Já imaginou uma Copa do Mundo com 17 cidades sede? Segundo Joseph Blatter, era o que o Brasil queria quando foi escolhido para ser sede do Mundial. O suíço diz que a Fifa sugeriu oito a 10 cidades para sediarem o evento, o Brasil quis 17 e fecharam em 12. A informação é Jamil Chade, correspondente do Estadão na Suíça. O número é um absurdo, mas o que chama a atenção também é a confirmação de algo que todo mundo sabe, mas que não se ouve confirmação: a escolha das 12 cidades foi puramente política e ficou nas mãos inteiramente do governo brasileiro e do COL (Comitê Organizador Local). Não surpreende, mas é mais uma mentira que os organizadores da Copa contaram que têm pernas curtas.

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Em 2007, Ricardo Teixeira era o homem mais importante do Brasil. Não pela sua competência na presidência da CBF, nem por ter feito qualquer coisa que merecesse tamanho prestígio. Mesmo assim, ele era recebido em todos os lugares com honras e pompa, sempre recebendo apertos de mãos dos prefeitos e governadores das cidades pelas quais passava. O motivo? Todos queriam ser sedes da Copa do Mundo. E o beija mão era o recurso mais utilizado para isso.

Nem Lula, nos momentos de mais popularidade do seu governo, era recebido com tanta atenção. Todos queriam uma parte desse latifúndio da Copa. Convenientemente, a conversa era sempre a mesma: as exigências são da Fifa, as escolhas são da Fifa. Quem irá escolher as cidades sede, afinal? Por aqui, os dirigentes do COL diziam que a escolha passava pela Fifa. Ninguém acreditava e a Fifa mesmo chegou a dizer que quem batia o martelo era o COL.

Vale lembrar que quando o Brasil foi escolhido como sede da Copa do Mundo de 2014, muita gente apoiou. Políticos, quero dizer. A comitiva que o Brasil levou até Zurique para o anúncio tinha partidos de diversas cores e adversários políticos, inclusive. A lista tinha Eduardo Braga (AM), Alcides Rodrigues (GO), Ana Júlia Carepa (PA), José Serra (SP), Sérgio Cabral (RJ), Aécio Neves (MG), Binho Marques (AC), José Roberto Arruda (DF), Jacques Wagner (BA), Cid Gomes (CE), Blairo Maggi (MT) e Eduardo Campos (PE). Além deles, o presidente de então, Lula, o ministro do esporte, Orlando Silva, e Marta Suplicy, ministrado turismo.

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Alguns desses, atualmente, fazem oposição ao modo como foi conduzida a Copa. Algumas críticas com razão, já que o governo deixou tudo nas mãos demais de Ricardo Teixeira e a CBF, um erro que pode cair no colo do governo Lula, especialmente. E nem com a participação mais efetiva do Estado, já no governo Dilma, a coisa melhorou tanto assim. Mas algumas críticas não fazem muito sentido.

Aécio Neves, por exemplo, foi o governador de Minas entre 2002 e 2010. Será candidato à presidência e deve criticar o governo pela Copa. Justo, mas ele mesmo precisa admitir que fez parte da festa. Assim como Eduardo Campo, outro presidenciável que era governador e, bem, não tem muito o que comemorar em termos de obras para a Copa. Nenhum estado tem, aliás.

Ronaldo, Aldo Rebelo, Pelé e Blatter em 2012 (AP Photo/Eraldo Peres)

Ronaldo, Aldo Rebelo, Pelé e Blatter em 2012 (AP Photo/Eraldo Peres)

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Blatter diz que a escolha de cidades como Manaus, por exemplo, foi puramente do governo brasileiro e do COL. Nada tem a ver com a Fifa. “Não foi uma decisão da Fifa de jogar em Manaus, mas do governo brasileiro”, declarou o presidente da Fifa. Mesmo assim, Blatter insiste em dizer que o estádio construído por lá, uma obra de R$ 605 milhões, não será um elefante branco. Que há um projeto que o prefeito de Manaus disse a ele para que o estádio não fique ocioso. “Ele não será um elefante branco”.

Cidades importantes para o futebol brasileiro, como Belém e Goiânia, ficaram sem a Copa do Mundo. Outras como Campo Grande (MS), Florianópolis (SC), João Pessoa (PB), Maceió (AL), Rio Branco (AC), Teresina (PI) e Campinas (SP) chegaram a fazer campanha na CBF para conseguirem sediar a Copa. Não conseguiram.

A CBF funciona baseada nas federações de futebol dos estados. Seu poder emana daí. Os clubes, unidos, poderiam quebrar isso, porque detém 20 dos votos. Só que todas as federações estaduais unidas possuem 26 votos. São maioria. Portanto, fazer política para escolher quais dessas 26 federações receberiam jogos era uma questão delicada para a CBF. Seria preciso agradar muito ao presidente da CBF. E quem não foi agradado com sede da Copa, teve outras benesses, como amistosos da seleção, por exemplo. Ricardo Teixeira parecia o homem mais poderoso do mundo no processo de escolha.

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Fifa, CBF, COL, governos federais, estaduais, municiais, todos têm culpa no cartório pela péssima organização da Copa. O governo poderia e deveria ter impedido tantos gastos públicos. O COL poderia ter feito um trabalho melhor, como ter escolhido antes as cidades sede, por exemplo. São Paulo só foi definida como palco da Copa, oficialmente, em 2011, depois da confusão entre Morumbi, CBF, COL, Ricardo Teixeira e tudo mais. Mas dava para esperar algo diferente sabendo que o COL seria comandado pelos mesmos dirigentes da CBF?

Não dava. E essa era a razão pela qual muitos eram contra a Copa no Brasil. Não porque achassem que o Brasil não tinha capacidade para sediar, mas porque os dirigentes do futebol brasileiro não são confiáveis. CBF e COL são formados por Ricardo Teixeira e depois por José Maria Marin e seus compadres. Dava para esperar mais?

E os governos, dos três níveis, não ajudaram nem um pouco. Todos, sem exceção, foram incompetentes e politiqueiros. O governo federal deu a benção a Ricardo Teixeira, a Marin, a Marco Polo Del Nero. Governadores e prefeitos gastaram dinheiro do contribuinte como se não houvesse amanhã. Quem era contra a Copa, lá em 2007, o era muito por mais descrença nos dirigentes do que por não confiar que o Brasil pudesse fazer. Claro que pode. Claro que fará. E claro que a Copa será muito legal de ver. E é claro que iremos nos emocionar. Mas o Brasil perdeu a chance de fazer uma Copa que deixasse muito para a população em infraestrutura, em legado para o futebol. Infelizmente, sairemos da Copa igual, talvez pior, porque a conta tem que ser paga.

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