Os problemas da Inglaterra não são recentes. Depois do título da Copa do Mundo de 1966, o máximo que conseguiu foi uma semifinal, há 24 anos, na Itália. Os inventores do jogo estabeleceram-se no segundo escalão das seleções europeias e no bloco intermediário do futebol mundial. Greg Dyke assumiu a Federação Inglesa no ano passado e decidiu concentrar quase todos os seus esforços para encontrar uma solução. Formou uma comissão e definiu quatro propostas que se forem implementadas vão revolucionar a estrutura do futebol inglês.

Leia mais: Usar a base do Liverpool foi uma boa ideia, mas havia um Schmeichel no meio do caminho

A comissão foi formada por Ðautoridades como o técnico da seleção Roy Hodgson, os ex-treinadores do time nacional Glenn Hoddle e Howard Wilkinson e o jogador Rio Ferdinand, além de representantes da Football League e da Conference, que administram as divisões inferiores. Entrevistou 650 pessoas ligadas ao futebol, e o problema identificado é tão óbvio quanto difícil de ser solucionado: a formação de talentos ingleses, principalmente entre os 18 e os 21 anos.

A transformação da Premier League em um dos campeonatos mais atraentes do mundo veio com um preço. O dinheiro, unido à Lei Bosman, permitiu que os clubes mais ricos contratassem os principais talentos da Europa e de outros lugares do mundo, mas eles ocupam o lugar que deveria ser reservado aos jovens talentos das suas categorias de base. Na edição 2012/13 do Inglês, apenas 32% dos jogadores dos 20 times da liga poderiam jogar pela Inglaterra. Nos quatro primeiros clubes, esse percentual cai para 28% e para 23% na atual temporada. A meta da FA é a taxa geral subir para 45% até 2022. Em números brutos, pular de 66 atletas para 90.

Só que as medidas que a comissão propôs, e que ainda precisam ser aceitas pela Premier League, pela Football League e pela Conference, podem muito bem ser consideradas autoritárias e desproporcionais a esse objetivo que sinceramente não parece tão difícil de ser atingido. E sequer garantem o prêmio final: o título da Copa do Mundo de 2022.

Começando pela parte de cima, a FA quer que até 2020 o número de jogadores formados em casa – aqueles que treinaram pelo menos 36 meses na Inglaterra antes de completar 21 anos – suba de oito para 13, mais da metade do elenco regular de 25 atletas. Ou seja, nada de contratar um lateral direito médio da Costa do Marfim ou até mesmo da Espanha para a reserva. Deixa o garoto inglês ganhar experiência.

Chegou a ser discutido limitar o número de estrangeiros, da União Europeia ou não, mas isso seria uma proposta ilegal. Dentro das normas do bloco, um portador de passaporte europeu pode trabalhar em outro país sem impedimentos. O futebol não tem o direito de criar suas próprias regras. A comissão acabou se contentando com um máximo de dois jogadores de países que não façam parte da UE por elenco.

>>>> Hodgson é ponderado, mas Inglaterra segue sendo superestimada

Esses jogadores sem passaporte europeu precisam ganhar uma licença de trabalho para atuar na Inglaterra e antigamente era muito mais difícil consegui-la. Era. “Desde 2009, 122 jogadores de países que não são da União Europeia entraram na Inglaterra dentro desse esquema”, afirmou Dyke. “Quase 50% não atingiam os critérios. Desses, 79% apelaram e conseguiram a licença. O incrível é que apenas 58% deles jogaram qualquer coisa na Premier League na sua segunda temporada.” A proposta é proibir que jogadores com licença de trabalho atuem em qualquer divisão que não seja a Premier League.

E nem chegamos às duas propostas mais polêmicas, que podem transformar clubes tradicionais da Inglaterra que não vivem grande fase e estão nas divisões inferiores em barrigas de aluguel dos mais ricos do país. A comissão de Dyke sugeriu um sistema de empréstimo no qual os times emprestariam atletas para os seus “parceiros”, como já acontece, mas teriam o poder de influenciar o número de minutos que ele atuaria. Os receptores ganhariam uma boa quantia em dinheiro para que isso, teoricamente, valesse a pena.

Imaginou a bagunça? O Milwall, por exemplo, brigando para subir de divisão teria que deixar o seu principal atacante no banco de reservas para colocar um jovem do Manchester United. E se o adversário for uma equipe famosa por bater um pouco mais do que a média, vai que o Chelsea pede que Leeds deixe o seu meia mais talentoso do lado de fora do jogo?

Mas a principal mudança seria a criação de uma nova divisão entre a Conference e a League Two que, na prática, equivaleria ao quinto nível do futebol inglês. A League Three seria composta por dez equipes da Conference e outros dez times B da Premier League. Essas filiais precisariam ter pelo menos 20 jogadores formados em casa, nenhum de fora da União Europeia. No geral, 19 precisariam ter menos de 21 anos. Não poderiam subir além da terceira divisão e sempre teria de haver ao menos uma liga entre elas e o time principal.

Além de modificar toda a estrutura de ligas do futebol inglês (um conselho: nunca tente mexer com qualquer tradição britânica), ainda descaracterizaria torneios que, se não primam pela técnica, levam pessoas ao estádio e são importantes regionalmente. Uma particularidade da Inglaterra é essa relação dos moradores com os clubes locais, seja do bairro ou da cidade. E eles teriam que começar a competir com equipes financiadas pelos gigantes da primeira divisão. Eventualmente, eles se estabeleceriam na terceira divisão, ocupando o espaço de clubes “puros”. Situações bizarras, como o acesso direto ser conquistado pelo quarto e o sétimo colocado, não seriam completamente impossíveis.

A Premier League não quis colocar um representante na comissão, mas Dyke garante que tem o apoio dos dois clubes de Manchester, do Liverpool, do Tottenham e do Stoke City. Não é o suficiente, porque precisa de dois terços dos 20 clubes para aprovar suas propostas. Na Football League e na Conference, a maioria basta, mas nenhuma das duas gostou muito do que foi decidido.

“A nossa visão é que o objetivo de melhorar a qualidade dos jogadores ingleses é louvável e, apesar de o relatório não conter nenhuma proposta que seja aceitável no momento, devemos continuar a conversar com a comissão para descobrir se existe uma proposta que alcance o objetivo e não deixe a Football League com um fardo desproporcional e exagerado”, disse o executivo chefe da liga, que vai deliberar sobre as propostas em julho, Shaun Harvey. A Conference foi pela mesma linha: “Nós, como todos os torcedores, queremos ver o time nacional ter sucesso, mas não às custas de toda a existência da pirâmide na qual toda a base sólida do nosso jogo é dependente.”

Em outras palavras, haja retórica para que Dyke consiga convencer as duas entidades a aprovarem as suas sugestões, muito radicais, às custas da identidade e do orgulho dos times menores, e que não proporcionam nenhuma certeza de que vão resultar no título da Copa de 2022. E são inclusive inócuas, afinal, se os jovens ingleses não têm espaço na primeira divisão, eles naturalmente já vão parar nas divisões menores. Os que se destacam são contratados pelos grandes. Os próprios clubes da Premier League não têm certeza que o nível do futebol jogado na Football League e na Conference é bom o suficiente para desenvolver os seus jovens. E quer saber? Provavelmente eles têm razão.

Você também pode se interessar por: 

>>>> Inglaterra-2013, mas pode chamar de Alemanha-74

>>>> Há 700 anos, rei da Inglaterra decretava que jogar futebol era crime

>>>> Futebol é muito mais do que apenas um esporte para os ingleses

>>>> O pesadelo da camisa 1 ainda não acabou na Inglaterra