Por Leandro Vignoli, autor de À Sombra de Gigantes

Após escrever o livro À Sombra Gigantes, fruto de uma viagem de 50 dias visitando clubes periféricos da Europa, muita gente me pergunta como é organizar e planejar um viagem do tipo. Aqui segue um pequeno resumo do plano estratégico, algumas dicas de transporte, entre outras coisas. Lembrando que a ideia é economizar o máximo possível – quanto mais McDonalds em vez de refeição civilizada, sobra mais dinheiro para o resto.

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Obviamente que uma viagem futeboleira depende do número de dias disponível, mas o ideal é fazer com que sua chegada seja onde possa já assistir mais de um jogo. Se você tiver uma data mais maleável para pedir férias, melhor ainda, pois você pode fazer o “tracking” de inúmeras datas e locais diferentes para descolar o melhor preço. Eu tinha uma combinação de uns seis roteiros diferentes, dependendo de onde chegasse. E no caso foi Madri, onde assisti dois jogos (normalmente, a empresa Air China tem voo promocional, por menos de R$ 1.700,00, todas as quintas, entre fevereiro e março, quando fiz a viagem). E chegando na Europa…

Acho que a primeira coisa a ser dita é não fazer como eu. O problema de ter um roteiro com muitos clubes específicos em mente é que as datas dos jogos não colaboram, e você viaja mais distâncias do que o necessário (e gasta mais por isso). Ou seja, sempre dê preferência à geografia, como em um mochilão, e encaixe os clubes a visitar de acordo com os dias dos jogos (ou escolha poucos times e encaixe os demais pela geografia). Um exemplo da minha viagem: consegui encaixar Munique, Berlim e Hamburgo em apenas uma semana (segunda, sexta e segunda), e poderia ter visto Dortmund e Colônia no final de semana, já que a Bundelisga é jogada aos sábados e domingos. Porém, com um roteiro muito específico, foi inevitável ter de sair de Londres à Lisboa, por exemplo, quando o mais fácil (e barato) seria viajar até Paris, Roterdã, Amsterdã, e dali até as cidades alemãs, por exemplo.

Pegue a tabela completa de todas as ligas com os times que gostaria de ver, tenha em mãos um bom mapa com cidades menores. Fique muito atento às tabelas das Copas nacionais também (graça a elas que pude ver o Celtic por somente 15 libras no melhor local do estádio). Mas vamos lá. Digamos que você queira muito ver o Dortmund jogar em casa. Pois bem, eles jogam dia 27/01 (sábado). Domingo você pode ir até Leverkusen, segunda Bochum, mais sexta Colonia, sábado Schalke 04 e domingo Hamburgo (esse é um cenário real de acordo com as tabelas da Bundesliga 1 e 2 em 2017/2018).

Ainda sobra uns diazinhos no meio para conhecer (o estádio do) Hannover. Seis jogos em nove dias e a viagem mais longa sendo de 3 horas é quase perfeito. Mas digamos que você queira muito ver o St Pauli dia 28/01 (domingo), em vez do Leverkusen. Então você continua com o Dortmund um dia antes, e na sexta anterior tinha o Union Berlin, e na quinta o Dresden (contra o St. Pauli!). E assim por diante. Em Londres, facilmente dá pra ver uns cinco jogos na semana – eu mesmo deixei de ir em West Ham x Chelsea, um do Tottenham e um do QPR (este último porque jogava no mesmo horário da partida que escolhi do Fulham).

Estádio Craven Cottage, do Fulham (Photo by Richard Heathcote/Getty Images)

Acho que é mais importante de levar em conta é a geografia. Elencar três ou quatro prioridades e encaixar qualquer coisa no meio. E decidir se você quer mesmo priorizar os jogos, pois de repente você precisará ficar em Paris apenas um dia porque no dia seguinte já tem jogo pra assistir noutro local – e, sim, deve ser uma pena ir até Paris e não conhecer outras coisas. Eu nem ao menos procurei por partidas em cidades vizinhas e, assim, geralmente sobrava um ou dois dias extras de folga para conhecer melhor a cidade. Ir à Turim, por exemplo, e não conhecer tudo que cerca a história do Torino (basílica de Superga, estádio Filadélfia) é quase que, literalmente, um pecado. Eu assisti 16 jogos, mas poderia ter sido 23, se eu tivesse dinheiro e idade. E encaixei Amsterdã e Bruxelas para visitar.

Quanto menos badalada a cidade e o time, mais barato fica – e às vezes, mais legal a experiência. Claro, visitar a Europa não é fácil, então se você está em Madri é natural querer conhecer o Santiago Bernabeu, mas o clima de jogo de futebol é bem mais legal em Vallecas. Ou Londres, quase qualquer clube menor terá um ambiente melhor do que o Emirates Stadium, do Arsenal. Alguns clubes, como o Bayern, nem tem ingresso disponível, a menos que se compre um pacote por estas agências de turismo super caras.

