Não são exagerados os paralelos entre o que o Real Madrid faz no futebol masculino e a supremacia do Lyon no feminino. Ao longo desta década, os dois clubes são dominantes na Liga dos Campeões. E aquilo que os merengues tentarão no próximo sábado, buscando emendar o tricampeonato continental, as francesas já festejaram nesta quinta-feira em Kiev. O clube se tornou o maior campeão da história da Champions Feminina, agora com cinco títulos, superando o FFC Frankfurt na contagem geral. Pelo terceiro ano seguido, as Lyonnaises venceram a decisão europeia. Final que guardou suas emoções para a prorrogação, quando saíram todos os tentos na goleada por 4 a 1 sobre o Wolfsburg, de virada. A coroação do esquadrão é mais do que merecida.

Campeão em 2011 e 2012, o Lyon tinha recuperado a taça nas duas últimas temporadas, batendo Paris Saint-Germain e Wolfsburg. As Lobas voltaram a surgir pelo caminho, após terem emendado a dobradinha no Campeonato Alemão e na Copa da Alemanha. Já as francesas vêm de um retrospecto respeitadíssimo em sua liga nacional. Por mais que o PSG tenha aumentado os investimentos nos últimos anos, as Lyonnaises emendaram o 12° título consecutivo na competição. Faltava provar a soberania europeia nesta quinta, em duelo realizado no Estádio Valeriy Lobanovskyi, casa do Dynamo Kiev – com bom público de mais de 14 mil espectadores.

As emoções foram mais escassas durante os 90 minutos regulamentares. O Lyon era melhor desde o primeiro tempo, se impondo no campo de ataque, e ficou com o grito preso na garganta durante a segunda etapa. Aos 23 minutos, uma cabeçada de Amandine Henry foi salva em cima da linha, em lance no qual as francesas reclamaram que a bola entrou. Pouco depois, seria a vez de Eugénie Le Sommer forçar uma ótima defesa da goleira Almuth Schult. Ainda assim, a falta de gols chamava atenção, levando em conta os números arrebatadores de ambos os clubes na temporada. O Wolfsburg, em especial, se limitou aos contra-ataques e só finalizou pela primeira vez após 78 minutos de bola rolando. O zero prevaleceu e o duelo seguiu à prorrogação.

Principal responsável pelos lampejos das Lobas, a dinamarquesa Pernille Harder quase aprontou. Seu chute de fora da área entrou no cantinho e, com a colaboração da goleira Sarah Bouhaddi, as alemãs saíram em vantagem logo aos três minutos do primeiro tempo extra. Contudo, a diferença não se sustentaria. Três minutos depois, Alexandra Popp deixaria o Wolfsburg com uma atleta a menos, ao receber o segundo amarelo. Então, o Lyon não teve piedade. Entre os oito e os 13 minutos, balançou as redes três vezes.

O empate saiu numa bomba de Amandine Henry, aproveitando o passe por elevação de Ada Hegerberg. Depois, quem começou a sobrar foi Shanice van de Sanden. A holandesa saiu do banco de reservas e, voando pelo lado direito, deu três assistências. Primeiro, serviu Le Sommer no pagode, para decretar a virada. Depois, Hegerberg apareceu sozinha na área e definiu, somando o terceiro tento às francesas – a norueguesa chegou a 15 gols na competição continental, estabelecendo o novo recorde na artilharia. Por fim, no segundo tempo da prorrogação, Camille Abily acertou um belíssimo chute de canhota e fechou a conta.

O tento de Abily, além de tudo, é bastante simbólico. Aos 33 anos, a armadora participou de todas as cinco conquistas do Lyon na Champions Feminina. Esta foi a sua última partida como profissional, após ter anunciado a aposentadoria. Ela entrou nos minutos finais justamente para se despedir e, em um dos primeiros toques na bola, acabou por balançar as redes. Reconhecimento mais do que justo a uma das protagonistas nesta hegemonia das Lyonnaises e também uma das maiores estrelas da seleção francesa.

Taça em mãos, o Lyon reafirma a qualidade de seu trabalho entre as mulheres. O investimento do clube é inegável, contando com algumas das melhores jogadoras da França e também vários talentos internacionais. E por aquilo que vem acontecendo nos últimos anos, anda difícil imaginar que uma reviravolta interrompa este sucesso. Ex-jogador da seleção e ídolo do Nantes, Reynald Pedros assumiu o comando técnico nesta temporada e não teve problemas em manter a sequência. Mais do que um ou outro nome, o topo se alcança graças ao conjunto.