Camarões surgiu para as Copas do Mundo em 1982. Os Leões Indomáveis eram os símbolos de um continente que parecia pronto para desafiar América do Sul e Europa em um futuro não muito distante do torneio. E os camaroneses fizeram um ótimo papel, a única equipe da história do continente a não sofrer nenhuma derrota na campanha: empates contra Peru, Polônia e Itália. A classificação só não veio por causa dos gols marcados, um a menos que a Azzurra, que partiria da vaga suada ao tricampeonato mundial. Oito anos depois, Camarões reforçou ainda mais sua ideia ao espantar na Copa de 1990, vencendo a Argentina na estreia e vendendo caro a eliminação para a Inglaterra nas quartas. Era o futuro, diziam.

Camarões 0×4 Croácia: Saldo vale pouco agora, mas croatas pegam moral

Esse futuro, o atual presente, não passou nem perto do que muitos esperavam. O “futebol ingênuo e alegre” dos camaroneses se transformou em um futebol duro e por muitas vezes até maldoso. A força física passou a prevalecer muito mais, ainda que alguns talentos existissem. Depois de cair cedo nas Copas de 1998 e 2002, de segurar a lanterna em 2010, Camarões deu vexame na Copa de 2014 ao seu mostrar um adversário tão vulnerável.

A magia que envolvia aqueles times do passado se perdeu. O estilo de jogo mudou sensivelmente. Não só pelos jogadores disponíveis, mas pela forma como os camaroneses começaram a se portar em campo. Tornaram-se mais Leões e menos Indomáveis. A composição de um time mais forte fisicamente passou a ser mais importante do que a liberdade e a velocidade. Mesmo Samuel Eto’o, o maior talento da história do país, era mais exigido por sua potência física do que propriamente pela habilidade que sempre teve.

O resumo disso é a equipe deste Mundial. Sobra força, falta leveza. Por mais que muitos jogadores não sejam tecnicamente tão bons, daria para montar uma equipe que se baseasse menos na potência física de seus jogadores. Afinal, perde-se a capacidade de praticar qualquer futebol minimamente envolvente quando a única solução é o chutão. Sem saber trabalhar a bola, os Leões foram presas fáceis para a Croácia, que dominou o meio-campo e explorou à vontade os rombos defensivos dos camaroneses.

Ainda dá para recuperar a magia de 1982 e 1990, sonhar com algo além das quartas de final? Sim, mas não basta só dar um jeito de jogar da seleção principal. É algo de mentalidade. E que não passa somente por Camarões, mas que é sintomático em várias outras seleções africanas. A própria formação, a ânsia das escolinhas de formação em atender as necessidades dos clubes europeus, com potência física desde cedo, engessou o futebol do continente. E não há exemplo maior do que essa transformação dos Leões Indomáveis.