Em 2005, William Carvalho era um promissor meio-campista do Mira Sintra, equipe de categorias menores de Portugal. Então com apenas 13 anos de idade, ele chamou a atenção dos dois grandes clubes de Lisboa, que abriram uma disputa para contratar o garoto. Benfica e Sporting tinham, a princípio, argumentos semelhantes para convencer William. Ambos são times de projeção internacional, dispõem de boa estrutura e poderiam dar a ele todas as condições de se tornar um grande jogador. Mas os leões contavam com uma carta na manga: William era fanático torcedor do Sporting.

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Foi sabendo disso que Aurélio Pereira, famoso descobridor de talentos do clube de Alvalade, perguntou ao adolescente quem era seu maior ídolo. A resposta veio de bate-pronto: Nani. Uma hora depois, tocava o telefone na casa da família Carvalho. Do outro lado da linha, estava o próprio Nani, que obviamente convenceu o garoto a assinar pelo clube.

Passados nove anos, os dois finalmente poderão vestir juntos a camisa do Sporting. Eles já tiveram experiência semelhante na seleção portuguesa, mas dividir espaço no clube de coração será especial. A relação de William Carvalho com Nani resume bem o que sente o torcedor sportinguista com o retorno do atacante a Alvalade. Emprestado pelo Manchester United, ele assinou contrato até o final da temporada, sem custos para o clube português. Pelo acordo, os ingleses seguirão pagando os salários do jogador, que giram em torno de € 5,6 milhões (R$ 16,7 milhões) por ano. O negócio fez parte da venda de Marcos Rojo aos Red Devils.

Desde o anúncio de sua contatação, Nani vem causando comoção entre os leoninos. Naquele que seria seu primeiro treino, sete mil pessoas foram ao estádio de Alvalade. Elas acabaram não vendo o jogador, que teve problemas com seu voo e não chegou a tempo, mas ouviram o anúncio oficial da contratação da boca do presidente Bruno de Carvalho e fizeram grande festa. Pouco depois, uma pequena multidão também se formou no aeroporto de Lisboa, para receber o ídolo. A recepção foi filmada por um torcedor e, apesar da baixa qualidade das imagens, dá para se ter uma noção da euforia.

“É uma alegria enorme ser recebido como fui na chegada ao aeroporto. É um momento que nunca vou esquecer, fantástico, único, que nunca vou apagar da minha memória. Para ser sincero, não esperava ver tanta gente no aeroporto”, disse posteriormente o jogador, à TV oficial do clube. Tamanha alegria se justifica pela idolatria que ele causa na torcida leonina. Mas também abre um ponto de reflexão pela ausência de ídolos e carência de títulos no atual Sporting. Afinal, ainda que Nani seja um bom jogador, não se pode dizer que ele é um craque capaz de feitos incríveis. Tanto que, nas últimas duas temporadas a serviço do Manchester United, atuou em 34 jogos e marcou apenas quatro gols. A soma dos números de 2012/13 e 2013/14 é menor do que os que ele conseguiu na temporada anterior: em 2011/12, foram 40 partidas e 10 gols marcados.

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A carreira no Sporting começou como jogador dos juniores. Profissionalmente, ele fez duas temporadas antes de ser negociado com o Manchester United. Em 2005/06 e 2006/07, esteve em campo em 76 jogos e marcou 12 gols. Foram 50 vitórias, 16 empates e 10 derrotas. O único troféu que ergueu foi a Taça de Portugal de 2006/07.

Retornar à sua casa, ao lugar que tanto gosta, pode fazer bem a Nani, que tem 27 anos de idade e, portanto, um bom tempo de carreira ainda pela frente. Sentindo-se confortável, tratado como ídolo e contra adversários mais fracos do que encontrava na Inglaterra, o atacante tem condições para fazer uma grande temporada e se destacar. Mas ele terá de provar isso em campo, sob o risco de ser o “novo Quaresma” – o jogador do Porto não conseguiu render o que dele se esperava desde seu retorno.

Quem também ganha muito com a volta de Nani é o próprio Sporting. Supondo que ele jogue o que sabe, o time recebe um reforço de peso, capaz de colocá-lo efetivamente na briga pelo título. E ainda há o fator marketing, com mais vendas de camisas e exposição na mídia. Basta ver que a notícia de sua contratação foi mais repercutida pela imprensa portuguesa do que a chegada do goleiro Julio César ao Benfica.

Esse é o tipo de negócio que pode ser bom para ambas as partes. Mas é preciso esperar para ver.

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