O racismo ainda não desapareceu no futebol inglês, mas progrediu (Foto: AP)

Inglaterra fez avanços, mas racismo ainda existe e tem novas vítimas

“Nossa comunidade foi esmagada. Quando eu cresci, conhecia todo mundo e todo mundo me conhecia. Agora, você tem os negros. A maioria dos brancos e negros, queira ou não, não se misturam. E então você tem os asiáticos, e pessoas com crianças mestiças. Divide todo mundo. Não tem mais uma verdadeira comunidade e isso fode tudo. É assim em todos os estados e nas ruas de Londres.”

Esse foi Charlie Sargent, em 1998, conversando com o jornal Independent. Esse nome não diz nada para o público geral, mas na Inglaterra é muito mais conhecido. Nos anos 1990, ele liderou um grupo nazista de extrema direita chamado Combat 18, em homenagem a Adolf Hitler. As iniciais do ex-líder alemão são formadas pela primeira e a oitava letra do alfabeto.

>>>> Racismo no futebol: cinco países, e cinco exemplos do que fazer e não fazer

O Combat 18 começou a ganhar as manchetes em 1992, quando ainda era o braço de segurança do Partido Nacional Britânico (BNP na sigla em inglês), o único partido político do país a falar abertamente sobre racismo e apoiar medidas segregacionistas no Reino Unido. No ano seguinte, eles racharam. A principal causa de desentendimento foi a crença da organização paramilitar no conceito de “raça”, enquanto que o BNP defendia a “nação britânica”. O C18 também considerava o partido muito “frouxo.”

Para ser aceito, o homem – a mulher tem de ficar em casa cuidando dos filhos, segundo Sargent – precisaria crer na superioridade da raça ariana e detestar os casamentos inter-raciais, entre outros detalhezinhos facilmente encontrados em livros nazistas. E saber lutar, muito bem, porque o Combat 18 nunca teve pretensões políticas. Não queria saber de ganhar eleições, apenas de “agir”, conceito que abrange qualquer tipo de violência. A prática favorita era enviar bombas em cartas, como para a ex-nadadora medalhista olímpica Sharron Davies, que se casou com o fundista negro Derek Redmond.

Muitos dos integrantes deram os seus primeiros socos e perderam os primeiros dentes em brigas ligadas ao futebol. As firms de hooligans, mergulhadas no ultranacionalismo a partir dos anos 1970, forneciam muita matéria-prima para que o Combat 18 expandisse os seus quadros. Nem todos eles se tornaram selvagens nazistas, mas eram um campo muito fértil para o recrutamento. “O que é o hooligan clássico: o cara da classe trabalhadora, sem nada para fazer, provavelmente sem emprego ou com subemprego, que saiu da escola sem qualificações”, lembra Anna Carolina Fagundes, mestre em Relações Internacionais pela Universidade de East Anglia, em Norwich. “A economia está em frangalhos, governo em frangalhos e, de repente, aparece muita gente com costumes e culturas diferentes. O choque cultural é imenso e demora um pouco para ser digerido. Se você der um culpado, eles vão pular na primeira oportunidade.”

O racismo foi utilizado pelos britânicos nos séculos passados para justificar a escravidão e o colonialismo. A história do fardo do homem branco, de levar o “desenvolvimento” às sociedades menos avançadas. Paradoxalmente, o Reino Unido foi também a primeira nação a proibir o tráfico negreiro e libertar os escravos. Mas algumas coisas não são meramente extintas por causa de uma lei. “Eles são uma nação que conquistou metade do mundo, têm um comportamento de se acharem superiores aos outros povos, outras raças, mas tem o retorno. Os países colonizados vieram para a Inglaterra. Os jamaicanos, por exemplo, foram convocados para lutar a Segunda Guerra e ficaram”, explica Anna Carolina.

>>>> Como a sociedade inglesa levou ao surgimento dos hooligans no futebol

Esse movimento imigratório de massa, principalmente nos anos 1950, coincide com uma época na Inglaterra em que a cultura industrial estava em declínio e começavam a aparecer os primeiros sinais de uma crise econômica grave, cujo auge seria entre os anos 1970 e 1980. Palco da Revolução Industrial, a Inglaterra viu cidades operárias criarem comunidades locais com identificação muito forte. E de repente, essas comunidades foram “invadidas” – nas palavras dos que reclamam – por imigrantes. “Foi uma grande onda de imigração que acabou mudando o perfil da classe operária inglesa e o país”, diz o jornalista britânico Tim Vickery, correspondente da BBC no Brasil. “Quem tem medo da imigração geralmente é o operário sem muita especialização porque o seu posto de trabalho fica vulnerável. Chega o imigrante disposto a trabalhar por menos, é uma ameaça.”

