São Paulo, 4 de dezembro de 1993. César Sampaio acabara de marcar aquele que foi o grande gol de sua carreira: o segundo, sacramentando os 2 a 0 sobre o São Paulo, num dos quadrangulares semifinais do Campeonato Brasileiro, garantindo o lugar na final que o Palmeiras ganharia. E enquanto saía para comemorar a grande jogada que fizera – tirando Jura e Luís Carlos Goiano com um só drible, ainda passando por Zetti antes de marcar -, ouviu-se na transmissão o som vazado dos palmeirenses extasiados gritando “Sampaio! Sampaio!”. Um símbolo do carinho nutrido por aquele jogador tão discreto quanto fundamental no time bicampeão brasileiro e paulista. E, de certa forma, um símbolo do respeito granjeado durante a carreira por Sampaio, que faz 50 anos neste sábado.

A bem da verdade, aliás, César Sampaio já era visto como um volante altamente promissor antes de sua passagem pelo Palmeiras. Sua carreira foi mais uma a ser iniciada graças ao olhar preciso de um histórico revelador de talentos do Santos: Lima. Foi o ex-meia do clube da Vila Belmiro que o treinou no Centro Educacional do Jabaquara – bairro paulistano em que nasceu -, que gostou dele e que o recomendou à diretoria santista. Lá chegando, Sampaio começou como lateral direito, experimentado pelo técnico Júlio Espinosa em 1986. Mas só a partir de 1987, por obra de outro histórico personagem santista – Chico Formiga, que treinava a equipe -, foi escalado em sua posição definitiva: o meio-campo.

Mesmo num papel predominantemente marcador, César já agradava a ponto de virar nome certo na Seleção Brasileira sub-20: naquele 1987, foi convocado tanto para o Torneio de Toulon quanto para o Mundial da categoria, no Chile. Num Santos que vivia tempos turbulentos, Sampaio se consolidava como um jogador estimado, pela técnica e pela capacidade na saída de bola. E viveu seu primeiro apogeu em 1990: na campanha elogiável do Peixe dentro do Campeonato Brasileiro (quadrifinalista, eliminado pelo São Paulo), ele foi o grande destaque. Claro, recebeu as compensações: premiado com a Bola de Ouro da revista “Placar”, como o melhor jogador do Brasileiro naquele ano, e mais um a receber chances na Seleção Brasileira durante a passagem de Paulo Roberto Falcão – estreou já no amistoso extraoficial celebrando os 50 anos de Pelé, contra uma seleção do Resto do Mundo, e jogou “para valer” em outra partida amigável, contra o Chile, em novembro de 1990.

Porém, se já tinha respeito considerável no Santos, foi no Palmeiras que César Sampaio viraria um jogador definitivamente amado e respeitado. Curioso, por sua chegada ao Palestra Itália ter sido até discreta. Mas já cercada de apostas: por ele, a diretoria palmeirense cedeu Ranielli e Serginho Fraldinha ao Santos  sem lamentar muito. Ganharia mais razões ainda para comemorar o acerto da aposta: já durante o Campeonato Paulista, no segundo semestre de 1991, o volante era titular absoluto palmeirense. Nem mesmo um drible humilhante levado num dos gols do São Paulo, na estreia por um dos quadrangulares semifinais do estadual – 4 a 2 para o Tricolor, em 10 de novembro de 1991 -, perturbou a admiração que a torcida palestrina também já começava a sentir por ele.

Naqueles tempos em que o desespero dos anos de fila começava a dar lugar à esperança, César Sampaio passou a ser ainda mais amado por ser um jogador técnico que ficou no Palmeiras para os anos de glória, simbolizando o “fim do tabu”, como os colegas Mazinho, Zinho e Evair. E enfim, se tivera de aguentar os anos difíceis do Santos na virada dos anos 1980 e o desconforto dos últimos anos do tabu palmeirense, Sampaio teve a doce compensação em 1993: mais uma Bola de Ouro, fundamental nos títulos paulista e brasileiro (ergueu a taça do Nacional, como capitão), titular absoluto na Copa América pela Seleção Brasileira (experiência de Carlos Alberto Parreira, mesclando as bases de Palmeiras e São Paulo) – e, óbvio, por aquele gol que está no inconsciente coletivo palmeirense daqueles tempos, como símbolo do fim do jejum de títulos nacionais. Um gol comemorado pela torcida, como supracitado, por ter vindo de um jogador querido, que merecia aquele prêmio.

