Bob Paisley estava no fim da sua segunda temporada como técnico do Liverpool e ainda desvendava os segredos da nova profissão. Havia vários desafios: a sombra de Bill Shankly, o relacionamento com jogadores que começavam a adquirir o status de super-estrelas – o que era particularmente difícil para ele, um homem ainda quieto e tímido – e, claro, o time, os adversários e os campeonatos.  Esse último aspecto corria bem. Os Reds haviam sido campeões ingleses e da Copa da Uefa em 1975/76. Mas foi ainda na Bélgica, onde venceram o Clube Brugge para levantar o segundo troféu internacional da história do clube, que veio a bomba: Kevin Keegan queria ir embora.

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Keegan era um desses protótipos do jogador midiático que domina o futebol hoje em dia. Gostava da imprensa e a imprensa gostava dele. Participava de peças publicitárias, chegou a gravar um disco com uma banda local, fazia viagens promocionais e era mais famoso que a média. Representava um desvio da moderada sobriedade pela qual o futebol inglês passava desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ficou deslumbrado com as viagens durante aquela Copa da Uefa, principalmente com o Camp Nou. Falava abertamente do desejo de jogar na Espanha. Era também o momento em que grandes estrelas começavam a ganhar salários vultuosos, e Keegan sofria com uma taxação de quase 82% na Inglaterra e o declínio da libra.

Keegan queria alçar voos mais altos e deixou clara a sua intenção ao técnico. Paisley recorreu à diretoria para tentar achar uma solução: o atacante ficaria mais um ano no Liverpool, que facilitaria a sua saída para o clube que ele escolhesse. Acabou sendo a decisão correta porque a temporada seguinte foi ainda melhor que a anterior. Apenas pela segunda vez os Reds defenderam o título inglês – a outra havia sido em 1921-1923 -, a equipe disputou a final da Copa da Inglaterra, derrotada pelo Manchester United, e conquistou a sua primeira Copa dos Campeões, com grande contribuição da sua principal estrela.

Na hora de sair, a manada de interessados pelo futebol de Keegan não se materializou. Especulava-se transferências para o Bayern de Munique e o Real Madrid, mas nada houve de concreto. E quando Keegan começava a ficar preocupado com a vergonha que seria dizer aos quatro cantos do mundo que queria ir embora apenas para descobrir que não havia lugar para ir, o Hamburgo apareceu com £ 500 mil, e o principal atacante do Liverpool seguiu para a Alemanha, deixando Paisley com a seguinte questão: quem poderá substituí-lo?

Paisley sabia a quem recorrer. A Escócia sempre foi pródiga em fornecer talento para o Liverpool, desde o herói pós-guerra Billy Liddell. De lá, vieram Bill Shankly, Ian St. John e Ron Yates, três peças essenciais na reconstrução do clube. Mais ou menos na mesma época da saída de Keegan, Alan Hansen havia sido contratado do Partick Thistle para jogar 14 anos com a camisa vermelha. Mais tarde, viria também Graeme Souness. E na Escócia havia um atacante talentoso chamado Kenny Dalglish, que comia a bola pelo Celtic há quase dez anos.

A operação por Dalglish não era o garimpo de talento que o Liverpool havia se especializado em fazer naquela época. Todos sabiam quem ele era, todos os clubes com recursos queriam contratá-lo. O Celtic, porém, não queria vendê-lo de maneira alguma. Jock Stein não queria perder o artilheiro de quatro de suas últimas seis temporadas. O clube escocês passou duas semanas rechaçando as abordagens do Liverpool. E foi em uma partida de críquete, segundo o livro Quiet Genius: Bob Paisley, British Football’s Greatest Manager, que o secretário-executivo dos ingleses, Peter Robinson, recebeu a dica de um jornalista de que o Celtic estaria finalmente disposto a vender o seu principal jogador.

Robinson ligou para o clube escocês e confirmou a informação. Entrou imediatamente em contato com Bob Paisley e foi armado um esquema secreto para despistar os concorrentes. Os jornalistas já conheciam a maneira de trabalhar do Liverpool. Quando ligavam para Anfield e não conseguiam encontrar nem Paisley e nem Robinson, sabiam que alguma negociação estava em andamento. Por isso, Robinson ficou na Inglaterra, e Paisley seguiu com o presidente John Smith para a Escócia. A dupla se hospedou em um hotel com nomes falsos, e o técnico encontrou-se com Stein, depois de uma partida contra o Dumfermline, entrando no Celtic pela porta dos fundos. Com as £ 500 mil da venda de Keegan no bolso, chegaram a um acordo de £ 440 mil por Dalglish, recorde de transferências britânico da época.

Stein havia se resignado a perder a sua principal estrela para não contrariar o desejo do jogador. “Se Kenny quisesse ter ficado no Celtic Park, eu teria recusado qualquer valor oferecido por ele. Agora, onde eu encontro outro jogador como Dalglish?”, afirmou, segundo o Liverpool Echo. “Esta realmente era a proposta que eu não poderia recusar”, explicou Dalglish. “Não tinha como recusar uma proposta tão fabulosa, por mais que eu esteja triste de deixar o Celtic. Mas estou feliz por estar indo para um clube tão grande quanto o Liverpool”.

E foi assim que, em 10 de agosto de 1977, exatamente 40 anos atrás, o Liverpool recebeu a assinatura de Kenny Dalglish, que seria jogador e técnico do clube, que marcaria 172 gols em 515 partidas e conquistaria 19 títulos, uma lenda do primeiro patamar dos Reds e um dos melhores jogadores a vestir a camisa vermelha.