Tim deixa bem claro que a sociedade britânica não é mais ou menos racista do que nenhuma outra. Qualquer país que recebesse tantos imigrantes quanto a Inglaterra de uma vez, passaria pelo mesmo problema. “Conquistas da classe operária na época pós-guerra foram perdidas e havia muitos imigrantes. Isso mexe na mente de muitos mal intencionados e estúpidos. Se houvesse uma mesma situação no Brasil, seria a mesma coisa. É do ser humano”, explica.

As revoltas de Brixton em 1981 foram um dos casos mais sérios de confrontos racistas na Inglaterra (Foto: AP)

As revoltas de Brixton em 1981 foram um dos casos mais sérios de confrontos racistas na Inglaterra (Foto: AP)

Essa raiva encontrava muito espaço no futebol inglês daquela época, em que a violência e a estupidez pareciam fazer tão parte do jogo quanto um escanteio e um arremesso lateral. Em grupo, as pessoas têm menos vergonha de serem idiotas porque não estão sendo idiotas sozinhas. Nos anos 1980, os casos de racismo multiplicaram-se, tanto no esporte, quanto na sociedade. Em 1981, a comunidade negra de Brixton entrou em confronto com a polícia e houve quase três centenas de feridos. Foi um dos mais importantes episódios de confrontos raciais na Inglaterra. No futebol, ao longo da década, houve episódios com fãs do Tottenham, do Newcastle e do Everton, mas um dos casos mais importantes foi com o ex-meia-atacante Paul Canoville, do Chelsea, que foi ofendido pelos seus próprios torcedores.

“Quando John Neal (técnico) me disse para aquecer, comemorei”, contou em entrevista ao Telegraph. “Eu comecei a ouvir o abuso enquanto andava pela lateral do campo pela primeira vez. ‘Seu negro, seu golliwog (um tradicional boneco de pano negro), volte para casa seu negro’. Eu esperava isso nas ruas, mas não em um estádio profissional. Quando me troquei para entrar, as ofensas ficaram mais altas. Muitos torcedores do Chelsea estavam fazendo isso, xingando, jogando bananas. Entrei no jogo, mas, juro por Deus, queria sair imediatamente.”

As firms do Chelsea tinham a reputação de estarem entre as mais violentas e linhas dura da Inglaterra. A Unidade de Futebol do Serviço de Criminologia e Inteligência Nacional do Reino Unido identificou membros dos Chelsea Headhunters como simpatizantes do Partido Nacionalista Britânico. Um caso que mostra um pouco dessa relação foi o ataque do Combat 18 ao editor da fanzine Chelsea Independent, Ross Fraser, que recebeu sete pontos no rosto e teve a visão prejudicada pelo resto da vida porque escreveu que o racismo não tinha espaço no futebol. Dois meses depois dessa investida, quase se machucou mais seriamente ainda quando um membro do C18 tentou esfaqueá-lo.

O Combat 18 também esteve por trás na confusão no estádio Lansdowne Road, em Dublin, que resultou em 20 pessoas feridas. Os torcedores ingleses gritaram a saudação nazista Sieg Heil e cantaram a música “não se renda ao IRA”, movimento separatista irlandês. Os donos da casa responderam com vaias durante o hino nacional God Save The Queen. Colocando a criatividade ao serviço do mal, os britânicos arrancaram os bancos e começaram a lançá-los nas arquibancadas inferiores, que estavam com alguns irlandeses por causa de uma confusão com os ingressos. Houve invasão de campo para fugir dos mísseis e eventualmente a partida foi cancelada.

Apesar de isso ter acontecido em 1995, a situação começou a melhorar nessa década. Descendentes de imigrantes começaram a nascer na Grã-Bretanha, negros assumiram papéis na televisão, apresentando jornais, por exemplo. O BNP começou a se perder na definição do que é ser um “britânico genuíno”. “O Daniel Radcliffe, o Harry Potter, é inglês e o Ashley Cole é inglês. Qual dos dois é mais inglês? O cara é negro, nasceu aqui, filho de britânicos. E agora, como faz?”, provoca Anna Carolina. Especificamente no futebol, houve uma mudança no perfil do público após o desastre de Hillsborough, em 1989, que matou 96 torcedores do Liverpool. Aquela classe operária, o coração das firms de hooligans ultranacionalistas, foi afastada dos estádios, que se tornaram mais receptivos a imigrantes.

Arsenal enfrenta o Norwich City diante do mural apenas com torcedores brancos em Highbury

Arsenal enfrenta o Norwich City diante do mural apenas com torcedores brancos em Highbury

Um caso emblemático dessa mudança de perfil das arquibancadas e de como ela demorou a ser percebida ocorreu no estádio Highbury, antiga casa do Arsenal. Em 1992, o clube fechou a North Stand, setor atrás de um dos gols, para uma reforma completa. Para não deixar a imagem das obras, a direção decidiu fazer um enorme mural simulando os torcedores sentados para ver o jogo. No entanto, as críticas vieram assim que se viu o desenho: todos eram brancos. Houve reclamação de torcida e imprensa pela ausência de minorias étnicas no mural, a ponto de o Arsenal mandar refazer a ilustração.

