Há quase quatro anos, as expectativas sobre a seleção japonesa eram dilaceradas na Arena Pantanal. O time chegou à Copa do Mundo de 2014 com certas expectativas, em um grupo teoricamente acessível, exibindo um futebol ofensivo nas Eliminatórias. Despediu-se como uma grande decepção, na lanterna de sua chave. Após a derrota para a Costa do Marfim e do empate sem gols contra a Grécia, os nipônicos entraram na última rodada ainda dependendo apenas de si para se classificar. Precisavam vencer o time misto da Colômbia, classificada e praticamente garantida na primeira colocação. Não viram nem a cor da bola. Apesar do empate no primeiro tempo, os Cafeteros terminaram de frustrar os japoneses com a goleada por 4 a 1. James Rodríguez, que saiu do banco, anotou um senhor golaço.

Quatro anos são o bastante para qualquer geração. Quatro anos serviram para colocar o Japão abaixo do que se imaginava em 2014. O time esteve longe de exibir tal futebol ofensivo ao longo do ciclo, sofreu nas Eliminatórias, conviveu com as mudanças de técnicos. Aqueles que deveriam ser os grandes nomes da geração não se firmaram. Havia uma sensação de que, apesar do sorteio benevolente outra vez, com novo grupo equilibrado, os japoneses eram os principais candidatos à última colocação. E eis que surge a mesma Colômbia, quatro anos mais velha, com alguns dos titulares de quatro anos atrás. Pois os Samurais Azuis mudaram a sua história em Saransk, com a memorável vitória por 2 a 1. A primeira vitória de uma seleção asiática contra uma sul-americana em Mundiais.

Tudo bem, a expulsão de Carlos Sánchez condicionou bastante o jogo desta terça. A Colômbia precisou mudar o seu plano de jogo sem aquele que é o ponto de equilíbrio da equipe. Mas não se nega a força do Japão para encarar o desafio. Para se esquecer do trauma e reescrever este capítulo contra os colombianos, quatro anos depois do encontro mundialista. Com um jogador a mais, os japoneses tiveram o controle do jogo. O controle técnico e mental, sobretudo. Ainda que os colombianos sobrevivessem graças aos espasmos de alguns de seus lutadores, com Juan Fernando Quintero carregando o time em boa parte do tempo, a partida estava nas mãos dos nipônicos.

O jogo começava a partir de Maya Yoshida, um dos que sofreram com o atropelamento em Cuiabá, quatro anos atrás. Passava bastante por Makoto Hasebe e Gaku Shibasaki, a dupla de volantes que ganhou o jogo em Saransk, pela maneira como se impôs na partida diante da vantagem numérica, trabalhando com calma e inteligência. Contava com as investidas de Takashi Inui, essencial para desequilibrar os confrontos pelo lado esquerdo, encarando a marcação de Santiago Arias e criando ocasiões de gol. Tinha Shinji Kagawa e Keisuke Honda, dois dos mais cobrados em 2014, vivendo sua redenção pela participação nos lances decisivos. E se protagonizava por Yuya Osako.

O centroavante japonês merece menção especial. Há quatro anos, Osako viu do banco de reservas a decepção em Cuiabá. Naquele momento, tinha deixado o Kashima Antlers e iniciava sua trajetória no futebol alemão, primeiro no Munique 1860, antes de se transferir ao Colônia. O atacante de boa mobilidade e versatilidade se tornou titular dos Samurais Azuis nos últimos dois anos, embora não seja exatamente um goleador. Nesta estreia na Copa do Mundo, entretanto, ele fez de tudo – inclusive gol.

No primeiro tempo, foi de Osako o chute que gerou o pênalti. No segundo, ele definiu o placar com seu gol de cabeça, desviando cobrança de escanteio, mesmo cercado por vários marcadores. Movimentou-se por diferentes lados do ataque, criou espaços aos companheiros, apareceu para finalizar. E nos minutos finais, foi salvador dos nipônicos de outra maneira, esta sem que o placar possa contar. James Rodríguez, o carrasco de quatro anos atrás, estava pronto para marcar. De frente para o gol, só precisava tirar do goleiro. Osako apareceu na área defensiva e, com um carrinho salvador, travou o camisa 10 colombiano. Negou a melhor oportunidade de empate.

Ao apito final, a emoção era evidente. Alguns jogadores japoneses chegaram a ajoelhar em campo e a chorar. Sabem o que esta vitória representa, indo além do mero imediatismo. Está entre os grandes triunfos dos Samurais Azuis. Quem sabe, para dar uma nova esperança, em momento de descrédito.

O Japão de Saransk foi o que se esperava desde o Brasil: um time de toque de bola, de segurança para encarar um adversário de vigor físico, de capacidade para definir o placar nas bolas paradas – mesmo desperdiçando outras oportunidades. Ainda é um resultado circunstancial, cabe frisar. Mas representa uma reconciliação dos Samurais Azuis após a frustração de quatro anos atrás. Mentalmente, ao menos, os japoneses cresceram bastante.