O choro do lateral Nabil Dirar, logo após o final do jogo contra Portugal, diz muito sobre o sentimento de Marrocos diante da segunda derrota na Copa do Mundo. Os Leões do Atlas fizeram duas boas partidas na competição, apresentando sua qualidade técnica, trabalhando muito bem a bola no meio-campo. Entretanto, os erros pontuais na defesa e a falta de precisão no ataque custaram caro. Dois placares magros foram suficientes para, 20 anos depois, encerrarem o sonho dos marroquinos em sua volta aos Mundiais. A tabela do torneio não traduzirá a real força do time de Hervé Renard, o primeiro eliminado na Rússia-2018.

Marrocos já tinha feito uma boa partida na estreia contra o Irã, superior aos seus adversários. Jogou bem principalmente no início do primeiro tempo, quando atacou com intensidade e aproveitou muito bem as investidas pelos lados do campo – no 3-4-3 especialmente preparado pelo técnico Hervé Renard. Faltou quebrar a competente barreira defensiva dos persas, com dois lances principais negados pelo goleiro Alireza Beiranvand. E, depois de uma queda no segundo tempo, a infelicidade de Aziz Bouhaddouz custou o resultado aos marroquinos. Ficou a frustração por uma tarde na qual mereciam ao menos o empate.

Contra Portugal, Marrocos voltou à sua formação base, utilizada durante grande parte da preparação e na classificação nas Eliminatórias. Usava o 4-2-3-1, dando o protagonismo ao meio-campo, com jogadores que sabem muito bem distribuir os passes. O gol de Cristiano Ronaldo, em uma desatenção na marcação logo nos primeiros minutos, tornava a missão dos magrebinos mais difícil. Porém, o jogo esteve em suas mãos durante o restante do tempo. Os Leões do Atlas dominaram a posse de bola e as chances de gol, botando a Seleção das Quinas contra a parede. Faltou mais capacidade nos arremates, entre os muitos erros e as boas defesas de Rui Patrício.

A sustentação de Marrocos se deu a partir de seus dois volantes. Karim El Ahmadi é um jogador experiente e que garante a segurança na cabeça de área. Possui ao seu lado Mbark Boussoufa, um meia recuado que prima pela qualidade nos passes. Foi preponderante para que os marroquinos controlassem a posse de bola e se impusessem no campo de ataque. No entanto, o pesadelo de Portugal se deu mesmo com a trinca de meias utilizada por Hervé Renard. Nordin Amrabat, Younès Belhanda e Hakim Ziyech fizeram funções diferentes do que se viu contra o Irã e foram bem mais eficientes.

Portugal tinha dificuldades no lado esquerdo do campo, e isso se dava bastante pela energia transmitida pelo incansável Amrabat, um jogador bastante participativo e veloz. Com e sem a bola, foi um incômodo aos lusitanos. Pelo meio, Belhanda apareceu bastante na conclusão dos lances, principalmente pela maneira como se apresentou para finalizar. A melhor chance veio em uma cabeçada do camisa 10, em milagre de Rui Patrício. Já pelo lado esquerdo de ataque, Ziyech realmente apresentou suas credenciais como diferencial do time. É um jogador com ótima visão de jogo, capacidade para orquestrar sua equipe e habilidade nos dribles. Principalmente no final do jogo, se tornou uma ameaça constante nas bolas paradas. Faltou alguém com mais competência, que realmente colocasse a bola para dentro.

O gosto amargo não é inédito ao Marrocos. Na Copa de 1994, os Leões do Atlas dificultaram a vida de todos os seus oponentes, em um time mais defensivo, mas despediram-se com três derrotas pela diferença mínima. Já em 1998, a equipe estrelada por Mustapha Hadji fez um movimentado empate por 2 a 2 com a Noruega na estreia e passou por cima da Escócia, nos 3 a 0 da rodada final. Todavia, a derrota para o Brasil, somada ao triunfo dos noruegueses ante os brasileiros, culminou na eliminação precoce. Em partes, é essa boa avaliação pela forma, mas não pelos resultados, que se reproduz em 2018.

Marrocos ainda pode arrancar pontos da Espanha, embora as chances de classificação não existam mais. Os espaços para seu meio-campo se sobressair tendem a ser menores contra a Roja, mas ainda assim é a oportunidade de uma despedida digna. Pelo que se viu na Copa do Mundo até o momento, a impressão é a de que os marroquinos poderiam ambicionar mais se não estivessem em uma chave tão difícil – mais difícil do que poderiam sugerir a alguns. Os detalhes custaram demais.