Outro exemplo, esse com consequências mais sérias, ocorreu com  Ron Atkinson, ex-treinador do Manchester United, ao comentar um jogo na ITV. Ele achava que o microfone estava desligado e chamou o francês Marcel Desailly de “negro preguiçoso.” Foi demitido da emissora, do jornal The Guardian, no qual assinava uma coluna, e até hoje é taxado de racista. “Perdeu não apenas os seus trabalhos, mas também os contratos de publicidade por causa de uma palavra, que mostra o progresso que foi feito contra racistas. Hoje em dia, no futebol inglês, qualquer um que faz manifestação racista é banido para sempre. Aquela palavra que começa com ‘n’ (nigger) e é muito pejorativa com negros está fora (dos estádios)”, conta Vickery.

Está fora, mas não completamente porque o problema não foi extinto na sociedade. Houve um caso no amistoso Brasil x Escócia, disputado no estádio Emirates, em Londres, em 2011. Uma banana foi atirada no gramado quando Neymar fez um dos gols na vitória brasileira por 2 a 0. A delegação brasileira acusou a torcida de racista, e a reação imediata de escoceses e ingleses foi exigir um pedido de desculpas. Afinal, a versão oficial da polícia britânica é de que o responsável pelo ato era um turista alemão que levou a fruta para matar a fome e a deixou escapar da mão. Aí, a própria passividade das autoridades diante de uma explicação pouco convincente merecem alguma desconfiança.

Casos mais famosos ocorreram em campo, envolvendo jogadores de seleção. John Terry foi acusado de ofender o zagueiro Anton Ferdinand, do Queens Park Rangers, e o caso fez o jogador do Chelsea perder a braçadeira de capitão. Em 2011, Luis Suárez, do Liverpool, xingou Patrice Evra, do Manchester United, com termos racistas e pegou oito partidas de suspensão.

Suárez foi punido por ofensas racistas a Evra (Foto: AP)

Suárez foi punido por ofensas racistas a Evra (Foto: AP)

Atualmente, o alvo preferido os idiotas da Inglaterra são os imigrantes, principalmente do Leste Europeu. Esse tipo de racismo continua vigente na sociedade britânica, principalmente depois de recentes crises econômicas. A taxa de desemprego era de 2,6% em 2006. Em 2011, chegou a 8,1%. Esteve em 6,9% em fevereiro, ainda assim muito alto para o histórico do país. “A ideia de que os imigrantes roubam empregos é a história da carochinha mais antiga que existe. Por exemplo, no Brasil, não queremos que os haitianos roubem nossos empregos, mas se fossem alemães, ninguém ia ligar”, rebate Anna Carolina.

Os partidos de extrema direita têm agendas para combater a imigração, com propostas que vão desde de retirar o Reino Unido da comunidade europeia até implementar uma cota para imigrantes. Questionam os benefícios de “gastar dinheiro para sustentá-los”, embora esqueçam que um imigrante só consegue qualquer tipo de verba do Estado depois de cinco anos contínuos de residência na Inglaterra. “Há tensões com a comunidade muçulmana, especialmente desde 11 de setembro (ataque às Torres Gêmeas) e 7 de julho (ao metrô de Londres), e com as ondas de imigração mais recentes do leste europeu. Há muito racismo aberto dentro dos partidos, mas a onda atualmente é mais anti-imigrantes do que racista”, apont Tim Vickery.

A Casa dos Comuns do Parlamento Britânico produziu um relatório, depois do caso de racismo de Suárez, que confirmou a queda nesse tipo de caso no futebol em relação às décadas de 1970 e 1980, mas também admitiu que continua sendo “um problema significativo.” A instituição considera que mais técnicos e membros de diretoria negros, um problema que Sol Campbell encontrou quando tentou começar a carreira com a prancheta, ajudariam, mas não há exatamente uma fórmula mágica. A Inglaterra fez progressos, mas não pode achar que a luta terminou, principalmente quando ainda há tanto ódio contra as minorias de outros países.

VOCÊ TAMBÉM PODE SE INTERESSAR POR:
Talvez nunca seja para sempre: dias depois da banana de Dani Alves, mais racismo na Espanha
León e Cruz Azul dão uma aula de como combater o racismo no futebol
Há 133 anos, o filho de uma ex-escrava se tornava o primeiro negro a defender uma seleção
Uefa pune CSKA por racismo e seguimos tratando do jeito errado o problema
-  A zoeira, meus caros, ela tem limite. Ainda bem