Contra-produtiva, desnecessária e injusta. Foram os adjetivos usados no debate sobre a regra dos gols fora de casa no congresso dos principais técnicos da Europa na sede da Uefa, em Nyon, na Suíça, nesta quinta-feira, que contou com a participação de diversos nomes importantes do continente. A reunião era para discutir diversas questões relacionadas ao futebol e ao modo como ele é jogado. Alex Ferguson, ex-técnico do Manchester United e um dos mais notáveis presentes, é um dos que acredita que a regra dos gols fora fazia sentido quando foi criada, mas caducou.

LEIA TAMBÉM: A importância que os gols fora de casa não deveriam receber

Além de Ferguson, estavam presentes Arsène Wenger (Arsenal), Luis Enrique (Barcelona), Josep Guardiola (Bayern de Munique), José Mourinho (Chelsea), Jürgen Klopp (Borussia Dortmund), Roger Schmidt (Bayer Leverkusen), Manuel Pellegrini (Manchester City), Filippo Inzaghi (Milan), Míchel (Olympiacos), Carlo Ancelotti (Real Madrid), Laurent Blanc (Paris Saint-Germain), Jens Keller (Schalke 04), André Villas-Boas (Zenit), Jorge Jesus (Benfica), Massimiliano Allegri (Juventus), Mircea Lucescu (Shakhtar Donetsk), Unai Emery (Sevilla), Nuno Espírito Santo (Valencia) e Rafael Benítez (Napoli).

A regra dos gols fora de casa foi criada em 1965, depois do que aconteceu na temporada 1964/65 no confronto entre Liverpool e Colônia, nas quartas de final da Copa dos Campeões. No primeiro jogo, na Alemanha, os dois times empataram por 0 a 0. No segundo, na Inglaterra, novo empate sem gols. Um terceiro jogo, então, foi disputado em Roterdã, na Holanda. Desta vez, os dois times empataram por 2 a 2. Então, a solução foi o sorteio. O Liverpool avançou no cara ou coroa para a semifinal.

Foi então que a regra foi criada e já valeu na temporada 1965/66, na Recopa, competição atualmente extinta e que reunia os campeões das copas nacionais. Colocar os gols fora de casa como um fator de desempate era visto como uma forma de tornar o jogo dos visitantes menos defensivo. Além disso, a dificuldade em jogar fora de casa, naquela época, era muito maior, com viagens muito mais complicadas, clima muito mais tensos, gramados ruins, condições adversas de infraestrutura para os times visitantes e etc. Sentiu o cheiro de Libertadores por aí?

“Há um pouco de debate se ela tem algum significa hoje”, disse Ferguson. “Alguns acham que não é tão importante quando costumava ser… E a ênfase significa que mais times vão fora de casa e vencem”, argumentou o treinador escocês, duas vezes campeão da Liga dos Campeões pelo Manchester United, nas temporadas 1998/99 e em 2007/08, além de finalista em 2010/11, quando foi derrotado pelo Barcelona.

LEIA TAMBÉM: O protesto da torcida do Legia contra os porcos capitalistas da Uefa ficou sensacional

“Se nós voltarmos, digamos, 30 anos, o contra-ataque consistia em um, ou talvez dois jogadores. Hoje, os contra-ataques têm jogadores indo para frente em cinco ou seis e muito positivos, passes rápidos”, disse Ferguson. “O que tem ajudado é que o estado dos gramados. Os gramados são fantásticos hoje em dia, então sair da defesa com passes é muito mais fácil do que era há 30 anos e você tem uma atitude melhor no contra-ataque hoje do que há 30 anos”, explicou ainda o escocês.

Houve casos em que a regra do gol fora de casa se tornou muito debatida por ser considerada injusta. Na temporada 2002/03, Internazionale e Milan se enfrentaram nas semifinais. Os dois times mandam seus jogos no mesmo estádio, em San Siro. Depois de um empate por 0 a 0 com mando do Milan, os times empataram por 1 a 1 no jogo de volta, com mando da Inter, e os rubro-negros avançaram pelos gols fora de casa – mesmo que o estádio, nesse caso, tenha sido o mesmo. No Brasil, pela Copa do Brasil de 2002, São Paulo e Corinthians fizeram dois jogos das semifinais no Morumbi, e a regra foi excluída. O alvinegro venceu o primeiro jogo por 2 a 0, perdeu o segundo por 2 a 1, e avançou à final. Em 2013, Flamengo e Botafogo viveram a mesma situação: se enfrentaram em dois jogos no Maracanã pela Copa do Brasil, pelas quartas de final. O regulamento previa que se os jogos acontecessem no mesmo estádio, a regra do gol fora seria desconsiderada. Depois de empate por 1 a 1 na ida, o Flamengo goleou por 4 a 1 na volta e avançou.

LEIA TAMBÉM: França pode ter apenas dois times na LC, e quem ganha espaço é a Rússia

Efeito inverso

Um dos objetivos da regra do gol fora de casa era que os visitantes atacassem mais. Só que isso se tornou invertido, ao menos para Arsène Wenger, técnico do Arsenal desde 1995 – e que leva o time à Liga dos Campeões há 17 anos consecutivos. “Às vezes eu acho que tem um efeito contrário nos times que jogam em casa de não sofrer gols”, disse o Wenger ao jornal The Telegraph. “Em casa, a primeira coisa que o técnico diz é ‘não vamos sofrer gols’”, afirmou o francês. O seu ex-rival, Ferguson, concorda. “De um ponto de vista pessoa, quando eu estava jogando em casa, eu costumava dizer a mim mesmo: ‘não sofra um gol’”, declarou o técnico ao Guardian.

Um outro problema da regra dos gols fora de casa adotada pela Uefa é que ela continua valendo em caso de prorrogação. Caso os times tenham o mesmo placar, mas de forma invertida, nos dois jogos, a disputa vai para a prorrogação e o gol fora de casa eventualmente acaba sendo decisivo.

Como, por exemplo, no duelo entre Napoli e Chelsea, na temporada 2011/12. Depois de uma derrota por 3 a 1 na Itália, o Chelsea conseguiu vencer por 3 a 1 em casa e levou a partida para a prorrogação. Foi nesse tempo extra que Branislav Ivanovic marcou o gol que deu a classificação ao time inglês. Mas se o Napoli tivesse empatado o jogo na prorrogação, teria avançado pelo gol fora de casa, mesmo sendo na prorrogação. Esse é um ponto que a Uefa precisa urgentemente alterar: se a regra do gol fora de casa será mantida, ao menos tem que ser anulada na prorrogação. Ou que não haja prorrogação e a disputa vá direito aos pênaltis.

A regra do gol fora de casa foi adotada em vários campeonatos no mundo, inclusive no Brasil, onde é empregada na Copa do Brasil. Na América do Sul, a regra foi implantada para diminuir o número de decisões nos pênaltis, muito frequentes naquela época, como mostramos nesta matéria. Nas competições sul-americanas, a regra passou a valer a partir de 2006, mas só até a fase semifinal. Na final, a Conmebol, inexplicavelmente, resolve que essa regra não vale. Uma discussão que deve aumentar se a Uefa resolver deixar de adotar esse critério de desempate.

VOCÊ PODE SE INTERESSAR TAMBÉM: 

– Russos temem que times da Crimeia levem o país a perder a Copa de 2018

– Saiba por que a Uefa puniu o Estrela Vermelha, mas não PSG e Manchester City

– Fifa muda regras para impedir concorrentes a um novo mandato de Blatter