O que significa ter uma assistente mulher para uma garota de quatro anos? No caso de Clara Walker, foi um momento de identificação em que ela percebeu que pode fazer parte do futebol. Ela assistia o empate por 1 a 1 entre Garforth Town e Hall Road Rangers, no dia 14 de outubro, quando percebeu que tinha o mesmo cabelo da assistente que corria na sua frente. Ela viu que era uma mulher. Sorriu para o pai e disse: “O cabelo dela é igual ao meu, eu posso ser juíza?”.

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Ela apontava para a assistente Melissa Burgin, que exercia o papel de bandeirinha na partida. Nathan, o seu pai, publicou uma foto no Twitter com a filha e a bandeirinha Melissa dando um sorriso, durante o que ele descreveu como “um das muitas paradas por lesão”.

O post no Twitter viralizou. São mais de 6 mil retuítes e 27 mil likes desde a publicação. Muita gente se sentiu emocionada pela cena e Nathan agradeceu no próprio Twitter: “Obrigado por compartilharem… Representatividade realmente importa!”.

O episódio ganhou tanta notoriedade que a Football Association (FA) decidiu convidar Clara para participar de um jogo junto com sua inspiradora, Melissa Burgin, em um jogo entre as seleções femininas sub-15 de Escócia e Gales no St. George’s Park, o centro de treinamento da entidade, no dia 24 de outubro.

A FA tratou de dar à pequena garota o seu próprio kit de arbitragem, com uma bandeirinha e um apito, e foi colocada, extraoficialmente, como a quinta assistente da partida. Ela entrou em campo para ajudar Melissa a conferir o estado das redes em cada um dos gols, antes da partida começar.

Nathan é torcedor do Nuneaton Twon, um time que disputa a National League North, equivalente à sexta divisão do país. “Eu não achei que ninguém além dos meus 200 seguidores veria isso e não achei que ninguém iria reparar nisso”, contou o orgulhoso pai à FA.

“Então, eu fiquei impressionado quando acordei no domingo de manhã e vi que foi retuitado e curtido tantas vezes que o Twitter transformou isso em um moment”, contou o pai. “Eu apenas tirei uma foto durante uma parada por lesão, Mel se virou, porque nos ouviu falando sobre ela, e sorriu”, revelou ainda Nathan. “Foi apenas um pequeno momento legal que eu pensei em compartilhar. Eu não sabia que viraria algo assim”, disse ainda o pai de Clara.

Melissa, a assistente que se tornou inspiração, também se surpreendeu. “O tuite apenas cresceu”, contou à FA a árbitra de nível 4, que é de Sheffield. Curiosamente, a cidade que centralizou as regras que padronizaram o futebol como conhecemos atualmente.

“Quando eu vi pela primeira vez, tinha cerca de 100 retuítes e então se tornou viral e tornou a tarde de domingo interessante para mim”, Melissa afirmou. “Foi obviamente uma grande surpresa. Mas é muito emocionante que nós estamos inspirando uma geração mais jovem”, continuou a assistente.

“É legal que coisas assim viralizem e virem tendência online. Isso mostra que o jogo está crescendo”, continuou. “Nós esperamos que em alguns anos, Clara pegue um apito e se envolva com arbitragem, ou apenas se envolva com o futebol feminino em qualquer função”, declarou Melissa. “Vai ser legal saber que nós a inspiramos”.

A importância da representatividade

Clara Walker, a garotinha, com Melissa Burgin, a árbitra que a inspirou (Foto: FA)

Clara ficou fascinada em ver uma mulher sendo árbitra em um jogo de futebol. Segundo o pai, ela gosta de assistir futebol no estádio e, particularmente, gosta de olhar os árbitros. “Ela normalmente diz que os árbitros são seus favoritos, já que preto é a sua cor favorita”, contou Nathan ao Sport BT.

“Ela teve um grande dia, ela adora ir ver futebol, principalmente porque ela ganha batata, mas ela teve que se contentar com um sanduíche de linguiça, já que Garforth não tem batatas”, brinca Nathan.

“Foi a primeira vez que Clara percebeu uma árbitra mulher em um jogo. Ela já tinha visto mulheres jogarem futebol antes, mas nunca viu uma mulher envolvida em qualquer área de arbitragem do jogo que nós tenhamos pagado para ver”, disse ainda Nathan. “Foi a constatação que ela poderia ser parte disso no futuro”, explicou o pai.

“Isso mostra o poder de ter um modelo a seguir. Com mais de 1.300 árbitras mulheres indo para os campos por todo o país a cada fim de semana, esperamos que muitas outras garotas de todas as idades que serão inspiradas em se envolver com o esporte”, afirmou a gerente de arbitragem feminina da FA, Joanna Stimpson.

Ver alguém semelhante a ela em campo, arbitrando um jogo, fez Clara perceber que ela pode, sim, participar do futebol. Esse é o poder da representatividade: mostrar que é possível. Clara não imaginava que mulheres podiam ser árbitras porque não via uma. A percepção muda quando existe a convivência.

Ver mulheres na arbitragem inspirou Clara, justamente porque ela se viu ali, representada por aquela pessoa que tinha os cabelos iguais aos seus. Vale para pensarmos o quanto a representatividade é importante na sociedade e, claro, no futebol, por consequência.