Já foi citada aqui uma pesquisa, feita pelo site do diário holandês “Algemeen Dagblad”, indagando aos visitantes para qual das 32 seleções classificadas para a Copa do Mundo iria a torcida deles. E também foi citado o resultado – então momentâneo, agora certo, com o fim da pesquisa: Marrocos ficou com 55 por cento. Justificável. Afinal de contas, além da grande massa de imigrantes, defendem os Leões do Atlas jogadores que se destacam na Eredivisie atual, além de terem até nascido na Holanda: Karim El Ahmadi, Sofyan Amrabat, Mbark Boussoufa, Hakim Ziyech e Mimoun Mahi. Abaixo, ficaram países vizinhos e fronteiriços, com os quais a Holanda tem forte rivalidade: Bélgica (16 por cento) e Alemanha (7 por cento).

VEJA TAMBÉM: AZ mostra o caminho para viver tranquilo no Campeonato Holandês

Porém, não foi muito citado outro país que terá seleção na Rússia: a Dinamarca. De todos, talvez, a nação que tem mais vínculos com o futebol holandês. E boa parte desses vínculos, graças ao Ajax. Fora a Holanda, nenhum outro país teve tantos jogadores no clube de Amsterdã (até agora, são 25). Certo, vários outras nações europeias tiveram alguma ligação forte com os Godenzonen – marcada por uma passagem marcante de alguém: a Finlândia de Jari Litmanen, ou a Suécia de Stefan Pettersson e Zlatan Ibrahimovic. Mas a história dinamarquesa com a agremiação da estação Bijlmer Arena vem de longe. E perpassou momentos importantes da história Ajacied.

Basta dizer que o primeiro jogador danês a ter vestido a clássica camisa branca com a faixa central vermelha chegou na temporada 1969/70, selecionado por Rinus Michels, quando o Ajax passava pelos ajustes finais para tomar de assalto o mundo do futebol a partir do ano seguinte. Era o atacante Tom Sondergaard, com relativa experiência: afinal, jogara a Euro 1964 pela seleção. Só que não deixou grandes memórias em Amsterdã – por problemas disciplinares, Sondergaard saiu do clube tão logo acabou aquela temporada, indo para o Metz.

Sem problemas. Na experiência seguinte, o Ajax ganhou dois dos mais importantes personagens de uma época, para o clube holandês e a seleção dinamarquesa. Em 1975, Rinus Michels – de volta ao Ajax como diretor técnico, após a marcante passagem pelo Barcelona – autorizou pessoalmente a contratação de dois jovens vindos do Fremad Amager (clube do Amager, bairro da capital Copenhague). Tratavam-se de dois meio-campistas: um atuando mais à frente, Frank Arnesen, e outro cuidando mais da marcação, Soren Lerby.

Mesmo que o “Futebol Total” já não fosse uma exclusividade do Ajax, e que o clube não tenha obtido sucesso em torneios continentais durante o resto dos anos 1970, Arnesen e Lerby se converteram em destacados jogadores. Não só viraram titulares absolutos durante todo o tempo em que atuaram no clube (Arnesen, entre 1975 e 1981; Lerby, entre 1975 e 1983), mas usaram dos cânones do Futebol Total para se converterem em meio-campistas completos.

A partir daí, também não foi difícil que ambos virassem fundamentais também para uma seleção dinamarquesa que mudava, graças à profissionalização nascente do futebol no país. Parceiros dentro e fora de campo, Arnesen e Lerby eram nomes certos nas convocações do técnico Kurt Nielsen. Mas tinham de conciliar, cada vez mais, a mentalidade profissional que encaravam no Ajax com o espírito totalmente relaxado que sempre foi preferencial na Dinamarca.

Em sua biografia, Arnesen se lembrou de uma série de treinos para a seleção, no verão de 1978, quando Kurt Nielsen prometeu algo especial para o treino: “Nós nos surpreendemos, de certa forma, quando chegamos ao terraço da sede do clube [Skovshoved, onde treinaram]. Kurt havia convidado alguns amigos, e a mesa estava lotada de deliciosos smorrebrod [sanduíches típicos do país], mais cerveja e destilados. Foi muito bacana, embora eu e Lerby, que estávamos acostumados à disciplina no Ajax, não estivéssemos entendendo muito. Mas bebemos a cerveja, os destilados, e tivemos um ótimo dia”.

