As arquibancadas do Estádio El Sardinero não estavam totalmente lotadas, mas contavam com suas milhares de pessoas. Torcedores interessados em assistir ao jogo de volta do Racing de Santander contra a Real Sociedad pela Copa do Rei, o sonho de ver o time chegar às semifinais. No entanto, a partida não aconteceu. Por decisão dos próprios atletas. Motivo para a torcida se revoltar? Pelo contrário. Os verdiblancos aplaudiram sem parar seus jogadores, que se abraçaram no círculo central enquanto os adversários tocavam a bola e deram uma volta olímpica para agradecer o apoio. A massa entendera perfeitamente que a situação que extrapolara o jogo.

A recusa do Racing em jogar não foi mera birra. Elenco e comissão técnica exigiam que o conselho administrativo, encabeçado por Ángel Lavín, se demitisse antes do pontapé inicial. Não aconteceu. A queixa mais recente se concentra sobre os salários atrasados, há três meses para atletas e há quatro para o restante dos funcionários. Mais do que isso, os jogadores resolveram empunhar também a bandeira dos sócios racinguistas, insatisfeitos há três anos. Uma vontade que também ganha ecos nas arquibancadas, onde os torcedores estenderam uma faixa ‘Fuera chorizos’ durante a manifestação desta quinta.

Desde maio de 2001 o clube é controlado por Francisco Pernía, que recebeu plenos poderes de Ashan Ali Syed, magnata indiano que cansara de seus investimentos no futebol. Pernía permaneceu na presidência por apenas cinco meses, demitido por pressão dos sócios minoritários, donos de 1% do Racing. Mesmo assim, o cartola seguiu mandando nos bastidores, empossando inclusive Lavín, seu amigo de infância. Neste intervalo, a crise se agravou. Os verdiblancos foram rebaixados da primeira à terceira divisão em apenas duas temporadas. Já a dívida chegou à casa dos € 50 milhões, com diversas denúncias de fraudes administrativas, contra Pernía e seus fantoches.

Depois de uma manifestação no início de janeiro, paralisando a partida contra o Almería durante 30 segundos, veio a ação mais contundente dos jogadores. “Eles estão fortes, unidos e convencidos, assim não podemos fazer outra coisa mais do que estar com eles”, afirmou Luis Rubiales, presidente da Associação de Futebolistas da Espanha. “Este elenco tem legitimidade de sobra por aguentar o que estão aguentando”.

A eliminação do Racing na Copa do Rei, com o protesto considerado um W.O., é o de menos. Nesta quinta-feira, uma junta geral de acionistas se reunirá para decidir o futuro dos verdiblancos – e confiam que finalmente consigam a mudança do conselho administrativo. A esperança de que a postura altiva dos jogadores não tenha sido em vão. Que, mais do que garantir os seus salários, também possa salvar um clube com 101 anos de história e 44 temporadas na elite do futebol espanhol.