Renovar o contrato de um técnico não é garantia que se cumprirá o prazo completo, mas pode indicar muita coisa. Nesta quinta-feira, o Manchester City anunciou que ampliou o vínculo de Pep Guardiola. Impulsionado pela conquista da Premier League e por todos os recordes, o espanhol assinou com os celestes até o final da temporada 2020/21, dois anos a mais do que o inicialmente acertado quando chegou ao Estádio Etihad. Se o treinador ficar até o fim, será a sua maior passagem à frente de um clube, superando os quatro anos em que ficou no comando do time principal do Barcelona, além dos três no Bayern de Munique.

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A intensidade do trabalho de Pep Guardiola gera exigências e uma boa dose de desgaste. Quando deixou o Camp Nou em 2012, ficava claro o atrito pelas eliminações recentes na Liga dos Campeões, com seus próprios traços físicos escancarando o estresse enfrentado. No Bayern, o torneio continental também foi um problema, embora existissem entraves diretos na equipe, como o que culminou na demissão do médico Hans-Wilhelm Muller-Wohlfahrt – em meio à crise de lesões incessantes. Até por aquilo que o estilo de jogo demanda, e pelas limitações de elenco que o espanhol se impõe, os impactos disso ao longo do tempo ficam visíveis.

Vale lembrar, entretanto, que Guardiola teve suas turbulências em relação aos bastidores, tanto no Barcelona quanto no Bayern. Os processos eleitorais nos blaugranas estremeceram estruturas internas no Camp Nou, sobretudo com a chegada de Sandro Rosell ao poder. Txiki Begiristain, antigo companheiro de Pep e um dos mentores de seu trabalho, deixou a direção do futebol e as relações do treinador com o presidente não eram exatamente tão afáveis. Nem mesmo quando o time estava rendendo em campo, como em 2010/11, os dois se davam bem. Segundo relatos da época, chegavam mesmo a se evitar nos corredores, com Guardiola mantendo sua amizade com o antecessor (e desafeto) Joan Laporta. Quando os resultados não se mantiveram, então, as rusgas se expuseram. O técnico não escondeu em declarações as suas insatisfações com o mandatário.

Já no Bayern de Munique, o imbróglio era diferente. Guardiola estava no clube quando a presidência encarou um vendaval, com a prisão de Uli Hoeness por evasão fiscal. As reivindicações do treinador na Baviera, todavia, eram mais sobre o seu próprio trabalho. Autonomia sempre foi uma palavra-chave ao comandante e não era bem isso que ele encontrava no dia a dia dos bávaros, até pela fortíssima influência de ex-jogadores na tomada de decisões. Sob a sombra de Hoeness, Rummenigge ou Beckenbauer, as reações às ações de Pep eram imediatas. Além do mais, seus pedidos no mercado de transferências possuíam filtros, nem sempre realizados, e com a chegada de alguns jogadores que não estavam em sua lista de desejos. Ao final, a ausência da conquista da Champions após os patamares colocados por Jupp Heynckes durante a Tríplice Coroa, juntamente com os desgastes do dia a dia e a falta de um enraizamento maior de seu estilo cobraram seu preço, encerrando sua passagem três anos depois.

Dito isto, o Manchester City surgiu como uma conjunção de fatores a Guardiola. Primeiro, olhando para o lado que não tinha mais em seus últimos tempos no Barcelona. No Estádio Etihad, pôde se encontrar com velhos aliados, como o diretor de futebol Txiki Begiristain e o CEO Ferran Soriano, conhecidos dos tempos de Camp Nou e levados pelos Citizens ainda no começo da década. Com ambos, o treinador ganhou uma liberdade maior para agir e mesmo para constituir a sua comissão técnica nestes dois anos, composta por outros parceiros de longa data, a exemplo do assistente Manuel Estiarte.

Neste ambiente, a autonomia de Guardiola se cumpre no dia a dia, embora ela também seja garantida no planejamento como um todo. O Xeique Mansour começou a atingir seus objetivos de colocar o clube no topo da Premier League com Roberto Mancini e Manuel Pellegrini, mas sabe que um treinador de ideias profundas como o espanhol pode assegurar marcas mais duradouras. Nada melhor, então, que deixar Pep dar asas às suas próprias convicções. E isso se reflete na constituição do elenco, com gastos altíssimos para cumprir as vontades do comandante, assim como pelas poucas travas na hora de se livrar de atletas importantes.

Especialmente nesta temporada, Guardiola pôde montar o grupo que desejou. Ainda há limitações, até pelo número pequeno de atletas que participam da rotação principal, o que teve suas consequências com o cansaço durante os meses finais das campanhas – principalmente na Liga dos Campeões. Contudo, considerando a juventude de grande parte de suas peças, o técnico sabe que possui uma espinha dorsal para render em alto nível por mais alguns anos, e que a tendência é que os preceitos de seu trabalho, por mais exigentes que sejam, funcionem melhor com o passar do tempo. É o que se viu no segundo ano e o que se espera rumo ao terceiro, quando os Citizens têm a chance de se reforçar um pouco mais.

Obviamente, a felicidade do Xeique Mansour traz novas cifras a Guardiola. O salário nesta renovação, acertado ainda no começo do ano, deve receber um acréscimo de ‎£3,5 milhões anuais. Os números, de qualquer forma, não parecem ser suficientes para determinar a sua continuidade, considerando que mercado não faltaria em um Chelsea ou Paris Saint-Germain da vida, se quisesse deixar o Estádio Etihad. Os ganhos pessoais se tornam um acréscimo no contexto favorável que se construiu ao comandante.

O acerto rumo a cinco anos quebra até mesmo um preceito de Guardiola. Muitas vezes, ele apontou os três anos como um período ideal para introduzir as suas ideias, conquistar títulos e sair evitando atritos maiores. Romper suas próprias palavras indica como o treinador se sente à vontade em Manchester. E, de fato, é difícil observar algum foco de tensão que possa derrubá-lo. Há uma estabilidade política muito grande, pelo modelo de posse dos clubes na Inglaterra; a administração é próxima ao técnico; ele tem dinheiro e autonomia para conduzir as transferências como bem entender; desfruta de uma estrutura de primeira qualidade, algo que elogia publicamente com frequência; e o elenco não indica qualquer rota de colisão, sobretudo pela quantidade de jovens que se mostram gratos aos ensinamentos do professor.

Aos próximos anos, existem algumas metas a Guardiola cumprir. Manter certa supremacia na Inglaterra, como já vem acontecendo nos últimos seis anos, é uma delas. Também deve aproveitar melhor as categorias de base, algo ao qual se mostra aberto, considerando investimento pesadíssimo do Manchester City no setor. E resta, claro, o desejo pela Liga dos Campeões – “desejo”, o que difere da necessidade que o desgastou no Bayern de Munique. Por enquanto, aguardar a Orelhuda um pouco mais não parece necessariamente uma bomba a explodir. Seguir convencendo o Xeique Mansour de que é o cara certo para o projeto ambicioso no Citizens, ao que parece, pode levá-lo além de 2021 se assim quiser.