Caso o teu interesse seja mesmo pelos clubes pequenos e das cidades do interior, fica até mais fácil de entrar em contato com torcedores, através de fóruns no Facebook, mas, principalmente, no site reddit. O moderador do fórum do clube geralmente terá boas dicas, isso se ele mesmo não lhe ajudar a comprar ingresso, te levar no estádio, visitar bares de “concentra” da torcida, etc. Os ingressos vão girar em torno dos 10 a 20 euros nestes clubes pequenos, mas pode ir pra lá de 50 num Real Madrid da vida. Uma ressalva que pesa no bolso são os estádios ingleses, onde mesmo um clube medonho de quarta divisão vai cobrar umas 25 libras – que é uma moeda super cara. Como escrevi no livro, eu gastei mais com ingresso para três partidas (Millwall, Fulham e Leyton Orient) do que a hospedagem de uma semana inteira (em hostel compartilhado, mas né). E, ainda assim, isso sai mais em conta que um único jogo de Premier League.

Também não é difícil ter acesso aos ultras dos clubes pequenos. De forma geral, eles estão dispostos a conversar e mostrar o QG e coisas do tipo. Mas, honestamente, eu não recomendo. No contato que tive com ultras de St. Pauli e os Bukaneros (do Rayo Vallecano) é uma galera mais radical, muito jovem, um esquema meio exército demais pra quem é de fora. No St. Pauli, por exemplo, vale mais a pena o contato com “fã-clubes”, como a do Scarecrows Sankt Pauli, que entrevistei no livro. No Union Berlin falei com a galera do Ecke Norde, e no Red Star, da Gang Green.

Para cobrar os ingressos, varia em cada caso e é bom pesquisar antes. Clubes como St. Pauli, Union Berlin e quase todos da Alemanha é bastante recomendável comprar antes pela internet. A maioria dos interessados em viagem boleira deve já saber, mas é lá que está disparado o melhor clima. Estádios cheios, torcidas fanáticas, ingressos baratos e nunca param de beber (geralmente os copos são colecionáveis). O meu top três de jogos da viagem foi o Union Berlin, Rayo Vallecano e Celtic, mas St. Pauli e o jogo do 1860 Munique também foram bem interessantes.

Na Inglaterra, caso tenha a chance, veja o jogo com a torcida visitante – é uma tradição gigante viajar pelo país seguindo o time e elas fazem mais barulhos que os locais. Jogo do Celtic ou Rangers também parece indispensável e poucas pessoas vão te tratar tão bem e querer falar de futebol por horas quanto um torcedor escocês. Se busca por fanatismo, na Itália também não vai faltar, e na Holanda foi uma surpresa muito positiva.

Em termos de comunicação, em geral o inglês vai funcionar legal. Caso você entre em contato com torcedores na internet antes de ir, melhor, porque é uma garantia que ele também fala inglês. Em Paris, o meu entrevistado falava (mal), mas todas as outras pessoas no estádios não. Na Itália, a mesma (a maioria até que fala, mas eles não curtem nem um pouco).

O transporte de tudo isso, se você quer economizar mesmo, é o ônibus. A empresa Flixbus, da Alemanha, é campeã neste aspecto – tem linhas para quase todas as bibocas que possa imaginar, e muito barato. Isso porque o sistema de “ônibus direto” deles significa apenas que não haverá baldeação, mas que o busão vai fazer umas 12 paradas, dependendo do trajeto. E, ah, os ônibus são toscos para cacete, mas se você visitar inúmeras cidades diferentes, transporte é algo que pesa muito no orçamento. O melhor site de todos os tempos é o goeuro.com. Nele vai aparecer os preços comparados de ônibus, trens e avião (se for o caso), tempo de viagem, tudo. Outra opção que vale bastante a pena é o Blah Blah Blah Car, que é o sistema de carona, e em viagens curta dentro do mesmo país, não tem preço igual.

Mas todas estas dicas servem para estes países mais “gourmet” das principais ligas – eu visitei Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, Bélgica e Itália. Um turismo futeboleiro mais roots pelo leste europeu, por exemplo, é totalmente outra história. Mas de Polônia à Croácia, ou mesmo da Turquia à Grécia, é onde esteja provavelmente as coisas mais alucinantes e ao mesmo tempo caóticas dentro de um estádio de futebol. Quem sabe isso não possa se tornar um segundo livro?

Jogos visitados em À Sombra de Gigantes:

18.02 – Real Madrid x Espanyol 2-0

19.02 – Rayo Vallecano x Mirandés 1-2

20.02 – 1860 Munique x Nuremberg 2-0

24.02 – Union Berlin x 1860 Munique 2-0

25.02 – Hertha x Eintratch Frankfurt 2-0

27.02 – St. Pauli x Karlshurer 5-0

28.02 – Milwall x Peterborough 1-0

04.03 – Queens Park x Livingston 1-1

05.03 – Celtic x St. Mirren 4-1

07.03 – Fulham x Leeds 1-1

11.03 – Leyton Orient x Grimsby 0-3

13.03 – Benfica x Belenenses 4-0

17.03 – Red Star x Amiens 0-1

18.03 – Sparta Roterdã x Heracles 3-1

24.02 – Plauen x Bradenburg 1-1

02.04 – Torino x Udinese 2-2

Poderia ter visto, mas abortei a missão:

06.03 – West Ham x Chelsea

07.03 – Arsenal x Bayern

14.03 – Wimbledon x MK Dons

19.03 – Excelsior x Ajax (Ingressos Esgotados)

31.03 – Erzgebirge Aue x St Pauli

01.04 – RB Leipzig x Darsmadt

01.04 – Bayern x Augsburg (Ingressos Esgotados)