VEJA TAMBÉM: Um jogo simbolizou o impasse pelo qual passa o futebol holandês

Se o regime a que ambos estavam se acostumando colidia com as noções um tanto flexíveis de Kurt Nielsen sobre treinos e preparações, ele se encaixou perfeitamente com a firmeza que o técnico alemão Sepp Piontek trouxe para a seleção dinamarquesa tão logo foi contratado, em 1979. Não só Arnesen e Lerby se tornaram cada vez mais importantes na seleção titular, mas também estimularam a mudança de mais gente de seleção (dinamarquesa, no caso) para o Ajax. Como o atacante Henning Jensen, já veterano quando foi para Amsterdã. Como o armador Jesper Olsen. Como o defensor/meio-campista Jan Molby.

Em sua última temporada no Ajax (1980/81), Arnesen já era o capitão, com apenas 22 anos. Deixou o clube rumo ao Valencia, mas ganhara no Ajax a sabedoria profissional e o aprimoramento técnico. Entregou a braçadeira a… Lerby, que ficou até 1983, quando tomou o caminho do Bayern de Munique. Resultado: Arnesen, Lerby, Jesper Olsen e Jan Molby foram parte fundamental da seleção que fez eclodir a Dinamarca no cenário mundial do futebol – com a campanha de semifinalista na Euro 1984 e, principalmente, com as atuações tão fugazes quanto marcantes na Copa de 1986.

Depois, Arnesen e Lerby defenderam até o PSV, no final de suas carreiras. Mas era inegável: para sempre teriam a marca do Ajax em suas carreiras. Haviam sido os “cupidos” do casamento entre um país e um clube de futebol. Ou talvez, do casamento entre jogadores que se tornaram, inevitavelmente, discípulos de Johan Cruyff, que voltou ao clube em 1981 – Jan Molby reconheceu, em sua biografia: “[Cruyff] era como um rei em seu território. Ele sabia tudo, e você não podia fazer nada além de ouvir. Às vezes você queria que ele calasse a boca, mas ele não o faria”. Claro, a privilegiada geração se encarregaria de fazer as devidas adaptações táticas em campo, conforme acrescentou outro luminar, Preben Elkjaer-Larsen: “Tínhamos muitos jogadores que atuavam na Holanda naquela época [anos 1980], mas o esquema era nosso: jogávamos no 3-5-2, e eles no 4-3-3. Apenas o espírito tinha um pouco a ver com o holandês: queríamos ter a bola, fazê-la correr, e deixar os outros buscarem”.

De todo modo, a relação Ajax-Dinamarca estava traçada. Seria aprofundada nos anos 1990 – principalmente na segunda metade da década, quando foram titulares absolutos da equipe Ole Tobiasen, Michael Laudrup (exatamente na temporada final da carreira), Brian Laudrup e Jesper Gronkjaer, todos treinados por Morten Olsen. Assim seguiu pelos anos 2000, com Dennis Rommedahl e Kenneth Perez obtendo certo destaque – curiosamente, quem virou figura popular na Holanda foi Perez, menos conhecido em termos de seleção (ainda passaria por PSV e Twente, e hoje é comentarista da FOX Sports holandesa).

Na década atual, o começo trouxe até uma revalorização de jogadores holandeses dentro do clube: sob Frank de Boer, foram titulares por algum tempo (longo ou curto) Nicolai Boilesen, Christian Poulsen, Viktor Fischer e, principalmente, Christian Eriksen. Na mesma época, Lasse Schöne veio do NEC. E cabe ao meio-campista – do grupo atual, quem está no Ajax há mais tempo – manter, junto de Kasper Dolberg, a tradição dinamarquesa no clube. Porque embora haja na seleção atual até um destaque do arquirrival Feyenoord – claro, Nicolai Jorgensen -, os jogadores supracitados provam que, futebolisticamente, Amsterdã e Copenhague têm algo em comum.

A lista de jogadores dinamarqueses no Ajax:

Tom Sondergaard (1969-1970)
Frank Arnesen (1975-1981)
Soren Lerby (1975-1983)
Henning Jensen (1979-1981)
Sten Ziegler (1980-1981)
Jesper Olsen (1981-1984)
Jan Molby (1982-1984)
Jan Sorensen (1987)
Dan Petersen (1991-1994)
Johnny Hansen (1992-1994)
Ole Tobiasen (1997-2002)
Michael Laudrup (1997-1998)
Jesper Gronkjaer (1998-2000)
Brian Laudrup (1999-2000)
Michael Krohn-Dehli (2006-2008)
Kenneth Perez (2006-2007 e 2008)
Christian Poulsen (2012-2014)
Lucas Andersen (2012-2016)
Dennis Rommedahl (2007-2010)
Christian Eriksen (2010-2013)
Nicolai Boilesen (2011-2016)
Lasse Schöne (2012-)
Viktor Fischer (2012-2016)
Niki Zimling (2014-2015)
Kasper Dolberg (2016-)