrava para a história, em mais um grande feito do magistral Ênio Andrade no comando. Depois de seis anos em jejum, os alviverdes voltavam a levantar uma taça, e uma que os rivais ainda não tinham.

O Atlético pelo menos teve a sua consolação no Paranaense de 1985, com a terceira conquista em quatro anos. O troféu veio sem a necessidade de final, com os rubro-negros o garantindo por antecipação ao liderarem os dois turnos do estadual. No jogo decisivo, vitória por 3 a 0 sobre o Londrina do goleiro Zetti, enquanto o Furacão tinha vencido três e perdido apenas um dos quatro clássicos disputados naquela campanha.

Amistoso entre rivais não existe

O ano de títulos para Atlético e Coritiba foi encerrado com um amistoso que, em teoria, deveria ser festivo. As duas equipes entraram em campo no Couto Pereira para um jogo de entrega de faixas. No entanto, além do sucesso que aumentava a rivalidade, o histórico recente do dérbi não era dos melhores, com um jogo em 1984 encerrado precocemente, quando os rubro-negros deixaram o campo ao discordarem de uma decisão do árbitro. A deixa para a confusão naquele reencontro de novembro de 1985.

Em jogo sob forte chuva, o Furacão abriu o placar no final do primeiro tempo, com Nivaldo. Entretanto, o lance polêmico gerou muitas reclamações dos alviverdes, apontando o impedimento do adversário. Em meio ao bate-boca, o árbitro expulsou Edson e Gomes. Então, com nove homens em campo e a desvantagem no placar, vários jogadores do Coxa preferiram simular contusões. O jogo sequer chegou ao final. Um dos que caíram em campo, o goleiro Rafael acabou suspenso por 180 dias e perdeu a convocação para a Copa de 1986.

Sem vingar na Libertadores de 1986, atrás do Barcelona de Guayaquil em sua chave, o Coritiba ao menos deu sua resposta ao Atlético no Campeonato Paranaense. Com os rivais em péssima campanha, o Coxa superou Pinheiros, Londrina e Cascavel no quadrangular decisivo. Era o fim dos sete anos sem a taça estadual. Também um marco para o adeus de um grande time e o início da grave crise enfrentada pelos alviverdes. De 1987 e 2002, foram apenas dois títulos paranaenses.

O Atlético, embora já tivesse se distanciado de seu momento áureo, conseguiu se reerguer mais rapidamente. Após a hegemonia estabelecida pelo Paraná nos anos 1990, o retorno do Furacão à Baixada e as grandes campanhas no Brasileiro recuperaram o prestígio dos rubro-negros. Após o quase em 1996, o título do Brasileiro de 2001 era o troco ao Coritiba em nível nacional. E os alviverdes também conseguiram recuperar parte de suas forças depois disso, com sete estaduais na última década e boas campanhas na Série A. De qualquer forma, o Atletiba nunca esteve próximo de contar com um momento de tanto prestígio de ambos os lados. Brilho que acabou limitado aqueles dois grandes times dos anos 1980.

Os títulos da dupla entre 1982-86

Atlético Paranaense: Campeonato Paranaense 1982, 1983, 1985
Coritiba: Campeonato Brasileiro 1985; Campeonato Paranaense 1986

O grande momento do Atlético Paranaense

Três títulos paranaenses em quatro anos. Mesmo assim, a relevância da campanha no Brasileiro de 1983 é bem maior para o Furacão. A melhor campanha do clube no torneio até o título de 2001 e, para muitos torcedores, com um time ainda mais inesquecível do que aquele vencedor. Na trajetória rumo ao topo da tabela, o Atlético eliminou o São Paulo nas quartas de final com duas vitórias, incluindo dentro do Morumbi lotado. Já nas semifinais, apesar da derrota por 3 a 0 para o Flamengo de Zico no Maracanã, o Furacão quase protagonizou a virada com os 2 a 0 no Couto Pereira, naquela que é considerada uma das vitórias mais emblemáticas da história do clube.

O grande momento do Coritiba

O título do Brasileirão é único para o Coritiba, e talvez não se repita tão cedo. A campanha na fase de classificação foi salva pelo excelente segundo turno, quando os alviverdes terminaram na liderança de uma chave cheia de gigantes. Já na segunda etapa, a vaga nas semifinais acabou assegurada sobre Corinthians, Sport e Joinville. Após passar pelo Atlético Mineiro, o Coxa se coroou no Maracanã lotado contra o Bangu. O empate por 1 a 1 levou a decisão para os pênaltis, com o triunfo por 6 a 5 rendendo a histórica conquista.

O craque atleticano

Diante da história que escreveram juntos, fica difícil dissociar o sucesso de Washington e Assis, trazidos juntos do Internacional e vendidos posteriormente ao Fluminense. A perfeita parceira entre o centroavante goleador e o atacante habilidoso, que se eternizou como uma marca e rendeu um título paranaense ao Furacão. Washington se tornou o artilheiro do time nas grandes campanhas, combinando faro de gol e técnica. Já Assis brilhou especialmente na eliminação do São Paulo do Brasileiro de 1983 e foi ausência sentida no jogo de volta contra o Flamengo na semifinal, quando os atleticanos venceram por 2 a 0 e acabaram eliminados.

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O craque coxa-branca

Se o título de 1985 é o mais simbólico do Coritiba, não há como ignorar a importância que Rafael Cammarota teve naquela conquista. O camisa 1 veio justamente do Atlético, em uma transferência controversa, após fazer parte dos sucessos iniciais nos anos 1980. No entanto, foi com a camisa alviverde que realmente se consagrou, eleito o melhor goleiro do Brasileirão de 1985 e chegando à seleção brasileira no período. Acabou canonizado como São Rafael pela torcida, brilhando especialmente nos duelos contra Atlético Mineiro e Bangu na reta final daquela campanha.

O carrasco atleticano

Joel pode não ser o nome mais lembrado entre os nomes do Furacão. No entanto, o atacante tinha um apreço especial por marcar gols nos clássicos. Reserva de Washington, o jovem ganhou espaço após a venda do centroavante ao Fluminense e se consagrou no Paranaense de 1983. Anotou os dois gols na decisão contra o Coxa, que garantiram o bicampeonato atleticano e acabou eleito o melhor jogador daquela competição. As lesões, entretanto, encurtaram seu sucesso com a camisa rubro-negra.

O carrasco coxa-branca

Peça importante em parte do hexacampeonato estadual do Coritiba na década de 1970, Aladim retornou ao clube já veterano, em 1983, pronto para encerrar a carreira. E o ponta esquerda seguiu brilhando nos clássicos contra o Atlético, contra o qual anotou seis gols ao longo de suas passagens pelo clube. Um dos momentos mais célebres aconteceu em julho de 1983, aos 36 anos, quando marcou um dos gols na vitória por 2 a 0 – em uma linda cobrança de falta para vencer Roberto Costa, que acabara de ganhar a Bola de Ouro de melhor jogador do Brasileirão, e levar a torcida alviverde ao delírio.

Os números de 1982-86

12 vitórias do Atlético
7 empates
6 vitórias do Coritiba