O técnico Carlo Ancelotti foi demitido do Bayern de Munique nesta quinta-feira, um dia depois da derrota pesada por 3 a 0 para o Paris Saint-Germain, na capital francesa. A queda do italiano se dá por um conjunto de motivos, mas o relacionamento conturbado com os jogadores é um fator que pesa, somando ao mau desempenho do time, especialmente no setor defensivo. O time sofreu cinco gols em seis jogos da Bundesliga, além de três gols do PSG na Champions League. Além de tudo, as escalações do técnico causam estranheza – e seriam um dos motivos das desavenças com os jogadores.

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Desde que chegou ao clube, no meio de 2016, Ancelotti procura uma formação ideal para o time, mas não conseguiu dar consistência ao time. No 4-3-3, viu o time perder rendimento em vários momentos e abriu mão de jogadores importantes que funcionavam com Guardiola. Thomas Müller foi o primeiro a se mostrar insatisfeito e, não por acaso, teve uma das suas piores temporadas pelo clube em 2016/17. Pela ponta não rendia tão bem, pelo meio o técnico preferia um meio-campista coo Thiago. Ficou sem espaço.

A ausência de Müller não seria um problema se o time rendesse em campo, mas não ia bem. Tanto que a liderança só foi tirada do RB Leipzig no final do primeiro turno. O técnico mudou o esquema para 4-2-3-1, dando a Thiago o papel de armador central. Müller continuou relegado a mais reserva que titular. Os pontas não rendiam tanto e a rotação excessiva de jogadores no setor incomodava alguns jogadores. Lewandowski muitas vezes precisava se virar no ataque, sem aproximação, como tinha com Thomas Müller nos melhores momentos do time antes de Ancelotti.

Com o Bayern nunca rendendo tão bem quanto na temporada anterior, quando ainda tinha Guardiola no comando, os bávaros foram eliminados de forma dolorida para o Real Madrid. A arbitragem contestável em Madri, no jogo de volta, acabou amenizando a análise do time, que foi mal em campo. Rendendo menos que o esperado, o time ainda terminaria 2016/17 com o título alemão, mas perdendo a Copa da Alemanha na semifinal para o Dortmund e com a sensação que precisava dar um passo além.

A pré-temporada muito ruim, com muitas derrotas a atuações muito abaixo da média, deixaram preocupações. A pré-temporada não podem ser definitivas na análise, mas deixaram o sinal de alerta ligado. A falta de consistência do time seguiu neste início de temporada, o técnico continuou rodando demais o elenco e as insatisfações foram aumentando.

Sem Philipp Lahm e Xabi Alonso, o time ficou com uma falta de liderança em campo. Ainda mais com a ausência prolongada do goleiro Manuel Neuer, que herdou a braçadeira de capitão. Os problemas foram se empilhando. Assim como os atritos com um elenco de jogadores muito experientes e com personalidade forte. Sem render, a ideia do técnico perde força.

Alguns jogadores já tinham deixado sua insatisfação ser notada, especialmente Franck Ribéry. Arjen Robben, Robert Lewandowski e Thomas Müller também chegaram a mostrar discordâncias com o treinador. E a escalação do time no jogo contra o PSG já indicava algo. Robben, Ribéry e Hummels estavam no banco e Jérôme Boateng sequer foi relacionado. Depois do jogo, perguntado se o elenco estava com Ancelotti, Robben se recusou a responder. Se limitou a dizer que era uma derrota pesada e era difícil falar sobre isso.

Comentarista da Sky Sports na Alemanha, o ex-capitão do Bayern e da seleção elmã Lothar Matthäus disse que a relação entre o técnico e Ribéry estava ruim há muito tempo e não parecia ter volta. Há dez dias, um dos mais lendários técnicos da Itália, Arrigo Sacchi, que é comentarista atualmente e conhece muito bem Ancelotti, disse que o técnico deveria deixar o clube.

“Parece que mudanças seriam boas para o Bayern”, afirmou Sacchi. “Você fica mais velho e perde a paixão e aquele desejo total. É a vida. Para mim, parece que o time perdeu o seu entusiasmo. Ele [Ancelotti], no entanto, é um grande técnico. Que outro técnico ganhou a Champions League três vezes? Ele foi bem sucedido por todo o mundo”, analisou o ex-treinador do Milan e da seleção italiana, no dia 18 de setembro.

