Há momentos em que o futebol serve apenas de pretexto. De gancho, para falar mesmo sobre a vida. E quando se pensa no que aconteceu com Renanzinho – meio-campista revelado pelo Avaí que faleceu nesta quinta, aos 20 anos, vítima de um tumor cerebral – o futebol é apenas uma parte ínfima de um universo muito maior. Lamenta-se a carreira brilhante que poderia ter sido, mas se perde num rompante. E lamenta-se infinitamente mais o ser humano que se vai e que, segundo pessoas próximas, era passível de tantos elogios. O ser humano que tinha muito mais a construir e a viver. Lamenta-se pela família e pelos amigos, que sofrem pelo vazio daquilo que não voltará mais. Vazio que só o tempo dará conta, e será preenchido com saudade – aquele sentimento que preserva o amor e proporciona o orgulho pelo que se compartilhou em vida, assim permitindo seguirem em frente.

Renanzinho chegou ao Avaí em 2013. Nascido em Rondônia, mudou-se para o Paraná e atuou no Arapongas, até integrar as categorias de base do Leão. Não demorou a causar impacto, promovido ao elenco principal em 2015, quando tinha apenas 17 anos. Volante daqueles de servir de motor ao time, logo se destacou na Ressacada, somando 30 partidas em seu primeiro ano como profissional. Já era observado por outros clubes, do Brasil e do exterior – e, conforme a bela homenagem do amigo Pedro Venancio em seu blog, esteve prestes a se transferir ao Internacional. A carreira parecia indicar apenas passos maiores, quando precisou ser interrompida para que a vida fosse priorizada.

A descoberta do tumor aconteceu no final de 2015, embora só tenha sido revelado publicamente meses depois. Renanzinho passou por duas cirurgias, retirando 70% do tumor, para que não afetasse algumas de suas funções básicas. Foi submetido a outros tratamentos, como a quimioterapia. Lutou por dois anos, atravessando inclusive alguns momentos de melhora. Contudo, nesta quinta, não resistiu à doença.

É importante ressaltar que o Avaí se manteve ao lado de Renanzinho ao longo do tratamento, como todo e qualquer clube deveria fazer. Deu o apoio necessário com a sua equipe médica e ajudou a arcar com os custos. Mais do que isso, chegou a liderar uma campanha para comprar uma casa à família do meio-campista. Além de convocar uma arrecadação, o Leão doou a renda da partida contra o Brasil de Pelotas em 2016, para viabilizar o sonho. Já nesta quinta, em meio às lágrimas, o auditório da Ressacada recebeu o velório.

Por mais que a morte tenha acontecido em um momento inesperado, parte da família de Renanzinho já estava reunida em Florianópolis. Na véspera, seu irmão mais novo, Luanzinho, havia se formado no Ensino Médio. O adolescente também é meio-campista do Avaí e disputou 19 partidas no último Campeonato Brasileiro. Segue em frente para manter a memória de Renan viva na Ressacada.

“O Renan era muito querido por todos nós. Deus sabe o que faz e vai recebê-lo com o carinho que nós procuramos passar a ele até aqui, em seus últimos momentos. Será um desafio grande conviver com a sua ausência, mas vamos continuar amparando o irmão Luan e dar todo o apoio a ele nesta caminhada”, declarou o pai dos jogadores, Edson Pereira, durante o velório de Renan.

Mesmo curta, a passagem de Renanzinho pela vida deixa marcas indeléveis. Na família e nos amigos, as mais profundas. Mas também no clube onde ele conquistou tanta gente nos corredores, inclusive pelo exemplo. E em uma legião de torcedores, que certamente se lembrarão do garoto com gratidão. Que ajudarão as suas lembranças durarem ainda mais.