Klinsmann: um técnico de poucos sorrisos (Foto: AP)

Reverência, escolta e trabalho: o primeiro dia de Klinsmann no Brasil

A escolta apareceu na Avenida Marquês de São Vicente e impressionou. Continha carros da Polícia Federal e da Polícia Militar, motos, bombeiros e até um helicóptero. Ela poderia muito bem estar protegendo algum chefe de estado, um ministro importante de Relações Exteriores, mas apenas liberava o trânsito e garantia a segurança do alemão Jurgen Klinsmann e os 26 jogadores que ele trouxe para conhecer São Paulo.

Nunca foi a intenção do técnico da seleção americana montar a sua base para a Copa do Mundo de 2014 em qualquer lugar que não fosse a capital paulista. Há cerca de dois anos, ele veio ao Brasil para participar da Footecon de Carlos Alberto Parreira, visitou hotéis e centros de treinamento e decidiu que não encontraria cidade melhor, independente do destino que o sorteio colocaria no caminho dos Estados Unidos.

E o sorteio foi bem cruel com os americanos. Como uma repórter da CNN lembrou para o natural de Goppingen, na região de Stuttgart, deu tudo errado. Eles vão viajar mais do que ninguém, jogarão a primeira fase em três cidades muito quentes (Natal, Manaus e Recife) e contra os adversários que os eliminaram das últimas quatro Copas do Mundo. Um deles é a Alemanha, que Klinsmann treinou em 2006 e pela qual foi campeão 16 anos antes.

“É um desafio, mas estou procurando soluções. Estamos acostumados com viagens longas. Da costa leste à oeste, os voos demoram seis, sete horas”, lembrou o relativamente jovem treinador de 49 anos. “Não estamos com medo do calor. Vai ser difícil para os dois times, e às vezes jogamos em condições semelhantes, na Costa Rica, na América Central”.

A viagem para São Paulo veio bem a calhar. Enquanto os Estados Unidos vivem um dos seus piores invernos, Klinsmann trouxe jovens jogadores e cerca de oito ou nove que costumam ser convocados para o time principal para o verão do Brasil. Apenas um deles, Mix Diskerud, do Rosenborg, não atua na Major League Soccer. Conseguiu a liberação provavelmente porque seu próximo compromisso pelo Campeonato Noruguês é apenas em 23 de janeiro. Não vai perder muita coisa. Lá na Escandinávia também neva bastante.

Os termômetros próximos ao Centro de Treinamento da Barra Funda marcavam cerca de 30 graus celsius – 89 fahrenheit, já que estamos falando americano – quando Klinsmann começou o treino. Naquele momento, sua cabeça não pensava em táticas, Gana, Portugal ou Alemanha, mas em Cafu, Raí, Serginho e Kaká. “Falei para os jogadores aproveitarem o momento porque muitos grandes jogadores saíram daqui”, disse.

Klinsmann sabe que os seus comandados ainda não estão nesse nível. Ele está feliz com o desenvolvimento da liga americana e com o regresso de jogadores como Clint Dempsey e Michael Bradley. O esporte está se popularizando no país, ganhando importância, mas o alemão ainda se vê obrigado a explicar que o futebol é um trabalho de tempo integral, com treinos em dois períodos, observação de adversários e cuidados com a vida fora dos gramados.

Ex-técnico de Bayern de Munique e Alemanha, o treino de Klinsmann é bem parecido com o dos profissionais brasileiros (Foto: AP)

Ex-técnico de Bayern de Munique e Alemanha, o treino de Klinsmann é bem parecido com o dos profissionais brasileiros (Foto: AP)

Tornar esse comportamento natural para os jogadores é o primeiro passo para alcançar os seus ambiciosos planos. “Queremos ficar entre as 10, 15 seleções do mundo e jogar contra elas, não apenas nos defender. Precisamos desenvolver jogadores, treinadores. Já vimos sinais de que isso está acontecendo, mas não vai acontecer do dia para a noite”, comemorou. Tempo ele tem, pois acabou de renovar com a federação americana até 2018.

A atenção que Klinsmann dá para a vida fora dos gramados é relativa. Ex-treinador de Robbie Rogers e Thomaz Hitzlsperger, dois jogadores que informaram ao mundo que são homossexuais, Klinsmann deu muita pouca importância para o assunto. Acha que o futebol é meramente um espelho da sociedade, e se a homossexualidade é um tópico mundial, naturalmente também será dentro do esporte.

Por outro lado, ficou animado quando contou que obrigou os seus funcionários a aprenderem português. “Nosso objetivo é que todos aprendam um pouco. Temos que aproveitar que já estamos no país, é uma oportunidade espetacular”, explicou, em um dos poucos segundos nos quais trocou a expressão séria por um sorriso sutil, durante a curta entrevista coletiva que concedeu após o treinamento pouco inovador, com aquecimento, trabalho em campo reduzido para praticar infiltrações na área e um coletivo. A mesma coisa que vemos por aqui.

O assessor de imprensa balançou os braços e a entrevista terminou. Meio envergonhado, sabe-se lá porque, afinal, era o único na sala que havia conquistado uma Copa do Mundo – não, no videogame não vale -, Klinsmann agradeceu a hospitalidade que encontrou no Brasil e saiu pela porta lateral. Oficialmente, o seu primeiro dia por aqui terminou, mas é ingenuidade pensar que o trabalho não prosseguiu no hotel, com análises, vídeos e estatísticas. Subiu no ônibus junto com os jogadores e deixou o seu escritório provisório pelos próximos 11 dias e durante a preparação para o Mundial. Amanhã tudo começa novamente, com escolta da Polícia Federal, Militar, bombeiros, helicópteros e algumas bolas rolando.