Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil, 02 de Abril de 2014 - TACA LIBERTADORES - BOTAFOGO X UNION ESPANOLA - durante a partida valida pela 5a rodada do grupo 2 da Libertadores, no Maracana. Foto: Jorge Rodrigues/Eleven.

Quatro horas em que a roda da fortuna não parou de girar para os cariocas

Foram 180 minutos de bola rolando, o suficiente para acontecer muita coisa dentro de campo. Em suma, o que você quiser imaginar. Ainda assim, a mudança de sorte dos clubes cariocas na Libertadores não deixa de surpreender. A rodada desta quarta começou com duas verdades que pareciam absolutas: o Botafogo estava a um passo das oitavas de final e o Flamengo, de mais um vexame. Mas o que não acontece em 180 minutos de futebol? Pois bem, os atores se inverteram em um intervalo de quatro horas, entre o pontapé de um jogo e o apito final de outro. Enquanto os rubro-negros se glorificaram com uma vitória suada em Guayaquil, os alvinegros deixaram a Unión Española ter o seu Maracanazo particular.

Era o confronto de dois planejamentos opostos no congestionado calendário do futebol brasileiro. O Botafogo foi bastante elogiado por não dar tanta bola ao Campeonato Carioca, preferindo concentrar as forças na Libertadores. Ao mesmo tempo em que o Flamengo quis ser competitivo nas duas frentes, e acabou criticado por entrar com vários titulares na partida contra o Cabofriense, a semifinal do estadual que já estava praticamente decidida. Nem sempre a lógica funciona no futebol.

A reviravolta tem seu primeiro ato na casa dos rivais, no Rio de Janeiro. Era um desafio relativamente tranquilo para o Botafogo. Recebia no Maracanã a Unión, contra a qual tinha empatado no Chile. Mas a situação era favorável. A vitória classificava os alvinegros, enquanto o empate deixa a outro empate da próxima fase. Se a situação dos jogadores não era boa com o atraso de salário, não havia como dar a desculpa da falta de motivação, diante da festa incrível feita pelos 44 mil presentes nas arquibancadas. A pressão era toda alvinegra, os visitantes contidos à defesa. Só que a falta de repertório crônica do time de Eduardo Húngaro foi fatal. Na melhor chance, logo no início do segundo tempo, uma sequência de gols perdidos incrível. E, em um pênalti contestado pelos anfitriões, Gustavo Canales decretou a vitória da Unión por 1 a 0. Um feito de tamanha importância que alguns torcedores chilenos chegaram a chorar no Maraca.

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Já o segundo ato se passou no caldeirão do Estádio George Capwell, em Guayaquil. O Emelec só havia perdido um de seus últimos 14 jogos em casa pela Libertadores. Entre as vítimas, o próprio Flamengo, em uma virada emocionante em 2012. E, desta vez, os rubro-negros não poderiam cair com os joelhos. A derrota significaria a eliminação. Não foi uma vitória contundente do Fla. Em um primeiro tempo frio, Alecsandro abriu o placar graças a um pênalti bobo. Mas os visitantes pareciam querer se complicar e deixaram o Emelec se sentir mais à vontade na volta do intervalo. Wellinton cometeu um pênalti mais bobo ainda e Stracqualursi guardou. A queda era mais próxima do que a ascensão. Recife e Gabriel abusavam dos erros, Jaime de Almeida colocou o execrado Negueba em campo. E foi justamente a substituição mais xingada pelos flamenguistas é que decidiu. Nos acréscimos, um lançamento genial do atacante terminou no gol de Paulinho: 2 a 1, primeira vitória do clube no Equador pela Libertadores.

Apesar da necessidade mais difícil, o Flamengo agora é quem tem as brisas cariocas soprando a seu favor. Precisa vencer o León. Só isso já bastará, em uma noite na qual a massa rubro-negra certamente empurrará a equipe no Maracanã. Já o Bota pode até empatar com o San Lorenzo, caso o Independiente del Valle não vença a Unión Española por dois gols ou mais de diferença. Porém, os alvinegros deverão encontrar um ambiente bastante hostil no Nuevo Gasómetro, onde o atual campeão argentino tentará manter sua honra. Uma derrota vale a degola.

Serão mais 180 minutos. E, não custa lembrar, tanto tempo é suficiente para mudar a sorte dos cariocas outra vez na competição. A vitória do Flamengo no Equador por um gol de diferença valeria tanto quanto o empate. Com a diferença que a faca no pescoço por mais um resultado ruim pressionaria o time a dar a vida na rodada final. O problema é que os rubro-negros podem reencontrar o seu maior adversário nas últimas Libertadores: o clima de ‘já ganhou’. Que se torna ainda mais perigoso com o jogo de ida da final do Carioca, o clássico contra o Vasco, no meio do caminho. Reverter a própria tradição será precioso ao Fla, poupar no estadual e manter os pés no chão no continental. Enquanto isso, o Botafogo tenta uma superação parecida com a que aconteceu na reta final do Brasileiro, para deixar para trás qualquer estigma ou falta de experiência na Libertadores. A rodada final dos cariocas na fase de grupos promete. Imprevisível em sua essência, por mais que os prognósticos sigam na mesma direção.