O Paris Saint-Germain faz um começo irrepreensível de temporada, melhor do que todas as notas de euros gastas na última janela de transferências poderiam imaginar: seis vitórias em seis rodadas do Campeonato Francês, com 23 gols marcados e apenas três sofridos, e, de bônus, uma goleada por 5 a 0 sobre o Celtic, na Champions League. Apesar do desempenho perfeito da equipe até aqui, há algo de podre no reino do Catar.

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Na vitória do Paris Saint-Germain sobre o Lyon, por 2 a 0, no último domingo, Neymar se envolveu duas vezes com Cavani. Daniel Alves tirou a bola de perto do uruguaio para que ele batesse uma falta, e o próprio tentou assumir uma cobrança de pênalti que o companheiro estava prestes a executar – e desperdiçar. Com o auxílio do seu principal parça e, aparentemente, guarda-costas, Neymar merecia um Emmy pelo seu papel em uma encenação fiel e extraordinariamente didática de alguém que pega o bonde andando e tenta sentar na janelinha.

Está claro que o brasileiro foi contratado para ser o líder do Paris Saint-Germain. A badalação e os números em torno da sua transferência são suficientes para dissipar qualquer dúvida. O que ninguém parece ter lhe dito, se essa for realmente uma aspiração sua, é que a verdadeira liderança não pode ser imposta, comprada ou conquistada no braço. O mais irônico é que, no futebol, o caminho mais rápido para construí-la é sacrificando objetivos pessoais em nome do grupo, e não marcando 50 gols por temporada.

Porque, por mais que esteja difícil de notar hoje em dia, futebol é um esporte coletivo. Neymar não atua sozinho no Paris Saint-Germain. Recebe passes de outros jogadores para fazer gols e precisa que seus companheiros completem os seus para que eles virem números na coluna de assistências. O jovem Mbappé, de 18 anos, já admira Neymar pelo que ele pode fazer com a bola, mas, como voz no vestiário, ele o respeitaria muito mais se o visse agindo como alguém que coloca as necessidades do elenco à frente das suas.

Neymar parece ter uma dificuldade crônica para perceber isso. Na seleção brasileira, não são raros os jogos em que ele esquece que seu time é composto por mais dez pessoas e busca resolver sozinho, tentando enfileirar todos os marcadores e finalizar todas as jogadas. O limite foi quando se começou a discutir que talvez não fosse legal que ele jogasse ao lado de um dos melhores jogadores de todos os tempos, como se por algum motivo fosse ruim estar debaixo da sombra de alguém como Lionel Messi – o que, para ser justo, Neymar nunca admitiu publicamente como o motivo para sua saída do Barcelona. Mas melhor para quem? O ponto aqui é também a disputa entre os objetivos individuais e coletivos: essa avaliação pode ser precisa para a busca de uma Bola de Ouro ou de glórias pessoais; para as ambições de um time, qualquer time, é claro que a parceria entre dois jogadores tão talentosos é muito melhor.

Vocês se lembra da declaração de René Simões? O “estamos criando um monstro” foi dito depois de uma vitória do Santos por 4 a 2 sobre o Atlético Goianiense, quando Neymar fez bico porque o então técnico santista Dorival Júnior não o havia permitido… cobrar um pênalti. O atacante brasileiro chegou a dizer que esse episódio foi o “pior momento da sua carreira”, mas, considerando os eventos do último domingo, o quanto ele realmente amadureceu em sete anos?

Convenhamos, também, que o motivo dessas confusões é ridículo. A única relevância por trás do responsável por uma cobrança de pênalti é sua capacidade de convertê-la em gol, o que Cavani faz muito bem, diga-se: apenas três errados e 17 certos, com a camisa do Paris Saint-Germain, segundo dados do Transfermarkt. Neymar, pelo Barcelona, desperdiçou seis e marcou 12, um índice de aproveitamento muito mais baixo.

Mas Cavani está certo em não abrir mão do papel de cobrador de pênaltis oficial da equipe, se é algo que ele deseja e valoriza. Ralou muito deslocado para os lados do campo para dar lugar a Ibrahimovic esperando o momento em que assumiria mais protagonismo e retornaria ao comando de ataque. Quando fez isso, na temporada passada, um ano complicado de transição, marcou 49 vezes em 50 partidas. Tem mais de 200 jogos pelos parisienses. Sob o seu ponto de vista, o que esse tal de Neymar fez até agora pelo PSG para achar que tem o direito de passar por cima dele, que derruba suor pelo clube há quatro anos?

Unai Emery precisa intervir para não permitir que essa mesquinharia atrapalhe a trajetória da sua equipe, cujo início dá indícios de que pode alcançar grandes feitos. Sua declaração pós-jogo não foi das melhores: “Eu disse para eles resolverem entre eles. Acho que são capazes de fazer isso e os dois serão nossos cobradores. Se não conseguirem chegar a um acordo, vou decidir por eles”.

Emery falou mais como o pai de duas crianças birrentas do que como treinador de um grande clube de futebol, o que pode até ser uma reação apropriada, uma vez que vira e mexe nos vemos presos à narrativa da criança que só quer jogar bola com ousadia e alegria. Mas isso não é verdade: o “menino” Neymar tem 25 anos, ganha um salário astronômico e é o rosto de uma empresa que movimenta mais alguns milhões com ações de marketing. É um homem adulto, e são homens adultos que lideram equipes ao título da Champions League, não meninos. Grandes poderes trazem grandes responsabilidades, e quanto mais rápido ele começar a assumi-las, melhor para ele.