O jogo em Cochabamba tinha ares de formalidade. O River Plate era franco favorito contra o Jorge Wilstermann, mesmo que jogasse fora de casa. No papel, a superioridade dos Millonarios parece um tanto quanto evidente. E não há muitas dúvidas de que os argentinos também possuem mais técnica. Contudo, para se dar bem na Libertadores, não é preciso ser o melhor. O fundamental é saber jogá-la. E o Aviador tem um plano de jogo que vem surtindo efeito na competição continental. Deu trabalho ao Palmeiras, eliminou Atlético Mineiro, Peñarol e Atlético Tucumán. Agora, ficou a um triz de derrubar o River. Em uma atuação arrasadora contra um adversário perdido (em diferentes significados da palavra), o Jorge Wilstermann colocou os visitantes na roda. Foi mais organizado e soube explorar os momentos do jogo, para garantir a festa no Estádio Felix Capriles, sua fortaleza ao longo da competição. A vitória por 3 a 0 no jogo de ida, a quinta em cinco partidas como mandante, aproxima a surpresa da semifinal.

Se de um lado o River Plate contava com jogadores badalados e reforços recentes, a aposta do Jorge Wilstermann era toda em seu limite. O Aviador possui as suas claras carências. Mas sabe explorar o que faz de melhor: a disposição tática, o bom posicionamento, a pressão momentânea. Assim, os bolivianos vieram a campo dispostos a resolver rapidamente. Botaram os Millonarios contra a parede nos primeiros quatro minutos, com uma sequência de escanteios sufocante. No terceiro deles, saiu o gol precoce. O veterano Edward Zenteno marcou um golaço. De voleio, mandou o goleiro Germán Lux buscar a bola no fundo das redes.

O Jorge Wilstermann seguiu embalado após o tento. Ia criando chances, principalmente com o brasileiro Serginho, que chegou a marcar, mas viu o seu tento ser invalidado pela arbitragem por impedimento. O River Plate melhorou a partir dos 20 minutos. Entretanto, tinha problemas sérios na construção das jogadas, diante dos espaços excessivos no meio-campo. Além disso, o ataque não parecia suficientemente entrosado, com várias peças que chegaram a Núñez nas últimas semanas. A bola cruzava a área sem que ninguém completasse. As melhores chances ficavam limitadas a chutes de média distância.

O empate do River quase saiu no início do segundo tempo. Ignacio Scocco ia marcando, quando Alex Silva apareceu em cima da linha para salvar. Um dos líderes do Jorge Wilstermann, o brasileiro teve ótima atuação, ganhando quase todas as divididas e mantendo a segurança pelo alto. Já do outro lado, o Aviador recuperou-se do susto ao aumentar a diferença. Logo aos cinco minutos, Gilbert Álvarez marcou o segundo. Após cruzamento de Cristian Chávez, o centroavante encontrou um buraco no meio da zaga argentina e emendou de cabeça, vencendo Lux. A tranquilidade que os anfitriões precisavam. E isso porque tiveram outro tento anulado por impedimento na sequência.

A partir de então, o River Plate acordou e iniciou uma pressão incessante. Prensava o Jorge Wilstermann contra a sua área e começava a cavar buracos na defesa boliviana. O problema é que os Millonarios dependiam mais das individualidades do que do coletivo. E não era uma jornada das mais inspiradas aos atacantes argentinos, sobretudo a Scocco. O camisa 11 perdeu dois lances claríssimos, mandando por cima com a meta escancarada. Além disso, o goleiro Raúl Olivares também trabalhava, com duas ótimas intervenções.

E a prova cabal de que esta não era a noite do River Plate aconteceu aos 36 minutos. Em contra-ataque, Álvarez fez grande jogada ao puxar três marcadores e inverter para Cristhian Machado. O camisa 15 esperou a arrancada de Serginho, puxando a marcação, antes de ficar com o caminho aberto para soltar o pé. Lux não teve o que fazer. Na comemoração, os braços balançando do meio-campista indicavam o baile. Marcelo Gallardo fazia cara de pouquíssimos amigos. Já nas arquibancadas do Félix Capriles, a festa tomou conta. A empolgada torcida gritava ‘olé’ e quase viu o quarto sair nos acréscimos. Duro golpe ao River Plate.

A situação se torna extremamente difícil aos argentinos, por mais que joguem a volta no Monumental de Núñez. Precisarão fazer muito mais do que aconteceu nesta quinta, e não apenas pela falta de pontaria. Afinal, o Jorge Wilstermann deverá redesenhar seu esquema comum nos jogos fora de casa, entrincheirado ao redor de sua área. Desta maneira, supera fase após fase na Libertadores, em uma receita que deu certo com outros clubes nas últimas edições. Entender a competição continental é algo primordial para sonhar com grandes campanhas. E cumprir os planos de um jeito tão preciso é o que permite aos times cruzarem a linha do sucesso. Graças a isso, o Aviador precisa de pouco para se colocar entre os quatro melhores da temporada nas Américas.