A quem não conhecia o futebol de Juan Fernando Quintero, a Copa do Mundo de 2014 serviu para apresentar o prodígio. Aos 21 anos, o meia ganhou espaço nas convocações durante os meses anteriores ao Mundial e justificou a oportunidade dada por José Pekerman. Foram boas aparições com a Colômbia nos estádios brasileiros, inclusive anotando o gol da vitória sobre a Costa do Marfim. O ciclo posterior à competição, no entanto, não guardou a evolução aguardada ao jovem. Entre idas e vindas, chegou a passar três anos sem entrar em campo pela seleção, até ressurgir como opção às vésperas da Copa. E como o armador gosta do torneio… Se há quatro anos o Mundial significou o surgimento de Quintero, agora ele proporciona o renascimento. Após duas exibições de gala, o camisa 20 pode ser considerado um dos melhores jogadores do torneio até o momento.

O desaparecimento de Quintero durante os últimos quatro anos se explica bastante por sua carreira irregular em clubes. Quando disputou a Copa de 2014, o meia surgia como uma grande aposta do Porto. Formado pelo Envigado, dono de uma das melhores categorias de base da América do Sul, o garoto teve uma rápida passagem pelo Atlético Nacional, antes de chamar a atenção dos olheiros italianos. Transferiu-se ao Pescara e, em poucos meses na Serie A, seu valor de mercado se multiplicou, o suficiente para os portistas investirem €10 milhões em sua contratação. A primeira temporada no Estádio do Dragão agradou. A promessa logo acumulou suas primeiras aparições na equipe principal, com gols e assistências. Visto como herdeiro de James Rodríguez no clube, carimbou o seu passaporte à Copa de 2014 e, depois do destaque no Brasil, parecia pronto a ganhar seu espaço no Porto. Só parecia.

As últimas temporadas de Quintero são claudicantes. O meia não emplacou no Porto. Após um fraco desempenho em 2014/15, acabou emprestado ao Rennes. E também não vingou na Ligue 1, com míseras 12 partidas disputadas. O problema não era exatamente falta de futebol. O jovem costumava ser acusado pela falta de interesse, assim como pelas dificuldades para entrar na forma ideal. Se a indisciplina era um problema, voltar para casa se tornou solução. Em 2017, o armador acabou emprestado ao Independiente Medellín e experimentou sua redenção. Arrebentou no Campeonato Colombiano, além de ter feito algumas boas atuações na Libertadores 2017. Então, atraiu o interesse do River Plate, que acertou o seu empréstimo junto aos portistas.

Quintero veio no pacotão de reforços dos argentinos para 2018. Sua forma física era um entrave e também foi questionada pela torcida. Demorou um pouco até conquistar a titularidade em Núñez. Contudo, a recuperação dos millonarios após as dificuldades no início do ano passam por seus pés, ajudando o time de Marcelo Gallardo a melhorar seus resultados. A chave para viajar à Rússia. Ante a ascensão, Pekerman resolveu depositar seus créditos no pupilo.

Com Edwin Cardona sofrendo ainda mais com a indisciplina e Gio Moreno limitado no futebol chinês, Quintero voltou a ser convocado para a Data Fifa de março de 2018. Não defendia a seleção desde março de 2015, com uma mísera convocação neste intervalo. No entanto, o que mostrou nos treinamentos agradou o treinador. E seria ele o responsável por selar a histórica vitória sobre a França em Saint-Denis, com o gol de pênalti que determinou a virada por 3 a 2. Mesmo que alguns desconfiassem de sua forma, seria ele o escolhido.

O acaso ainda trabalhou a favor de Quintero para a estreia na Copa do Mundo. Sem James Rodríguez, com problemas físicos, seria ele o responsável por armar a seleção colombiana na estreia contra o Japão. A expulsão precoce de Carlos Sánchez aumentou a responsabilidade do camisa 20. E ele se saiu muito bem, carregando os Cafeteros em parte da partida. De seus lançamentos nasciam as melhores chances, acionando principalmente os pontas, Cuadrado e Izquierdo. Ao final do primeiro tempo, ainda anotou o gol de empate numa cobrança de falta cheia de categoria, por baixo da barreira. Embora fosse o melhor do time, deixou o campo no início da etapa complementar, para que James entrasse. Pekerman acabou criticado por isso.

No segundo jogo, o treinador corrigiu seu erro. Não inventou na escalação e retomou a formação que vinha atuando nos últimos meses, com alterações pontuais. A principal novidade era mesmo Quintero, reconhecimento merecido por sua estreia. O camisa 20 vinha centralizado na armação, com James aberto pela esquerda e Cuadrado na direita. O trio que acabou com a Polônia, em apresentação formidável em Kazan. A trinca teve enorme influência no domínio dos Cafeteros, que atuavam de maneira agressiva, a partir de seus defensores. De qualquer forma, era através de seus meias que os colombianos faziam os poloneses sofrerem.

James, sem mostrar qualquer limitação física, ajudou a organizar o time e deu duas assistências fabulosas. Cuadrado bagunçou a defesa adversária com seus dribles e teve a ótima partida premiada com o terceiro gol. Mas o grande maestro da Colômbia era mesmo Quintero. O armador que dava o passe de qualidade, que via o que nenhum dos adversários conseguia antever, que arriscava as jogadas e criava os espaços. Teve uma noite sensacional, que certamente deixou orgulhoso Carlos Valderrama nas arquibancadas. A maneira como atuou, aliás, lembrou os melhores tempos do Pibe. Não era exatamente um jogador de grande mobilidade, mas um verdadeiro centro de gravidade, que fazia o restante dos jogadores orbitarem ao seu redor.

Durante o primeiro tempo, faltou à Colômbia um pouco mais na conclusão das jogadas. A superioridade a partir dos dez minutos era evidente, mas o gol saiu pouco antes do intervalo, com a participação dos três mosqueteiros. James cruzou para Mina marcar. Já no início da segunda etapa, os Cafeteros fizeram a Polônia de seu sparring. Um baile ritmado pelos passes de Quintero, que deu uma assistência açucarada a Radamel Falcao García. O camisa 20 permaneceu em campo até os 28 minutos, substituído por Jefferson Lerma, com Pekerman protegendo mais a defesa. Do banco, veria Cuadrado fechar a conta.

Quintero será fundamental contra Senegal, no jogo que pode valer a classificação à Colômbia. Em uma partida bastante física, o toque diferente é o que explorará as brechas dos Leões de Teranga. Se antes surgia como sucessor de James Rodríguez, agora ambos se mostram a mais perfeita combinação para fazer os colombianos sonharem com outra boa campanha. Juntos, fizeram o time bem melhor neste domingo. E um torneio de tiro curto, no qual o foco se mantém o tempo todo, parece perfeito para o camisa 20 destoar. Exibir todo o seu talento, como tem feito.

Resta a interrogação sobre a sequência da carreira de Quintero. Pelo que tem feito, talvez clubes europeus queiram antecipar o fim de seu empréstimo ao River Plate, acertado até dezembro, e tirá-lo do Porto. Ou, se ficar em Núñez, será um nome temido nos mata-matas da Libertadores. Independentemente do que acontecer, se tornará fundamental ao meia demonstrar o seu amadurecimento e superar a indisciplina. Bola para isso ele tem, e isso fica visível durante a Copa do Mundo. Os colombianos, de qualquer maneira, já são gratos ao armador de 25 anos. Quintero é o único jogador da história do país a anotar gols em mais de uma edição de Mundial. E, ao que parece, pronto a restaurar as expectativas de seus compatriotas após o desânimo da estreia.