Depois disso, a situação se complicou. No dia 9 de setembro, o Bayern já tinha perdido para o Hoffenheim, fora de casa. Emplacou três vitórias consecutivas depois, uma sobre o Anderlecht, outras sobre o Mainz e o Schalke 04. O empate por 2 a 2 na última rodada da Bundesliga contra o Wolfsburg já tinha abalado as estruturas, mas a derrota abismal para o PSG por 3 a 0 foi a gota d’água. E isso fica claro na nota divulgada pelo Bayern.

“O desempenho do nosso time desde o começo da temporada não alcançou as nossas expectativas. A partida em Paris mostrou claramente que nós tínhamos que tomar uma ação imediata. Hasan Salihamidzic e eu nos reunimos com Carlo hoje para conversas completas e francas, onde informamos a ele da nossa decisão”, disse Karl-Heinz Rummenigge, presidente do Bayern, na nota oficial do clube.

“Eu gostaria de agradecer pelo seu tempo trabalhando conosco e eu lamento pela forma como as coisas aconteceram. Carlo é meu amigo e irá permanecer assim, mas nós tínhamos que tomar uma decisão profissional pelos interesses do Bayern. Eu espero que o time produza uma resposta positiva e mostre absoluta determinação para atingir nossos objetivos para a temporada”, explicou ainda o dirigente.

Além de Ancelotti, deixam o clube Davide Ancelotti, Giovanni Mauri, Francesco Mauri e Mino Fulco. Willy Sagnol, de 40 anos, assistente técnico da comissão permanente do clube, assume interinamente como técnico. Ele estará no comando do time na partida de domingo contra o Hertha Berlim. Sagnol dirigiu o time sub-21 da França entre 2013 e 2014, antes de comandar o Bordeaux entre 2014 e 2016, quando foi para o Bayern trabalhar na comissão técnica da clube que defendeu como jogador.

Em terceiro lugar na Bundesliga com 13 pontos, o time está a três do atual líder, Borussia Dortmund, e a um do Hoffenheim. A situação está longe de ser trágica, ainda que o desempenho do time tenha caído, especialmente comparando ao que jogava nos tempos de Pep Guardiola, de 2013 a 2016. O catalão deixou o clube contestado por algumas ex-estrelas do clube, especialmente por ter perdido as três semifinais que chegou – para três times espanhóis, curiosamente. Ancelotti, porém, caiu uma fase antes, nas quartas, para o Real Madrid, que acabaria campeão.

Com a demissão de Ancelotti, o Bayern se vê em um dilema. Informações da Sky Sports na Alemanha e do Deutsche Welle indicam que Thomas Tuchel é cotado para assumir o cargo imediatamente. Julian Nagelsmann, que já declarou que é o seu sonho dirigir o clube da região onde nasceu, não deixará o Hoffenheim antes do fim da temporada. Por isso, especula-se se Willy Sagnol pode ficar até o fim da temporada para depois o Bayern trazer Nagelsmann; ou se contrata um treinador já para longo prazo neste momento, e aí Tuchel ganha força.

Em um time que parece planejar as coisas com tanta antecedência, uma demissão como essa e um dilema deste porte são até inesperados. Em 2013, meses antes do time ganhar a tríplice coroa e a tão sonhada da Champions League com Jupp Heynckes, anunciou a chegada de Guardiola. Em 2016, quando estava claro que Guardiola deixaria o clube, quase seis meses antes foi anunciada a chegada de Ancelotti.

Agora, o Bayern se vê em uma situação a tantos clubes do mundo, inclusive muitos brasileiros, que demitem o técnico após uma série de resultados ruins. Depois de pouco mais de um ano no cargo, Carlo Ancelotti fica sem emprego. E , talvez, seja uma sombra em alguns times, como em um dos que já comandou, o Milan, que vê Vincenzo Montella começar a ser questionado.

Ao Bayern, qualquer coisa que não seja o título alemão e ao menos chegar à semifinal da Champions League será algo abaixo da expectativa. E este é um objetivo difícil seja para quem for.