A rivalidade de Milão nasceu das entranhas de seus grandes clubes. A insatisfação com os privilégios dados aos membros italianos no Milan motivou a criação da Internazionale. E as diferenças entre rossoneri e nerazzurri fizeram com que o dérbi já nascesse acirrado em 1908. Uma briga fraternal que chegará ao seu 280º episódio neste domingo. E que, ao contrário do que a história possa sugerir, não é feito só de ódio.

Durante 900 minutos, os dois gigantes milaneses já foram um só. Foram 10 jogos disputados pelo MilanInter, uma fusão entre milanistas e interistas para ocasiões especiais. E, se separada, a dupla soma dez títulos de Liga dos Campeões e 36 da Serie A, ela não teve bons resultados quando entrou em campo: foram apenas três vitórias, três empates e quatro derrotas, segundo dados oficiais de historiadores ligados ao Milan.

As dez partidas do InterMilan

Embora nos anos anteriores um time da cidade de Milão tenha sido montado com jogadores dos dois lados, a união entre Milan e Inter se concretizou pela primeira vez em 1949, ano em que os rossoneri completavam seu cinquentenário. E a ideia foi comemorar a data se juntando ao time que originou. O MilanInter perdeu para o Austria Viena por 4 a 3, mesmo contando com a participação de verdadeiros mitos, como Nordahl e Nyers. Curiosamente, dez dias depois daquele jogo, os rivais duelavam pela Serie A. E, talvez ainda influenciados pelas festividades, fizeram o maior placar da história do clássico: 6 a 5 para os nerazzurri.

A união se repetiu algumas outras vezes durante a década de 1950, com empates ante River Plate e Flamengo, além de uma vitória sobre o AIK. Já em 1965, outro momento célebre, em um dos períodos de maior rivalidade. A Internazionale era bicampeã europeia, sob as ordens de Helenio Herrera. Já o Milan tinha sido o campeão continental anterior, na época já comandado por Nils Liedholm. Com a Cruz de São Jorge, símbolo da cidade de Milão (veja foto acima), o esquadrão que contava com Luisito Suárez e Giovanni Trapattoni venceu o Chelsea por 2 a 1. E o personagem acabou sendo Antonio Angelilo, antigo ídolo da Inter que defendia o Milan na época.

A ideia deu tão certo na época que voltou a ser repetida em 1968 e 1969, com vitórias sobre a seleção italiana militar e sobre o Lyon. Neste segundo jogo, o Milan mandou a campo a nata do time campeão europeu, enquanto a Internazionale cedeu reservas por causa de outros compromissos. Quem brilhou na goleada por 7 a 1 foi o craque Gianni Rivera, que na época disputava posição na Azzurra com Sandro Mazzola, ídolo da Inter. Na Copa de 1970, no entanto, o titular foi o nerazzurro.

MilanInterUnited1980

O time de 1980, com os irmãos Baresi

Já em 1980, os rivais se solidarizaram após o terremoto na região de Irpinia, deixou cerca de 3 mil mortos e 10 mil feridos no sul da Itália. Os milaneses encararam o Bayern de Munique, que tinha em campo Paul Breitner e Karl-Heinz Rummenigge. Acabaram perdendo por 2 a 1, mesmo com os irmãos Franco e Giuseppe Baresi formando dupla de xerifes. O problema é que a rivalidade aflorou mais do que a irmandade desta vez. Diante da troca de insultos entre os torcedores, até mesmo o locutor do estádio precisou intervir para tentar acalmar os ânimos. O fim da história se deu dois anos depois, com derrotas do MilanInter em amistosos preparatórios de Peru e Polônia para a Copa do Mundo.

Atualmente, a fusão dos dois times parece impensável, ainda mais com episódios de violência e discriminação sendo tão comuns. Neste domingo, as autoridades italianas impediram até mesmo a realização de mosaicos nas arquibancadas do Milan, que jogará como visitante. Em solidariedade, os torcedores da Inter também não apresentarão suas coreografias. Um apoio  que talvez possa inspirar novos momentos fraternais como os que fizeram parte do passado.

milan inter

À esquerda, o uniforme usado em 1949; à direita, o de 1965