Para qualquer torcedor santista, aquele 15 de dezembro representou uma libertação. Foi o dia em que gerações de alvinegros, enfim, experimentaram sua afirmação. Uma conquista nacional que não consumavam desde os tempos áureos do clube. Um troféu que foi tirado deles sete anos antes, de maneira tão dolorosa. Desta vez, não havia quem contestasse o Peixe. Por mais que o time tivesse passado aos mata-matas na menor fresta, o desempenho a partir de então foi imponente. Amassaram o líder São Paulo até mesmo no Morumbi; foram absolutos também contra o Grêmio; e terminaram por implodir o Corinthians na decisão. A vitória no primeiro jogo foi complementada com um épico no segundo. Uma das melhores partidas do futebol brasileiro na década, justamente na última final antes da adoção dos pontos corridos, num ano tão empolgante após o penta. A tarde apoteótica à torcida do Santos, que cativou os que tanto aguardavam e ajudou a formar novos fanáticos.

O Corinthians não era “só” o rival para o Santos. Era o time capaz de conquistar uma tríplice coroa em 2002, depois de faturar a Copa do Brasil e o Rio-São Paulo. Mais do que isso, era um espinho encravado na pele do Peixe, na fresca memória daquele gol agonizante de Ricardinho na semifinal do Paulistão de 2001. Ganhar aquela final tinha um quê de troco. E essa era apenas uma parte do gosto que os santistas podiam sentir. Logicamente, existiam razões maiores, menos figadais. Como, por exemplo, representar o alto da glória de outra fornada dos Meninos da Vila. Ou, ainda mais, buscar um título que até aquele momento (prévio das fusões da Taça Brasil) ainda era inédito aos santistas. Nunca os alvinegros haviam colocado a mão no troféu do Brasileirão. Nem mesmo nos últimos anos de Pelé. Nem mesmo com os milagres de Giovanni.

Na fase de classificação, uma das vitórias mais notáveis do Santos aconteceu justamente diante do Corinthians. O Peixe derrotou os rivais por 4 a 2, em tarde lembrada principalmente pelo golaço do centroavante Alberto. Em uma sobra de bola dentro da área, o artilheiro virou uma bicicleta fulminante, indefensável. Foi uma das 11 vitórias dos santistas, que somaram os mesmos 39 pontos do Cruzeiro, mas terminaram com a última vaga nos mata-matas graças ao saldo de gols. A última rodada, aliás, foi um sinal ao time de Emerson Leão. O time perdeu para o ainda forte São Caetano, mas contou com uma inesperada goleada do Gama sobre o Coritiba, que impediu os paranaenses de tomarem a oitava colocação na tabela geral.

Quando as quartas de final chegaram, o Santos teve vida completamente nova. E aquele elenco ascendente mostrou o seu melhor. O São Paulo de Kaká vinha impressionando no campeonato? Os santistas não quiseram nem saber. Ganharam por 3 a 1 na Vila Belmiro, antes do show do imberbe Diego no Morumbi, com novo triunfo. Depois, o favoritismo estaria outra vez do lado oposto, com o Grêmio de Tite embalado pela conquista da Copa do Brasil no ano anterior e pela semifinal na Libertadores de 2002. Nada que tenha intimidado os Meninos da Vila, fazendo o serviço logo na primeira partida, com os 3 a 0 no litoral. A derrota por 1 a 0 no Olímpico não impediu a festa rumo à final.

O Corinthians era treinado por Carlos Alberto Parreira, pronto a retornar à Seleção. Tinha ainda bons jogadores, embora não fosse a máquina do fim dos anos 1990. Mas foi bastante inferior ao Santos naquelas finais. Afinal, a garotada exibia uma gana imensa de escrever o seu nome história. Para isso é que suaram a camisa naqueles dois jogos. Só isso explica duas atuações tão memoráveis, como aconteceram, para ratificar os méritos do Peixe por ter sido o mais forte no momento em que mais havia pressão.

Diante de 58 mil no Morumbi, o Santos colocou uma mão na taça já na primeira partida. Derrotou o Corinthians por 2 a 0, em tarde de Renato – aquele que ainda honra tanto o clube. Aos 15 minutos do primeiro tempo, deu uma enfiada primorosa para Alberto, sempre ele, maltratar os corintianos. Já o segundo gol ficou para o finalzinho, depois de um passe errado de Fabrício. Robinho pegou livre e lançou Renato, se projetando como elemento surpresa. O meio-campista apenas tocou na saída de Doni, abrindo o caminho para o reencontro no domingo seguinte, no mesmo estádio.

Apesar da vantagem, o Santos tinha seus problemas. Alberto estava suspenso e William ‘Batoré’ entrou no comando do ataque. Para piorar, Diego se lesionou logo aos dois minutos, substituído por Robert – justamente o único remanescente da final de 1995. E o começo do jogo foi difícil, com Fábio Costa fazendo defesas salvadoras para manter o placar zerado. Já aos 35 do primeiro tempo, o lance eternizado naquela decisão. Robinho recebeu na ponta esquerda, avançou em diagonal e deu exatas oito pedaladas para cima de Rogério. Então, dentro da área, o garoto cortou para fora e, num movimento praticamente obrigatório depois da humilhação, o volante esticou a perna. Pênalti que o próprio atacante converteu.

No segundo tempo, a torcida do Santos já gritava ‘olé’ e ‘é campeão’. Não tão cedo. Fábio Costa operou mais dois milagres, mas não poderia salvar as cabeçadas de Deivid e Anderson, aos 30 e 39 minutos. Os santistas ficaram apreensivos, já que um gol dos rivais poderia garantir o título ao Corinthians. Mas, dentro de campo, o Peixe deu a resposta na hora exata. O empate saiu aos 44, em excelente trama entre Robinho e Elano, para o meio-campista só escorar. E aquela final não poderia terminar com outro resultado que não fosse a vitória do Santos. Assim aconteceu nos acréscimos. Robinho deu mais um punhado de pedaladas, antes de passar para Léo. O lateral cortou a marcação e bateu com raiva, no ângulo, para decretar a conquista do Brasileirão.

Robinho e Diego, obviamente, são os maiores símbolos daquela campanha. Fábio Costa também virou figura lembrada, pela partidaça na final. Mas há outros tantos personagens a serem exaltados. Júlio Sérgio, que segurou o rojão na meta alvinegra durante a maior parte da campanha e fez boas partidas. Alex e André Luís, uma dupla que se combinava muitíssimo bem no miolo de zaga. O eficiente Maurinho e o idolatrado Léo, que merece as dignas reverências da torcida. Paulo Almeida, o cão de guarda, enquanto Renato e Elano exibiam o talento de dois dos melhores meio-campistas de sua geração, excepcionais nas decisões. Alberto, o camisa 9 que guardou os seus gols para os principais momentos. E, por fim, Emerson Leão, redimido depois de sua passagem frustrante pela Seleção.

Aquele Santos ainda renderia frutos, por mais que algumas peças tenham mudado. Chegou a uma final de Libertadores depois de 40 anos, buscaria o bicampeonato do Brasileirão em 2004, de maneira mais regular e completa. Mas nada que se compare ao turbilhão de sensações daquele domingo de 2002. Uma partida que ajudou a moldar o caráter dos santistas. Em que o orgulho rasgou o peito, por tudo o que representa o clube e que se escancarou naqueles 90 minutos mágicos no Morumbi.