O Estádio Olímpico estava devidamente ornamentado para a festa. Mais de 60 mil pessoas pintaram as tribunas de amarelo e preto, empurrando o AEK Atenas. E o time não decepcionou: derrotou o Levadiakos por 2 a 0, o suficiente para desatar a comemoração. Enquanto ‘We are the champions’ tocava no sistema de som e os jogadores se abraçavam, os atenienses clamavam seu 12° título nacional, o primeiro desde 1993/94. No entanto, há um detalhe importantíssimo. Para que a conquista seja ratificada, a Dikefalos Aetos ainda aguarda a decisão dos tribunais. Mas, ao que tudo indica, o juiz não colocará água no chope dos aurinegros.

A confusão acontece por conta do confronto direto entre AEK Atenas e PAOK, o segundo colocado, em março. O jogo no Estádio Toumba permaneceu com o placar zerado até os 45 do segundo tempo, quando os alvinegros anotaram aquele que seria o gol da vitória. O árbitro anulou o lance por impedimento. E o presidente do PAOK invadiu o campo para pressionar o apitador, com uma arma na cintura. Diante da confusão, o árbitro se refugiou no vestiário e acabou confirmando o triunfo dos anfitriões por 1 a 0. O tumulto de repercussão internacional levou o governo grego a paralisar a competição. Já os tribunais esportivos concederam o triunfo por 3 a 0 ao AEK, algo que ainda precisa ser ratificado depois que o PAOK entrou com sua apelação. A decisão virá nos próximos dias.

Neste momento, considerando a punição, o AEK Atenas chega aos 66 pontos, oito a mais que o PAOK, restando duas rodadas para o final do Campeonato Grego. No entanto, se for considerada a súmula do árbitro, como mostra o site oficial da Super League, são 63 pontos dos atenienses contra 61 dos tessalonicenses. E o PAOK fez questão de manter a nebulosidade com uma vitória emocionante neste domingo. Perdia em casa para o Skoda Xanthi até os 23 do segundo tempo, mas buscou a virada por 2 a 1 a cinco minutos do fim.

Independentemente de quem ficar com a taça, a conquista será um marco. Historicamente, o Olympiacos representa a força dominante no Campeonato Grego. Ainda assim, desde a metade final da década de 1990, quebrar a hegemonia dos alvirrubros se tornou tão difícil quanto passar por Cerberus na entrada do Reino de Hades. A partir de 1996/97, apenas o Panathinaikos conseguiu romper o domínio do clube de Pireu, e apenas duas vezes, em 2003/04 e em 2009/10. No entanto, em meio à crise que atinge a Grécia de diferentes maneiras, os heptacampeões nacionais davam sinais de enfraquecimento. E, caso tenha a honraria confirmada, o AEK Atenas sinaliza novos tempos na competição, após se reconstruir nos últimos anos.

Terceira força na Grécia, o AEK Atenas viveu um período áureo no início da década de 1990. Alcançou um inédito tricampeonato grego de 1992 a 1994. A partir disso, não conseguiu mais competir com os principais rivais, com alguns vices esporádicos até 2007. Já esta década representou uma penúria bem maior aos aurinegros. Em 2013, enfrentando uma gravíssima crise financeira, os atenienses acabaram rebaixados à segunda divisão. Por decisão própria, preferiram descer um degrau a mais e recomeçar do zero, na semi-profissional terceirona. A partir de então, a Dikefalos Aetos iniciaria um trabalho intenso para sanar suas dívidas e, antes de mais nada, salvar a agremiação da falência.

Em sua passagem pelo mundo inferior, o AEK não encontrou grandes problemas para retornar à elite. Emendou dois acessos consecutivos, reaparecendo na primeira divisão em 2015/16. Já nos bastidores, a missão de reestruturar os aurinegros também era bem sucedida. O clube passou a contar com apoio de antigos dirigentes, assim como de ídolos do passado e dos próprios torcedores. Em conjunto, eles compuseram uma nova organização, que comprou a maioria das ações e passou a administrar a agremiação com maior austeridade – até mesmo diante da crise econômica grega, que afetou em cheio a maioria absoluta dos times. Lenda do clube e da Grécia campeã da Euro 2004, Traianos Dellas se tornou uma das principais mentes por trás do projeto.

Aos poucos, o AEK se restabeleceu como uma potência no Campeonato Grego. Conquistou a Copa da Grécia em 2016 e terminou em terceiro na Super League, voltando à Liga Europa. Na campanha seguinte, de novo ficou entre os primeiros colocados e, nos playoffs, descolou uma vaga nas preliminares da Liga dos Campeões. Por fim, na atual temporada, o sonho se tornou real. Sob as ordens de Manolo Jiménez, de volta ao clube, os aurinegros se mantiveram nas primeiras colocações desde as primeiras rodadas. O Olympiacos, por mais que conte com um magnata por trás, investiu menos em reforços e não viu as novas peças se encaixarem, sofrendo também com as trocas constantes de técnicos. Já o PAOK, que surgiu como principal ameaça, se afogou na própria bagunça.

Nos dois turnos, o AEK conquistou vitórias cardíacas sobre o Olympiacos. Transformou um 0x2 em 3×2 na primeira metade do campeonato e, na segunda, virou por 2 a 1 com gols aos 42 e aos 49 do segundo tempo, dentro do Estádio Karaiskakis. E contra o PAOK, além do triunfo por 1 a 0 em Atenas, houve a já célebre confusão no Estádio Toumba. O jogo que terá seu peso determinado pelos tribunais. Nada que diminua os méritos do AEK, ao montar uma equipe essencialmente equilibrada. Destaque principalmente pelo trabalho de Sergio Araujo, Marko Livaja e Lazaros Christodoulopoulos na linha ofensiva.

Certamente a noite será pequena em Atenas, especialmente pelo fanatismo da torcida aurinegra. Ainda que tudo dependa da decisão de um juiz, ninguém quer perder a oportunidade de festejar o fim de um jejum tão longo. De comemorar a conquista que uma geração inteira não viu. E possivelmente os responsáveis por bater o martelo não vão mudar o cenário, considerando a consequência até pela violência dos ultras no país. O PAOK ficará na bronca. Mas terá a oportunidade de se vingar em campo. Os dois clubes se enfrentam em 12 de maio, na final da Copa da Grécia. Um jogo com dimensões colossais, diante de tudo que envolve.