A relação de qualquer torcedor com o goleiro de seu clube costuma ser diferente. Se o protetor das redes possui uma missão incumbida apenas a si, a maneira como a torcida o vê também é bastante particular. E dificilmente existe meio termo. Ou você confia no arqueiro do seu time, ou você o execra. Na posição mais profana possível do futebol, em que qualquer erro se torna pecado e causa uma penitência, os homens de luvas são os únicos em campo capazes de serem santificados por seus milagres. É o caso de Roman Weidenfeller. A Muralha Amarela será sempre o seu altar, depois de subir aos céus tantas vezes com a camisa aurinegra. Mas, desde o último sábado, ele ouvirá apenas preces de agradecimento, não mais pedidos de salvação. O paredão se aposenta após 16 anos de serviços prestados ao Borussia Dortmund.

O Dortmund contou com grandes goleiros em sua história. Heinz Kwiatkowski foi o primeiro a se tornar lendário, multicampeão com o clube e também parte da seleção que faturou o mundial em 1954. Hans Tilkowski assumiu como seu herdeiro, eleito o melhor jogador do país em 1965 e deixando o novato Sepp Maier no banco durante a Copa de 1966. Nos anos 1970, depois que Horst Bertram atravessou um período de penúrias, aconteceu a ascensão de Eike Immel, outro que passou anos como opção ao Nationalelf. Wolfgang de Beer o substituiu, criando raízes por sua longa dedicação mesmo quando virou reserva. Stefan Klos se tornou o guardião durante grande parte dos anos 1990, inclusive na conquista da Champions em 1997. E apesar do passado bastante ligado com o Schalke 04, Jens Lehmann merece ser lembrado em sua curta passagem pelos aurinegros.

Roman Weidenfeller chegou no segundo semestre de 2002, justamente durante o auge de Lehmann, importante na conquista da Bundesliga em 2001/02. O garoto de 21 anos vinha para ser reserva, após algumas poucas e boas aparições pelo Kaiserslautern. Tanto é que suas primeiras partidas em Dortmund aconteceram pelo segundo quadro, até ganhar sequência no final do campeonato, diante de uma lesão sofrida por Lehmann. E então titular, em uma relação conturbada no Westfalenstadion, optou por seguir ao Arsenal. O novato seria o novo dono da posição.

A primeira temporada de Weidenfeller como titular do Dortmund, entretanto, não empolgou. Criticado por seus erros, perdeu a posição na virada dos turnos, quando a diretoria contratou Guillaume Warmuz, experiente francês que havia feito sua fama com a camisa do Lens. Naquele momento, até parecia que o jovem se encaixava naquela categoria de arqueiros que despertam pouca confiança. Ainda assim, seguiu trabalhando. Tinha a ajuda justamente de Wolfgang de Beer, o titular em parte dos anos 1980 que foi para o banco na década seguinte, mas tinha o seu nome cantado pela torcida por sempre corresponder. O veterano, que pendurou as luvas em 2001, virou o treinador de goleiros dos aurinegros na mesma temporada em que Weidenfeller desembarcou.

O trabalho silencioso transformou a história de Weidenfeller no Westfalenstadion. Matthias Sammer, que pedira a contratação de Warmuz, deixou o clube e Bert van Marwijk assumiu o comando a partir de 2004/05. Depois de oito rodadas com Warmuz na posição, o holandês recolocou Weidenfeller no 11 inicial. A partir de então, o jovem não largou mais seu posto. Ganhou a confiança dos torcedores e logo passou a ser o goleiro citado nas preces, providenciando milagres vitais. Em tempos de vacas magras em Dortmund, com sérios problemas financeiros enfrentados pelo clube, o camisa 1 mantinha a dignidade. Não à toa, ainda em 2004/05, terminou a Bundesliga eleito por duas vezes o jogador do mês, e também o melhor goleiro segundo a revista Kicker.

Weidenfeller se tornou um dos maiores ídolos do Borussia Dortmund. Além de pegar muito, seu estilo agressivo conquistou a Muralha Amarela. Era um arqueiro pronto a defender a honra do clube, e ajudou a engrandecê-lo no período de reconquistas, com a chegada de Jürgen Klopp. Por mais que a posição sofresse mudanças drásticas, o estilo tradicional do camisa 1 fazia a diferença, entre o bom posicionamento, a elasticidade e os reflexos apurados. O bicampeonato na Bundesliga, em 2010/11 e 2011/12, teve muito de sua participação. Inclusive as vitórias mais saborosas contra o Bayern de Munique.

Neste momento, até se perguntava por que Weidenfeller não seguia os passos de Kwiatkowski, Tilkowski, Immel e Lehmann, ganhando uma chance também na seleção. Por tudo o que apresentava no Borussia Dortmund, o veterano podia ser considerado um injustiçado, embora tivesse suas faíscas com Joachim Löw. Qualquer desentendimento, porém, ficou para trás em novembro de 2013, quando estreou pelo Nationalelf já aos 33 anos. Saiu-se tão bem que virou o reserva de Manuel Neuer na Copa do Mundo de 2014. O devido reconhecimento, como tetracampeão. Não chegou a entrar em campo, o que não tira o seu mérito de estar lá.

Infelizmente, o declínio de Weidenfeller não demorou a vir. As limitações físicas passaram a atrapalhá-lo e logo Roman Bürki chegou para ser o novo dono da posição. A adoração da torcida permanecia, principalmente ao perceber o empenho que se manteve acima de qualquer vaidade. O ídolo sempre a postos para ajudar. Suas aparições se tornaram bem mais raras a partir de 2015. E na atual temporada, não exatamente por sua culpa, as chances marcaram momentos de baixa dos aurinegros. Entrou no fim da segunda derrota contra o Tottenham na Champions e nos 4 a 4 contra o Schalke 04. Voltaria a campo, por fim, neste sábado, nos 3 a 1 para o Hoffenheim.

As frustrações se tornam menores quando são lembrados os bons momentos de Weidenfeller – mesmo que viesse se tornando suscetível às falhas. Agora que o seu tempo já passou, ficam as memórias boas sobre o camisa 1. É o que os aurinegros fizeram questão de exaltar, primeiro no adeus diante da Muralha Amarela, após o jogo contra o Mainz 05 (com direito até ao bandeirão da foto acima), e agora na última partida oficial, entrando em campo durante os últimos minutos em Sinsheim. Aos 37 anos, chegou a hora de Weidenfeller. Chegou a hora de um adeus jubiloso àquele que representa uma era ao BVB, sem nunca trair o seu amor pela camisa.

Mesmo com tantos grandes goleiros na história do Borussia Dortmund, não é exagero colocar Weidenfeller como o principal deles. São 453 jogos, mais do que qualquer outro. E se o camisa 1 não tem mais títulos que alguns dos seus antecessores, a representatividade pesa bastante. Quando forem se lembrar de um arqueiro do BVB, o nome daquele garoto trazido do Kaiserslautern tende a ser o primeiro a vir à mente. Porque ainda mais raros que os goleiros santificados, são aqueles que se tornam verdadeiros padroeiros de um clube. O Westfalenstadion é sua catedral.