Jérôme Champagne surgiu como uma nova cara na corrida presidencial da Fifa. O francês trabalha nos bastidores do futebol há tempos, mas só agora, que lançou sua candidatura, é que se torna figura conhecida. O fato de ter trabalhado por anos ao lado de Joseph Blatter depõe contra a sua índole. Mas vale dar uma chance para ouvir o presidenciável. E, pelo menos neste início, ele possui propostas interessantes. Como regular o mercado de transferências. Um assunto que mexe com vários interesses, mas que, por enquanto, vem sendo bem costurado.

Champagne quer dar mais voz aos clubes. Faz total sentido, já que o futebol de seleções perde forças gradativamente – e são justamente os patrocínios da Copa do Mundo que sustentam a Fifa. Controlar de melhor maneira o vai e vem das contratações seria um passo nessa aproximação. E a maioria das ideias lançadas pelo francês nesse início de campanha tem grande penetração, mesmo que limitem algumas liberdades atuais. Os cinco principais pontos são os seguintes:

- A criação de uma divisão específica para cuidar dos clubes dentro da Fifa
- A representação de ligas, clubes e jogadores no Comitê Executivo
- A criação de uma ‘Câmara do Futebol’ dentro do Tribunal Arbitral do Esporte
- A limitação de transferências e empréstimos no meio da temporada
- A proibição que terceiros seja donos dos jogadores (os famosos empresários)

A iniciativa do dirigente, aliás, se aproxima da FIFPro, entidade que representa os jogadores profissionais dos países filiados à Fifa. Em dezembro, a organização lançou um manifesto no mesmo sentido, se contrapondo principalmente ao fato de que agentes possam ser os donos dos direitos dos jogadores, e não apenas só os clubes. Algo que voltou à tona nesse início de ano, com a nebulosa transferência de Neymar ao Barcelona. Inglaterra e Polônia, que preveem em suas legislações esportivas a proibição da propriedade de terceiros, são os exemplos.

E o controle maior sobre os clubes também poderia diminuir o desequilíbrio de poder entre os clubes. Não quer dizer que os grandes magnatas, como Chelsea e Paris Saint-Germain, será impedidos de torrarem milhões com reforços – assunto que é da alçada do Fair Play Financeiro.  Mas uma racionalidade em um sistema que funciona praticamente sem nenhum tipo de controle é bem-vinda, até para não tornar todos os problemas casos de justiça desportivo.

Estes primeiros posicionamentos ajudam Champagne a ganhar a confiança de setores responsáveis pelas ligas, pelos jogadores e pelos clubes. Um grande passo. No entanto, se ele quiser mesmo ser presidente da Fifa, os votos só poderão ser conquistados junto às federações. E é difícil de imaginar que somente a boa vontade será suficiente para combater o sistema.