As quartas de final da Copa do Mundo reúnem times que, de uma forma ou de outra, possuem sua tradição na competição. Os ex-campeões podem ter minguado na fase atual, mas todos os presentes têm ao menos uma semifinal no currículo, assim como 41 aparições como quadrifinalistas. E todos também têm o seu histórico entre si. Mesmo que seja como Iugoslávia e União Soviética, nenhum dos embates das quartas de final de 2018 será inédito nos Mundiais. Assim, aproveitamos a deixa para recontar essas histórias.

Uruguai x França

São três encontros em Copas do Mundo, sempre na fase de grupos. O único com vencedor foi justamente o primeiro, em 1966. Uruguaios e franceses estavam na mesma chave da anfitriã Inglaterra e se encontraram pela segunda rodada, já decisiva para determinar a classificação. O jogo aconteceu no White City Stadium, histórico palco dos Jogos Olímpicos de 1908, por um motivo bastante curioso: Wembley, sede daquela chave, receberia uma corrida de cães no mesmo dia. No único embate do Mundial realizado naquele campo, a Celeste venceu por 2 a 1, de virada, com gols de Pedro Rocha e Julio César Cortés. Os charruas avançariam às quartas de final, ao lado dos ingleses.

O reencontro aconteceu em 2002, também pela segunda rodada. O empate por 0 a 0 fez com que as duas equipes acabassem morrendo abraçadas no Grupo A, abaixo de Senegal e Dinamarca. O jogo em Busan ficou marcado pela expulsão de Thierry Henry aos 25 minutos do primeiro tempo, após uma entrada violenta em Marcelo Romero. Apesar da desvantagem numérica, os franceses criaram boas chances, incluindo uma bola na trave de Emmanuel Petit antes do intervalo. Já na segunda etapa, Fabien Barthez e Fabián Carini fizeram boas defesas para manter o placar inalterado, em melancolia dupla consumada na rodada final.

Já em 2010, França e Uruguai iniciaram suas empreitadas na África do Sul se enfrentando. Um jogo de camisas pesadas, mas também entre times que carregavam suas desconfianças – entre a bagunça na preparação francesa, com vários problemas internos, e as campanhas modestas dos uruguaios nas aparições anteriores da Copa, com frequentes ausências. De novo, os goleiros fariam grandes defesas, com Hugo Lloris e Fernando Muslera segurando o 0 a 0. De novo, haveria uma expulsão, de Nicolás Lodeiro. Contudo, os pontos perdidos foram bem mais custosos aos Bleus, sem vencer naquele Mundial. Já os uruguaios ganhariam os dois jogos seguintes e passariam em primeiro na chave, algo fundamental para a campanha histórica até as semifinais.

Brasil x Bélgica

O único Brasil x Bélgica da história das Copas está fresco na memória de muita gente, com o embate nas oitavas de final do Mundial de 2002. Foi um dos jogos mais difíceis encarados pelo time de Felipão. E também um dos mais polêmicos. Quando o placar estava zerado, durante o final do primeiro tempo, o árbitro anulou um gol de Marc Wilmots, por falta que até hoje os Diabos Vermelhos reclamam – e que, de fato, apenas o jamaicano Peter Prendergast viu. Além disso, os europeus marcavam muito bem, dificultando a saída de bola dos brasileiros, e deram trabalho a Marcos, em uma das atuações mais inspiradas do goleiro no Mundial.

Durante o segundo tempo, coube a Rivaldo chamar a responsabilidade. O camisa 10 fazia de tudo um pouco naquela partida, buscando o jogo e distribuindo. Não demorou tanto para que resolvesse, com um belo gol. Dominou o passe de Ronaldinho Gaúcho com o peito, ajeitou com o bico da chuteira e, virando o corpo, soltou a bomba de canhota. Abriu o placar aos 22 do segundo tempo. Já aos 42, coube a Ronaldo fechar a vitória em 2 a 0, aproveitando boa jogada de Kleberson – que, ainda reserva, ganharia a titularidade para o compromisso seguinte.