 

Em 1994, César Sampaio ainda foi o sustentáculo palmeirense nos bicampeonatos estadual e nacional. Mas foi deixado de lado na convocação para a Copa do Mundo – decisão lamentada aqui e ali, mesmo que Dunga e Mauro Silva tenham justificado plenamente a titularidade -, e também encerrou sua primeira fase palmeirense com a conquista do Campeonato Brasileiro, aceitando a proposta do Yokohama Flügels no final daquele ano.

Sem problemas. Com o profissionalismo de sempre, Sampaio não só se consolidou na equipe japonesa, mas conseguiu também o lugar buscado entre os titulares da Seleção Brasileira. Com Zagallo, foi novamente nome certo no time vice-campeão da Copa América (1995). Já em 1997, nos títulos da Copa América e da Copa das Confederações, não tinha a vaga garantida, sendo alternado com Flávio Conceição (com vantagem ao volante do Deportivo). Só que Conceição acabou sendo cortado da Copa de 1998, com problemas musculares. Abria-se o caminho para o momento de maior brilho de Sampaio com a camisa amarela: mesmo coadjuvante, foi dos raros nomes firmes na inconstante Seleção que jogou na França. Marcou três gols, mostrando capacidade no jogo aéreo. E escapou relativamente ileso do fim controverso daquela campanha, com o vice-campeonato mundial.

Sampaio na Copa de 1998: um dos raros jogadores a terem firmeza no começo e no fim daquela campanha da Seleção

Tão ileso que, no retorno ao Palmeiras, no início de 1999, Sampaio nem parecia ter saído havia cinco anos: a idolatria seguia intacta. Bem como a capacidade técnica: se já conquistara respeito de torcida e companheiros mais novo, no time do biênio 1993/94, em 1999 o volante tinha experiência indubitável a ponto de recuperar a braçadeira de capitão sem que um “ai” fosse escutado, mesmo num grupo tão cheio de estrelas como era o de sua passagem anterior. E mesmo com mais destaques técnicos – Alex, Paulo Nunes, Oséas, Júnior e, a partir daquela Copa Libertadores, Marcos -, foi novamente Sampaio que imortalizou sua imagem num grande momento palmeirense, erguendo a taça sul-americana naquele 1999, coroando sua volta e se simbolizando como o velho sobrevivente de batalhas antigas que era sinônimo de Palmeiras, como Evair.

Um dos raros nomes a terem experiência em mais uma memória carinhosa aos palmeirenses (o vice-campeonato na Libertadores, em 2000), Sampaio deixou o clube logo que o torneio continental acabou, na debandada em meio ao fim da relação com a Parmalat. A fase final da carreira começava com uma experiência fugaz de um ano no Deportivo – que, se não lhe rendeu a idolatria massiva que Mauro Silva já tinha em La Coruña, também foi respeitável. Na volta ao Brasil, uma opção própria pelo Corinthians, em 2001 – respeitada discretamente pelos corintianos, sem manchar nem um pouco a devoção rendida pelos palmeirenses (até porque foram só nove jogos vestindo alvinegro). Em 2002, a volta ao Japão, no Kashiwa Reysol e, depois, no Sanfrecce Hiroshima, entre 2003 e 2004. Outro retorno ao Brasil – e a um arquirrival palmeirense, o São Paulo, onde também manteve a honra em 2004, já aos 36 anos, mesmo sem tantas partidas (e tendo uma participação sutil e fundamental, acalmando os jogadores traumatizados no Morumbi durante o drama final de Serginho, zagueiro do São Caetano).

Na prática, ali acabou a carreira de César Sampaio. Em 2006, ainda houve uma partida pelo Persma Manado, da Indonésia. E desde então, ele segue, próximo ao mundo do futebol. Como empresário, houve a empresa CSR, em sociedade com Rivaldo. Como diretor, comandando o futebol do Palmeiras entre 2011 e 2013. E como comentarista, em participações na TV Globo (2007, em raras aparições durante os problemas de Casagrande com drogas) e, agora, nos canais ESPN. Em nenhuma delas, Sampaio comprometeu. Manteve o respeito conquistado, como um dos raros jogadores a ter atuado pelos quatro grandes paulistas. E em um desses grandes – claro, o Palmeiras -, sabe-se o tamanho da regularidade que teve a carreira de Carlos César Sampaio Campos.