A primeira rodada da Copa do Mundo acabou e um dos pontos que chamou a atenção foi o uso do VAR, o Video Assistant Referee. A primeira coisa é que muitas vezes traduzimos isso de forma incorreta e isso tem gerado algumas dúvidas. Dizer que o VAR é um árbitro de vídeo não é preciso; na verdade, é um assistente. Isso é importante porque o árbitro continua sendo a principal autoridade e quem, em última análise, decidirá. E com tudo que aconteceu no campo, como dá para avaliar o uso do VAR nesta primeira rodada da Copa?

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A intervenção do VAR foi bastante intensa nesta primeira rodada da Copa. Isso tem uma relação direta com o aumento do número de pênaltis marcados. Só nesta primeira rodada foram nove pênaltis marcados (sem contar o 10º, marcado na abertura da segunda rodada, para o Egito contra a Rússia), um número que chama muito a atenção. Com nove pênaltis em 16 jogos da primeira rodada, a média é superior a uma a cada dois jogos. Em 2014, para chegar ao mesmo número de pênaltis marcados, nove, foram necessários 25 jogos.

Na primeira rodada de 2014, foram atribuídos seis pênaltis. Nesta edição de 2018, dos nove pênaltis, quatro deles foram resultado direto do uso do VAR. Isso significa que sem o VAR, provavelmente teríamos cinco pênaltis marcados, um a menos que a Copa anterior, uma mudança pouco significativa. Com o VAR, o aumento do número de pênaltis já é considerável: de seis para nove. E se considerarmos que são apenas 16 jogos, a proporção é realmente alta. Um jogo sim outro não, basicamente, temos um pênalti.

Em parte, isso se deve ao período de adaptação dos jogadores e até dos árbitros em relação ao VAR. Por outro lado, muitos dos pênaltis assinalados em função do VAR levantaram outra questão: a reavaliação de lances interpretativos. Os pênaltis dados à França contra a Austrália, à Austrália contra a França, ao Peru contra a Dinamarca e à Suécia contra a Coreia do Sul foram considerados legais até que houvesse a indicação de revisão.

O protocolo

Para entender o VAR, é preciso primeiro lembrar em que situações ele pode ser usado. São quatro as situações passíveis de revisão: 1) Gols; 2) Pênaltis; 3) Cartões vermelhos; 4) Identidade trocada. Impedimento, por exemplo, só é avaliado se ele resultar em um gol. Até por isso, os assistentes foram orientados a só marcarem os impedimentos claros, de forma a não impedir um lance em posição legal de acontecer por um erro de arbitragem. Se houver o impedimento, o VAR informa ao árbitro, que anula o lance. A própria Fifa divulgou um vídeo antes da Copa explicando o VAR.

Em tese, a comunicação só acontece em caso de erros claros e óbvios, o que pode ser um lance visto pelo árbitro ou algo que fugiu à sua visão (como, por exemplo, a cabeçada de Zinedine Zidane na final da Copa do Mundo de 2006). Isso, é claro, é teoria. O que vimos na Copa foi o VAR chamando o árbitro depois de lances interpretativos de pênaltis – que estão dentro do protocolo – e isso gerou alguma controvérsia. Todos os quatro pênaltis concedidos após revisão indicada pelo VAR aconteceram depois que o árbitro decidiu ele mesmo ir até a tela, rever o lance e marcar o pênalti.

Há muitas teorias em relação a isso. O árbitro, se tiver dúvida, marca ou não marca o pênalti? Com o VAR, é possível que ele não marque e espere para ver se os assistentes de vídeo irão alertá-lo. É possível que isso tenha acontecido, mas não temos como saber. O que se sabe é que os lances são controversos, assim como aqueles que não mudaram as decisões de campo, como, por exemplo, o lance do gol da Suíça contra o Brasil. Os brasileiros reclamaram de falta, mas a informação que se apurou é que o VAR revisou o lance e mandou seguir, não encontrando problemas.

Lances interpretativos

A questão sobre lances interpretativos recai sobre a necessidade ou não de revisão de um lance que os assistentes do VAR podem ter uma interpretação diferente do árbitro de campo. Por isso, alguns defendem que lances interpretativos não deveriam ser passíveis de revisão. Contudo, há um outro aspecto que vale o debate: é muito comum vermos um lance pela primeira vez e termos uma interpretação e logo depois de vermos o replay, mudamos de opinião. Então, será que o árbitro não poderia ter essa premissa? A discussão é válida.

O Var tem problemas que precisam ser solucionados. Um deles é a demora na marcação dos quatro pênaltis com interferência do VAR. Em todos, o árbitro deixou o jogo correr por coisa de um minuto antes de decidir revisar, pela conversa. No jogo entre Suécia e Coreia do Sul, o árbitro deixou o jogo correr por um minuto até decidir interromper o ataque sul-coreano, talvez receoso que fizessem um gol. Foi aí que revisou o lance e decidiu marcar o pênalti para a Suécia, do outro lado.

Ainda há dúvidas em relação a quando os árbitros podem – ou devem – revisar os lances. É importante deixar isso mais claro. O lance da Suíça contra o Brasil, por exemplo, teve o replay no telão. Isso é algo que a Fifa não queria que acontecesse, o que também faz sentido.

O Telegraph, jornal inglês, fez um balanço de todos os lances do VAR – ou que deveriam ter sido revisados, na visão deles. É um levantamento interessante e mostra que, na avalição deles, o balanço é mais positivo que negativo.

Ainda estamos na primeira rodada.

Pênaltis na 1ª rodada da Copa 2018:

Portugal contra Espanha (Cristiano Ronaldo)

França contra Austrália (Griezmann) – após revisão do VAR

Austrália contra França (Jedinak) – após revisão do VAR

Peru contra a Dinamarca (Cueva, perdeu) – após revisão do VAR

Argentina contra a Islândia (Messi, perdeu)

Croácia contra Nigéria (Modric)

Suécia contra Coreia do Sul (Granqvist) – após revisão do VAR

Tunísia contra Inglaterra (Sassi)

Japão contra a Colômbia (Kagawa)