Pelourinho decorado para a Copa do Mundo (Bruno Bonsanti/Trivela)

Recife holandesa? Nesta semana, a capital invadida pela Holanda é Salvador

SALVADOR - Parecia um aviso: o carro parou ao lado, na primeira avenida pela qual os visitantes passam ao chegar a Salvador, e começou a esbravejar contra a Copa do Mundo. O trânsito, o caos e tudo de ruim que um torneio desse tamanho traz para uma cidade. Mas à medida que a capital baiana foi se desvendando, cada vez mais essa opinião pareceu isolada.

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Não é preciso nem entrar no centro histórico da primeira sede de governo que o Brasil teve para perceber que os soteropolitanos estão trabalhando em ritmo de Copa. Os morros com casas populares ao redor do elevado que recebe os trilhos do trem, na região do Bonocô, recebem os eventuais visitantes com as calçadas pintadas de verde e amarelo, muitas fitas e bandeiras.

Os turistas estrangeiros começam a ficar visíveis perto da prefeitura. Um letreiro com o nome da cidade é parada obrigatória para a foto, assim como a vista da Marina de Salvador, ao lado do Mercado Modelo. Para chegar lá, pega-se um elevador gigante. “O único jeito para o baiano subir e descer na vida sem gastar muito”, brinca Gilvane dos Santos, guia credenciado pelo município para receber os turistas com um sorriso no rosto, uma pulseira do Senhor do Bonfim, “que só baiano pode amarrar”, e um colar do Olodum. Depois de apontar os pontos turísticos, tenta vender colares de prata por R$ 25 cada um. Tem de São Jorge, crucifixo e até o chinelo da Ivete se o seu negócio for mais axé que religião. Porque, afinal, um baiano precisa de mais do que um elevador para subir na vida.

A torcida estrangeira está bem variada. Predominam os espanhóis e holandeses, rivais no primeiro jogo de Copa do Mundo na Arena Fonte Nova, na próxima sexta-feira, mas também há alemães, portugueses e africanos, muito interessados na estátua do Zumbi dos Palmares que fica entre a praça da prefeitura e o Terreiro de Jesus.

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No Terreiro, à esquerda da barraca Acarajé da Dilma, um grupo de capoeira cuida do entretenimento. Tenta atrair os turistas mais tímidos e diverte os espontâneos, que param para as fotos e tentam esticar a perna como se não fossem completamente travados e duros. As mesas laranjas, patrocinadas por uma marca de cerveja, misturam-se com os torcedores holandeses, nacionalidade da maior parte das pessoas que sentam, bebem e aproveitam o Mundial.

Torcedores holandeses em bar de Salvador (Bruno Bonsanti/Trivela)

Torcedores holandeses em bar de Salvador (Bruno Bonsanti/Trivela)

O grupo mais divertido tem cerca de dez pessoas, todas com a mesma camiseta. São funcionários da empresa EcoSupporter, próxima a Amsterdã. Todas as contas foram pagas pela companhia, o que explica um pouco o tamanho da alegria do grupo, que ri, canta, brinca e chama a atenção de todo mundo. “É um evento tão especial e está tudo pago pela empresa. A cidade é maravilhosa. Vamos ver o jogo do Brasil e depois voltar aqui para fazer mais festa”, afirma o holandês Marc Valkering, 48 anos, torcedor do AZ Alkmaar. Ele nota que o palco que está sendo montado na praça ainda não ficou pronto. Acha que é para a abertua, mais tarde. “Típico brasileiro?”, pergunta, e eu prefiro não responder. Ainda bem: a estrutura não tem nada a ver com o torneio. É para a festa de São João, semana que vem.

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Efetivamente, a Copa do Mundo só começa na sexta-feira em Salvador, mas nada vai impedir holandeses e espanhóis, portugueses e alemães, brasileiros e soteropolitanos de começarem a festa imediatamente.