Rússia x Croácia

O passado mundialista entre russos e croatas se restringe a outros tempos. O único embate aconteceu em 1962, quando as duas nações faziam parte de outros estados. União Soviética e Iugoslávia carregavam certa rivalidade desde a década anterior. Os soviéticos ganharam o ouro olímpico em 1956 em cima dos iugoslavos, em equipes que, diante do caráter amador do futebol nos países comunistas, contava com os principais jogadores locais – a exemplo de Lev Yashin e Dragoslav Sekularac. Quatro anos depois, os velhos conhecidos voltaram a se encontrar na decisão da Euro 1960. Mais uma vez, a URSS se deu melhor, com Viktor Ponedelnik definindo a vitória por 2 a 1 na prorrogação, dentro do Parc des Princes. E a freguesia se ampliou na Copa de 1962, na rodada de abertura do Grupo 1, o mesmo de Uruguai e Colombia.

A Iugoslávia contava com uma equipe forte e sete croatas no elenco, entre eles alguns destaques, como os atacantes Josip Skoblar e Drazan Jerkovic. Já a União Soviética concentrava suas forças entre os russos, com a base do elenco formada por jogadores nascidos e em atividade na região de Moscou. Dos 22 convocados, 14 atuavam pelos clubes moscovitas, com destaque a Yashin e ao capitão Igor Netto. Quando a bola rolou, melhor para os soviéticos, que venceram por 2 a 0, gols de Valentin Ivanov e do carrasco Ponedelnik. Apesar da derrota na estreia, os iugoslavos se recuperariam e se classificariam junto aos soviéticos. E tiveram vida mais longa na competição, alcançando as semifinais ao superarem a Alemanha Ocidental, enquanto a URSS parou ante o Chile nas quartas.

Suécia x Inglaterra

Os encontros entre Suécia e Inglaterra em Mundiais são relativamente recentes, embora as duas seleções se enfrentem em amistosos há 95 anos. O primeiro duelo por Copas do Mundo aconteceu na fase de grupos de 2002, numa chave bastante complicada. E o confronto na estreia servia para colocar pressão, pensando que os europeus ainda teriam Argentina e Nigéria pelo caminho. Em Saitama, as equipes não passaram do empate, por 1 a 1. Sol Campbell abriu o placar, aproveitando um escanteio cobrado por David Beckham. Já no segundo tempo, a Suécia deu o troco. A defesa inglesa bobeou e Niclas Alexandersson ficou com o caminho livre para soltar a bomba, que David Seaman aceitou. Ao final da primeira fase, o resultado se mostraria proveitoso a ambos. Os dois países asseguraram a classificação aos mata-matas, com cinco pontos cada.

Quatro anos depois, suecos e ingleses se reencontraram pelo Grupo B do Mundial. Suaram bastante para superar Paraguai e Trinidad & Tobago nas rodadas anteriores, mas chegavam ao compromisso derradeiro com a classificação nas mãos. O embate valia para saber quem ficaria com a liderança e escaparia da Alemanha nas oitavas. Melhor para a Inglaterra, que havia vencido os dois primeiros jogos e se beneficiou com o empate por 2 a 2, em noite movimentada em Colônia. Os Three Lions pressionavam quando Joe Cole abriu o placar, anotando um dos gols mais bonitos daquela Copa. Matou no peito e, sem deixar a bola cair, acertou um chutaço na gaveta. O empate sueco veio em cabeçada de Marcus Allbäck na segunda etapa e os escandinavos poderiam ter virado, com duas bolas na trave. Já depois dos 40, mais dois tentos. Primeiro, Steven Gerrard retomou a vantagem em cabeçada certeira. Por fim, Henrik Larsson apareceu em meio à confusão na área para dar números finais à peleja.